segunda-feira, 28 de outubro de 2019

No dia contra o preconceito, portadores de nanismo contam histórias de discriminação

Ana Maria diz que preconceito é diário
Ana Maria diz que preconceito é diário Foto: Guilherme Pinto / Agência O Globo

Diego Amorim

Eles são analistas, comediantes, bancários e jornalistas. Estudam, casam, têm filhos, vão ao supermercado e trabalham. Adoram ir à praia, ao parque e também ao cinema. Apesar de viverem uma rotina normal, como a de qualquer outro cidadão, os portadores de nanismo precisam enfrentar, todos os dias, a discriminação das ruas. Desde 2017, uma data marca a luta contra as dificuldades enfrentadas por essas pessoas: o dia nacional do combate ao preconceito às pessoas com nanismo, celebrado nesta sexta-feira aqui e em outros 25 países.

São olhares, risadas e apontamentos que incomodam. É hipocrisia falar que não há preconceito, vivo todos os dias. Eu utilizo transporte público e vejo sempre um telefone celular apontado para mim, um comentário. Quando estou num bar, por exemplo, esqueço que sou diferente dos meus amigos. Mas é só eu olhar para o lado que uma câmera me fotografando traz a realidade de forma humilhante — afirma Ana Maria Almeida, de 31 anos, que nasceu com nanismo após uma mutação genética e trabalha na área de Recursos Humanos.

Ana Maria é casada e trabalha na área de recursos humanos
Ana Maria é casada e trabalha na área de recursos humanos Foto: Guilherme Pinto / Agência O Globo

Segundo ela, o apoio de familiares e amigos é fundamental.

Eu sou filha única, nasci numa família sem histórico de nanismo. Sempre fui cercada de muito carinho, amor e proteção. Já ouvi, quando criança, uma mulher dizer que tinha pena de mim, por eu ser "pequena e diferente". A minha mãe disse a ela que nós é que tínhamos pena dessa ignorância. Todos os meus familiares e amigos me dão apoio.

A data foi escolhida em homenagem ao ator americano Billy Barty, nascido em 25 de outubro de 1924 e criador de uma associação, na década de 1950, que lutava pelos direitos de pessoas com nanismo e por um tratamento médico adequado. O nanismo foi reconhecido como deficiência física no Brasil em 2004. Segundo a jornalista Sabrina Pirrho, de 37 anos, muito do que está previsto em leis não é praticado.

As leis de locais adaptados para nossa deficiência estão bem longe do ideal. É muito difícil, por exemplo, subir e descer do ônibus. É um esforço — conta Sabrina, destacando que a cidade não é adaptada à realidade de pessoas com nanismo: — Imagine o que significa para alguém com 1,25m pegar um metrô ou entrar ou sair de uma estação.

Sabrina afirma que preconceito é maior em adultos
Sabrina afirma que preconceito é maior em adultos Foto: Arquivo pessoal

A jornalista afirma ainda que a discriminação é mais comum de ser encontrada nos adultos, e não em crianças. Um episódio vivido há cerca de seis anos, dentro de um comércio, é lembrado até hoje.

Em geral, as crianças olham naturalmente, com uma curiosidade ingênua. Certa vez, uma criança olhou para mim e disse: "Mãe...mãe...olha esta menina!" E a mulher deu a pior resposta do mundo: "Filha, ela é uma boneca que anda!" — lembra a jornalista.

A bancária Viviane de Assis, de 40 anos, revela que, apesar de todo preconceito, a baixa estatura nunca a impediu de viver uma vida plena. Apaixonada pelo carnaval e passista de escola de samba, ela foi a primeira mulher a quebrar o padrão que colocava apenas mulheres acima de 1,60m como candidatas à corte do carnaval carioca, em 2015.

                     Viviane de Assis é passista de escola de samba
Viviane de Assis é passista de escola de samba Foto: Thiago Freitas

Estava numa loja na Tijuca, na Zona Norte do Rio, e, uma das vendedoras começou a rir de mim e disse que não atenderia "esse troço", que era para tirarem "o troço" dali. Fiquei muito constrangida, registrei ocorrência na polícia e o caso está em investigação.

Na quarta-feira, a Comissão da Pessoa com Deficiência da Assembleia Legislativa do Estado do Rio (Alerj) se reuniu para discutir o tema. Entre as medidas que serão propostas aos parlamentares da comissão estão melhorias de mobilidade urbana, como altura dos degraus e da roleta dos ônibus, e políticas públicas para o diagnóstico precoce.

Esse assunto precisa estar sempre em pauta. É necessário lutar contra o preconceito e pensar em políticas públicas que minimizem todas as dificuldades que essas pessoas enfrentam no dia a dia — afirma o presidente da comissão, deputado Gil Vianna (PSL).

                        Humorista Leonardo Reis, conhecido como Gigante Léo
Humorista Leonardo Reis, conhecido como Gigante Léo Foto: Paulo Roberto Lopes/Divulgação

Humorista e ator, o Gigante Léo já terminou um namoro por causa do preconceito. Mas nem isso foi capaz de tirar sua autoestima. Em 2017, ele foi o protagonista do filme "Altas expectativas", que conta a história de um portador de nanismo tímido pela deficiência que tenta conquistar uma mulher. Para o papel, Léo conta que precisou entender como é se sentir envergonhado pela condição, algo fora da sua realidade.

Tive que fazer uma preparação para conseguir enxergar esse lado. Eu nunca me senti mal por ser diferente dos outros. Uma vez já fui maltratado num consultório médico, o cara disse que não ia me atender. Foi infelicidade de um cara completamente despreparado. Na outra ocasião, eu fui conhecer a mãe da minha ex-namorada, que não tinha nanismo, e a mãe dela não quis que eu entrasse na casa. Nós terminamos o namoro, nem quis gastar energia à toa — diz, aos risos.

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