sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Foco da febre amarela neste verão será litoral de SP e Vale do Ribeira

Doença, que retornou à Mata Atlântica, não tem a mesma magnitude de 2018, mas continua em circulação; dengue deve emergir, segundo especialista

SAÚDE - Deborah Giannini, do R7

Josué Damacena/IOC/Fiocruz
Haemagogus e sabethes, mosquitos transmissores da febre amarela, são silvestres
Haemagogus e sabethes, mosquitos transmissores da febre amarela, são silvestres

No verão passado, a febre amarela provocou uma epidemia no país. Neste verão, com uma cobertura vacinal maior, mas ainda baixa – apenas 60% dos brasileiros estão imunizados –, a doença não apresenta a mesma magnitude, mas continua em circulação, principalmente no litoral de São Paulo e no Vale de Ribeira, de acordo com Maurício Nogueira, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia.

“O vírus retornou à Mata Atlântica, por onde foi introduzido no século 18. Migrou com a população europeia para o interior de São Paulo, movimentando-se até a Amazônia, e agora está fazendo o caminho de volta. Hoje, é uma doença endêmica em todo o Brasil”, afirma.

Nas últimas semanas, dois homens morreram com suspeita de febre amarela e outras seis pessoas estão internadas com sintomas da doença na cidade de Eldorado, no Vale do Ribeira, região sul do Estado de São Paulo.

“A febre amarela está circulando neste momento em Eldorado, Jacupiranga e Iporanga, que são bem próximos à fronteira do Paraná”, afirma Helena Sato, coordenadora de imunização da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo.

Para o médico e doutor em microbiologia, os casos da doença no Vale do Ribeira não são uma surpresa. “O fato de ter morte de macacos e casos de febre amarela neste verão não me surpreende, já que a circulação do vírus nessas áreas era prevista. O que me surpreende é ver gente morando em área de mata que não se vacinou ainda”, diz.

Quem se vacina protege quem não pode se imunizar

Nogueira ressalta que todos devem se vacinar, independentemente de frequentar áreas de mata. “O Ministério da Saúde colocou o país inteiro como área de vacinação. Então, é preciso vacinar toda a população brasileira, mesmo quem não vai para área de mata ou borda de mata”, afirma.

Segundo Nogueira, quem não foi imunizado está correndo risco. “As pessoas que não podem tomar vacina estão protegidas pelas pessoas ao redor que estão vacinadas. Esse é o ponto fundamental da vacinação”, diz.

Mesmo prologando a campanha de vacinação contra febre amarela, no ano passado, o país não conseguiu atingir a meta de 95%, segundo o Ministério da Saúde.

Cobertura vacinal no Estado de São Paulo é baixa

A menor cobertura vacinal foi registrada no Alagoas, com apenas 32% da população imunizada - os dados do Ministério são preliminares. Já o Distrito Federal e Roraima atingiram 100% da cobertura vacinal.

Já no Estado de São Paulo, considerado o provável epicentro da febre amarela neste verão, a cobertura é de 65%, em média, com variação entre as regiões, segundo a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo.

“Na Baixada Santista, o percentual é de 65%. No Vale do Ribeira, de 66% e, no Vale do Paraíba e Litoral Norte, de 85%”, informou a secretaria por meio de nota, em referência aos locais com maior circulação do vírus no momento.

Em 2018, houve 503 casos de febre amarela confirmados no Estado, sendo que 176 evoluíram para morte.

Já Minas Gerais, que passou por epidemia a partir de 2016 e dispõe de cobertura vacinal de 91%, apresentou de junho de 2017 a junho de 2018, 527 casos confirmados, dos quais 178 evoluíram para óbito, de acordo com a Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais.

Já no período de 2016/2017, houve 475 casos confirmados de febre amarela, com 162 mortes.

Os dados mais recentes do Ministério da Saúde sobre a febre amarela foram divulgados em 17 de dezembro e correspondem ao período sazonal de 1º de julho de 2018 a 30 de junho de 2019. De acordo com este boletim, o país registra 383 casos da doença confirmados e uma morte.

O boletim do Ministério considerou o perído sazonal de 2017/2018 como "surto mais expressivo no Brasil, que afetou principalmente os Estados da região Sudeste, quando foram registrados 1.376 casos e 483 óbitos".

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, neste verão, a dengue tende a emergir. “Já há um aumento significativo dos casos de dengue no Estado de São Paulo”. O país fechou o ano de 2018 com 247 mil casos de dengue, cerca de 8 mil casos a mais do que o ano anterior.

Você sabe quais doenças esses mosquitos transmitem?

Foto: Pexels
O Aedes egypti transmite dengue, zika e chikungunya, no momento, no Brasil. É preto com listras brancas, que na verdade são escamas, e dispõe de um desenho no tórax que lembra uma lira (instrumento musical). Voa baixo e por isso costuma picar pés e tornozelos, principalmente no início da manhã e final da tarde, quando a temperatura está mais amena. Próprio de áreas tropicais, não resiste a baixas temperaturas. Sua principal fonte de alimentação é o sangue humano. É um mosquito urbano que se prolifera em áreas com grande continente populacional
O Aedes egypti transmite dengue, zika e chikungunya, no momento, no Brasil. É preto com listras brancas, que na verdade são escamas, e dispõe de um desenho no tórax que lembra uma lira (instrumento musical). Voa baixo e por isso costuma picar pés e tornozelos, principalmente no início da manhã e final da tarde, quando a temperatura está mais amena. Próprio de áreas tropicais, não resiste a baixas temperaturas. Sua principal fonte de alimentação é o sangue humano. É um mosquito urbano que se prolifera em áreas com grande continente populacional

Foto: Wikimedia Commons
O Aedes albopictus não transmite doenças no Brasil, até o momento. Estudos comprovaram que a espécie carrega o vírus da febre amarela, mas não tem capacidade de transmiti-la. O mosquito também tem potencial para transmitir dengue, zika e chikungunya. Na Ásia e na América do Norte, ele transmite essas doenças. Ele está distribuído em áreas rurais da grande maioria dos Estados brasileiros. Apresenta o mesmo hábito alimentar do primo, Aedes egypti, com maior atividade no início da manhã e no final da tarde. A diferença é que não se alimenta preferencialmente de sangue humano, mas do animal que encontrar pela frente
O Aedes albopictus não transmite doenças no Brasil, até o momento. Estudos comprovaram que a espécie carrega o vírus da febre amarela, mas não tem capacidade de transmiti-la. O mosquito também tem potencial para transmitir dengue, zika e chikungunya. Na Ásia e na América do Norte, ele transmite essas doenças. Ele está distribuído em áreas rurais da grande maioria dos Estados brasileiros. Apresenta o mesmo hábito alimentar do primo, Aedes egypti, com maior atividade no início da manhã e no final da tarde. A diferença é que não se alimenta preferencialmente de sangue humano, mas do animal que encontrar pela frente

Foto: Raquel Portugal/Fundação Oswaldo Cruz
O Sabethes, junto ao Haemagogus, é o principal transmissor da febre amarela atualmente no Brasil. É um mosquito silvestre, que vive em região de mata e costuma ficar na copa das árvores - por essa razão, pica preferencialmente macacos. Coloca seus ovos no oco das árvores. É diurno, picando do meio-dia até o pôr do sol. Chama a atenção pelo colorido metalizado, com tons de violeta, roxo, azul e verde
O Sabethes, junto ao Haemagogus, é o principal transmissor da febre amarela atualmente no Brasil. É um mosquito silvestre, que vive em região de mata e costuma ficar na copa das árvores - por essa razão, pica preferencialmente macacos. Coloca seus ovos no oco das árvores. É diurno, picando do meio-dia até o pôr do sol. Chama a atenção pelo colorido metalizado, com tons de violeta, roxo, azul e verde

Foto: Wikimedia Commons
Os flebotomíneos, popularmente chamados de mosquito-palha, cangalhinha e birigui, transmitem a leishmaniose. São pequenos, de cor clara e pousam de asas abertas. Têm hábitos noturnos. A transmissão da doença ocorre quando fêmeas do mosquito picam uma pessoa ou um animal infectado, como cães, gatos e cavalos, e picam alguém saudável, transmitindo o protozoário Leishmania chagasi
Os flebotomíneos, popularmente chamados de mosquito-palha, cangalhinha e birigui, transmitem a leishmaniose. São pequenos, de cor clara e pousam de asas abertas. Têm hábitos noturnos. A transmissão da doença ocorre quando fêmeas do mosquito picam uma pessoa ou um animal infectado, como cães, gatos e cavalos, e picam alguém saudável, transmitindo o protozoário Leishmania chagasi

Foto: Wikimedia Commons
Os Anopheles transmitem a malária. A doença é transmitida por meio da picada da fêmea do mosquito Anopheles, infectada por Plasmodium, um tipo de protozoário. Esses mosquitos são mais abundantes ao entardecer e ao amanhecer. Também podem picar durante a noite, mas em menor quantidade. É frequente na região amazônica. Apenas as fêmeas transmitem a malária. Elas precisam de sangue para o desenvolvimento de seus ovos. Os machos se alimentam apenas de substâncias com açúcar, como néctar e seivas de plantas 
Os Anopheles transmitem a malária. A doença é transmitida por meio da picada da fêmea do mosquito Anopheles, infectada por Plasmodium, um tipo de protozoário. Esses mosquitos são mais abundantes ao entardecer e ao amanhecer. Também podem picar durante a noite, mas em menor quantidade. É frequente na região amazônica. Apenas as fêmeas transmitem a malária. Elas precisam de sangue para o desenvolvimento de seus ovos. Os machos se alimentam apenas de substâncias com açúcar, como néctar e seivas de plantas

Foto: Wikimedia Commons
O Culex quinquefasciatus é o pernilongo comum. Não é um grande transmissor de doenças, mas seu potencial para isso ainda está sendo investigado. No ano passado, a Fiocruz realizou um estudo em Recife, área de incidência da zika, e constatou que o Culex também tinha capacidade de transmitir a doença. Nessa mesma região, o pernilongo transmite o parasita que causa a elefantíase, única área do Brasil endêmica para essa doença. Ele tem hábitos noturnos, se reproduz em águas poluídas e está presente no meio urbano de regiões tropicais, subtropicais e temperadas do mundo 

 
O Culex quinquefasciatus é o pernilongo comum. Não é um grande transmissor de doenças, mas seu potencial para isso ainda está sendo investigado. No ano passado, a Fiocruz realizou um estudo em Recife, área de incidência da zika, e constatou que o Culex também tinha capacidade de transmitir a doença. Nessa mesma região, o pernilongo transmite o parasita que causa a elefantíase, única área do Brasil endêmica para essa doença. Ele tem hábitos noturnos, se reproduz em águas poluídas e está presente no meio urbano de regiões tropicais, subtropicais e temperadas do mundo



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