segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Após perder pernas em carona com desconhecido, ele virou fisiculturista

                  Imagem: Arquivo pessoal
                     Arquivo pessoal

Thamires Andrade Colaboração para o UOL VivaBem

Aos 16, Vitor Dourado pegou carona na volta de uma festa com um desconhecido, sofreu um acidente e ficou biamputado. A tragédia fez com que começasse a praticar esportes e se consagrasse como fisiculturista. A seguir, ele conta sua história:.

"Sempre fui um adolescente comum, que gostava de atividade física, apesar de não praticar muito. Aos 14 anos, criei asas e comecei a sair mais com os amigos do meu irmão mais velho. Mas tudo mudou depois do meu acidente.

Tinha 16 anos e, na volta de uma festa, eu e um amigo pegamos carona com um desconhecido. Ele perdeu o controle do carro e bateu contra o poste. Quando acordei no hospital, recebi duas más notícias: havia perdido meu amigo querido e também a perna esquerda. Depois de quatro dias internado, mais um baque. Precisaria amputar também a perna direita.

Descobrir que me tornaria um biamputado foi muito difícil. Fiquei hospitalizado por 30 dias e foi um momento de grande reflexão. Eram muitos questionamentos. Como será minha vida a partir de agora? Como vou me vestir? Como vou tomar banho? Como as pessoas vão me olhar? Isso tomou conta da minha mente. Pensava no por que isso tinha acontecido e não no para que o acidente aconteceu.

                     Imagem: Arquivo pessoal
                        Arquivo pessoal

Quando sai do hospital, tinha duas opções: me culpar por ser irresponsável de entrar no carro de alguém que eu não conhecia ou virar gentil comigo mesmo e escrever uma nova história. Foi nesse momento que descobri forças de onde eu não sabia que tinha. Meus pais vestiram a capa de super-heróis e me ajudaram muito na parte emocional da minha reabilitação.

A maior dificuldade foi com relação à prótese. Além da questão financeira, já que elas são bem caras, existe a falta de informação. A gente só vê reportagens sobre a superação do 'cara' que usa duas próteses e corre dezenas de quilômetros, mas poucos falam das dificuldades que há por trás disso tudo.

Acabei indo para uma clínica em Belo Horizonte e gastei R$ 25 mil reais em duas próteses que não me serviram de nada, o que me gerou muita frustração. Foi a junção de falta de informação com profissionais na área que só querem ganhar dinheiro e esquecem que estão tratando de uma vida. Um dia conheci um casal de médicos do INSS de BH que me ajudou a conseguir uma nova prótese que deu certo.

Desistir não era uma opção e o esporte entrou na minha vida para me dar mais força para lutar

                     Imagem: Arquivo pessoal
                         Arquivo pessoal

A educadora física da minha escola, que trabalhava com deficientes físicos, me convidou para nadar, como uma forma de reabilitação e eu acabei gostando da atividade. No começo era constrangedor, pois como tinha perdido equilíbrio, ela tinha que me pegar no colo. Mas esse foi o momento em que me libertei. Ela me indicou para um professor que trabalhava com atletas e foi aí que eu comecei a entender esse mundo de treinar e competir. Ganhei o campeonato estadual e depois o brasileiro.

Comecei a conhecer outros esportes, como o vôlei adaptado, e fiz parte do time campeão brasileiro. Foi quando eu entendi para que o acidente aconteceu: era para mostrar todos os dias as forças que eu tenho escondida dentro de mim. Também cheguei a treinar jiu-jítsu e até mesmo bocha. Já malhava, mas passei a assistir a alguns vídeos de campeonato de fisiculturismo e resolvi competir.

Treinava pesado, duas vezes ao dia, a ponto de chegar em casa com as próteses sangrando

Mas sabia que a dor era o caminho que me levaria até onde queria. Virei campeão mineiro e fui convidado para participar do Arnold Classic Brasil em 2015, onde também fui campeão.

Mudanças na alimentação

                     Imagem: Arquivo pessoal
                        Arquivo pessoal

O acidente me fez ver que meu corpo é um templo e que se eu não cuidar dele, minha mente não funciona bem. Quando entrei na natação, estava acima do peso da galera que competia comigo e acabava ficando para trás. Isso me motivou a buscar uma alimentação mais saudável. Tive que aprender a comer brócolis, couve-flor e outras verduras. Não gosto até hoje, mas sei que é preciso ingerir esses alimentos. Na época do fisiculturismo, era muito regrado a ponto de cozinhar de um jeito que as comidas não tinham muito sabor, pois era tudo sem sal e gordura.

Hoje, minha dieta é mais flexível e como as coisas que gosto, mas não sempre que quero, já que, por mim, comeria sempre. Tento deixar minha alimentação mais gostosa possível, com muitas frutas e alimentos que me dão prazer. Voltei agora para natação, pois vou começar a fazer triatlo. Minha próxima meta é participar de um IronMan.

Trabalho com pacientes que acabaram de amputar a perna, ajudando a mostrar a eles a realidade que vão enfrentar. Vejo que o que enfrentei do hospital até hoje foi para poder mostrar às pessoas que tudo é possível. Mesmo que esteja em dificuldade, saiba que sempre existe um caminho.".

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