Apaixonada pela educação e por crianças, a professora se sentiu ainda mais realizada profissionalmente a partir da metodologia do Programa A União Faz a Vida
Por Sicredi Mato Grosso
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2019/A/I/Ly2LRpRnAS09D6nbvKcw/imagem-materia.jpg)
Limitação física não impediu Márcia de ir atrás do seu sonho: ser educadora — Foto: Divulgação
Mulher forte, determinada e apaixonada pela educação. É assim que podemos definir a professora Márcia França Maciel Eberhardt, de 42 anos, nascida em Angélica (MS) e que está há 32 anos na cidade de Juína. É a terceira de um total de seis filhos e nasceu com um problema físico, uma malformação genética que fez o pé esquerdo ser torto para dentro e como na cidade onde nasceu não havia tratamento, os pais se mudaram para o interior de São Paulo, para a cidade de Cabo Sul, quando ela tinha seis anos. Lá os pais conseguiram iniciar um tratamento com ela e com a irmã, que tinha paralisia infantil. O tratamento dela foi muito difícil, fez cirurgia e houve complicações que levaram os médicos a cogitar amputação da perna. No entanto, o pai incansável de procurar os melhores cuidados para a filha conseguiu um tratamento que dispensou a amputação. Com um ano de tratamento, já que os seus oito anos, ela conseguiu ir para a escola. Foi alfabetizada tarde, mas a paixão pelo estudo começou antes mesmo de pisar em uma sala de aula. Ela lembra que o primeiro dia que foi à escola estava com a perna engessada e por conta dos tratamentos ela ia para a escola pulando num pé só, ou na garupa da bicicleta, e até mesmo agarrada às costas do pai, a quem hoje agradece imensamente todo o amor, carinho e dedicação, pois se não fosse hoje teria uma perna mecânica.
A professora Márcia lembra que lamentou muito ter entrado tarde na escola. Ela diz que as irmãs mais velhas ia à escola e ela ficava em casa brincando de escolinha e tentando copiar as letras e atividades que as irmãs faziam. Quando chegou a vez dela ir à escola foi só alegria.
Quando ela tinha por volta de 10 anos o pai viu uma propaganda do governo federal dizendo que havia terras baratas em Mato Grosso. Essa proposta, aliada à crescente violência que já era registrada em São Paulo, o pai decidiu vender o que tinha e mudaram para Mato Grosso, para Juína. Naquela época o pai já tinha cinco filhos e preferiu tentar a vida em outro lugar. Chegando à cidade, começou a trabalhar com madeira, até que sofreu um acidente e quase morreu. Parou com a madeira e começou a trabalhar com garimpo, atividade que também crescia na região. Depois do garimpo foi ser comerciante e atualmente é feirante, no auge dos seus 72 anos, enfrentando a dificuldade em se aposentar.
E a história escolar de Márcia continuou em Mato Grosso. Cursou o ensino fundamental e quando ia para o Ensino Médio, essas séries só eram oferecidas no período noturno. E foi neste momento que enfrentou mais um desafio para estudar, a resistência do pai em permitir que as filhas estudassem à noite. Para ele, as moças deveriam estudar de dia, porque à noite elas só iam para “passear” e “namorar”. Foi uma luta para convencê-lo. Tentou conversar e não conseguiu que ele desse ouvidos. Chorou e não o sensibilizou, até que decidiu fazer greve de fome. Ficou três dias sem comer e vendo isso o pai decidiu conversar com ela. Disse que se ela quisesse estudar à noite teria uma condição: ele iria leva-la e buscá-la todos os dias. “Como o meu desejo era estudar mesmo, não me importei”.
No primeiro ano ele foi todos os dias levá-la à escola. Os colegas anunciavam quando o pai chegava e até o guarda da escola não deixava ela sair mais cedo, mesmo que a aula tivesse terminado antes, antes que o pai chegasse. No segundo ano fez igual e no terceiro ele estava cansado. Foi então que disse a ela que não iria levá-la mais. Se tinha feito tudo certinho todos os dias, não seria diferente no último ano.
A professora Márcia afirma que conseguiu fazer dois cursos no Ensino Médio, um na área de Contabilidade – porque adorava matemática - e o Magistério, por meio de um projeto iniciado pelo governo federal dentro do Educação de Jovens e Adultos (EJA). Pouco antes de fazer 18 anos decidiu que era hora de começar a trabalhar. Procurou uma escola na cidade e conversou com a diretora. A vaga até estava aberta, mas houve resistência em contratá-la porque era menor de idade. Para trabalhar, com educação de jovens e adultos, o contrato teve ser no nome de outra pessoa.
Começou a trabalhar e se apaixonou de vez pela educação. Lecionou para jovens e adultos por 10 anos. Nesse meio tempo ela fez faculdade Pedagogia pela UFMT, sendo que o curso era um pouco presencial e um pouco à distância. Pouco tempo depois, por volta de 2001 e 2002 foi aberto concurso pela prefeitura para professores. Ela fez e ficou em primeiro lugar, para orgulho dela mesma e de toda a família. E foi trabalhando para a prefeitura que iniciou na educação infantil, onde atua há cerca de 17 anos, e atualmente leciona para crianças de seis e sete anos. Nos últimos sete teve o contato com o Programa A União Faz a Vida, do Sicredi, pelo qual tem uma admiração e paixão. “Como tinha afinidade com projetos por causa do ensino médio, gostei muito do programa e a cada ano me apaixono mais”, diz ao afirmar que o programa tem um peso enorme em sua vida profissional, pois proporciona a ela diferentes formações, palestras e contato com profissionais renomados. “E essa formação ajuda no crescimento intelectual e profissional, para levarmos para sala de aula o que há de melhor”.
Ao longo desses últimos sete anos, a professora Márcia atuou diretamente com o desenvolvimento dos projetos do programa na escola. E mesmo quando ocupou cargo de direção da escola não se afastou, tendo sempre participado das capacitações e encontros estaduais.
A docência trouxe muitas alegrias para a professora e a ajudou a vencer o preconceito. Ela conta que por causa da deficiência e das cirurgias teve sequelas, e ainda hoje a perna esquerda é manca. A perna direita tem umas manchas vermelhas de nascença que atraem muitos olhares curiosos. Por conta disso, desde a adolescência ela se recusa a usar pernas de fora quando sai de casa, só usa calça, para que as pessoas não a olhem de forma diferente e a reconheçam pela pessoa que ela é pessoal e profissionalmente, para que não enxerguem inferioridade nela por conta da deficiência. “Deficiência não é limitação”, afirma.
Márcia se casou com Sérgio Eberhardt, que é marceneiro. Estão juntos há 17 anos. Não tem filhos, e isso é outro momento de sua vida que foi difícil, pois fizeram vários tratamentos para engravidar e não conseguiam. Conseguiu uma vez, mas perdeu a bebê Érica, logo depois que ela nasceu. Isso já faz 13 anos. “Fizemos muitos tratamentos, tomei muito medicamento que me fazia mal, então, depois da perda entregamos para Deus. Infelizmente não tivemos filhos, mas tenho sobrinhos que amo”.
Márcia França Maciel Eberhardt, de Juína, é educadora e participa do Programa A União Faz a Vida. Indicada pela cooperativa Sicredi Univales MT/RO
Fonte: g1.globo.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário