Valdir Azevedo, de 66 anos, foi hospitalizado com falta de ar na segunda-feira (30) e faleceu na terça-feira (31); família aguarda o resultado do exame que confirma diagnóstico de COVID-19.
Por Beatriz Borges, G1 SP — São Paulo
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Valdir Azevedo com as crianças projeto social do qual fazia parte no Jardim Elba, na Zona Leste de São Paulo. — Foto: Arquivo Pessoal
O professor Valdir Azevedo era conhecido no Jardim Elba, na Zona Leste de São Paulo, por ensinar futebol voluntariamente para as crianças da comunidade. Há 30 anos ele montou sua primeira escolinha na região, e ficou à frente do projeto por 15 anos.
Depois de enfrentar uma depressão que o deixou oito anos sem sair de casa, ele voltou, em 2019, a treinar 200 alunos nos campos. No último dia 16 de março ele participou de uma festa para comemorar sua volta aos gramados, dias depois começou a apresentar sintomas de coronavírus e no dia 31 de março faleceu com suspeita de COVID-19.
"Ele foi internado segunda-feira (30) às 14h, ele morreu terça-feira (31) às 10h20 da manhã. Eu tive uma crise quando entubaram ele porque eu sabia a gravidade. Essa doença é inexplicável, é você esperar o pior, só um milagre de Deus", disse a filha de Valdir, Simone Azevedo.
A previsão é a de que o resultado do teste, que confirma a morte por coronavírus, seja divulgado para a família no dia 13 de abril. Nos documentos de Valdir, a causa da morte foi "síndrome respiratória aguda grave e pneumonia não especificada". Entretanto, Simone conta que foram tomadas todas as medidas aplicadas às vítimas do coronavírus.
"Eu fui reconhecer ontem corpo para fechar o caixão e é tudo lacrado com dois sacos pretos, é uma frestinha só que eles abrem para você ver o rosto dele", conta. " [O enterro] Foi dois minutos, não deu nem tempo da família chorar. Entrando um, saindo outro, o número de mortes é muito maior. No hospital tinha 30 pessoas que eu contei, na gaveta ontem tinha umas 10, lá no cemitério tinha mais de 100 covas", completa a filha de Valdir.
Reginaldo de Oliveira foi quem levou Valdir de volta aos campos de futebol em 2019, ele conta que criou um projeto social para que a comunidade do Jardim Elba disputasse a Taça das Favelas e convidou o amigo para fazer parte da ideia.
“Morreu o cara que fazia tudo, mesmo sem perna ou sem dedo", conta Reginaldo. "Eu acho que a morte dele matou a escolinha em 70%. Tem 200 crianças cadastradas, as mães estão me ligando até agora falando ‘meu filho não para de chorar, o que vamos fazer?’, diz o amigo.
"Ele era aquele cara disciplinador, na escolinha você não podia falar palavrão, se, por exemplo, o pai chegasse lá e falasse ‘olha, meu não está legal á em casa', ele disciplinava, fazia dar dez flexões, fazia dar 30 voltas na quadra, ele era disciplinador e a criançada amava ele", completa.
O amigo de Valdir conta que há duas semanas houve uma festa para comemorar 1 ano do projeto Complexo Jardim Elba e que crianças e diretores participaram da celebração.
"Nós fizemos um ano de Complexo Jardim Elba no dia 16 de março, um ano certinho. Eu falei, vamos fazer uma festa só com as crianças e uns diretores. Fiz a festa, vieram as crianças, todo mundo tirando foto com ele, os moleques brigando para tirar foto com ele. Foi a despedida. Fez a festa, passou duas semanas ele morreu", disse.
Reginaldo conta que Valdir ligou para ele assim que começou a apresentar os sintomas, mas achou que era uma gripe comum, por isso, demorou até procurar atendimento médico. "Ele começou falando ‘ah, peguei uma gripinha’, e falava que não ia ao hospital e eu chamava ele de teimoso", relembra.
Simone Azevedo conta que o pai tinha hipertensão, tinha parado de fumar havia oito anos e que perdeu os membros inferiores por conta de uma doença vascular inflamatória. Segundo ela, ele reclamava muito de falta de ar, mas, apesar das comorbidades, não queria ser levado ao hospital.
"Ele começou a passar mal, disse que sentia falta de ar quando ia tomar banho. Ele achava que era o chuveiro que estava muito quente, mas como ele é uma pessoa com vários problemas, ele tinha medo de morrer no hospital. Então, ele falou para mim, ‘eu não vou no médico'", diz Simone.
Valdir vivia com sua irmã e após alguns dias ela também começou a apresentar os sintomas da doença. Uma semana depois ela ligou para Simone para que a sobrinha a levasse ao hospital.
"Na segunda-feira (30) de manhã ela me mandou uma mensagem falando 'pelo amor de Deus, me leva no médico, eu e seu pai não estamos bem'. O meu pai descia do sofá e ia até a porta em um minuto, ou até menos, quando eu cheguei para buscar ele, ele demorou mais de 15 minutos com falta de ar. Quando ele entrou dentro do carro, ele disse ‘Simone, eu vou morrer’", conta a filha de Valdir.
O professor de futebol ficou internado no Hospital Estadual do Sapopemba e a tia de Simone permanece internada em estado grave na instituição.
Casos de coronavírus em São Paulo
A Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo registrou nesta sexta-feira (3) 219 mortes relacionadas ao novo coronavírus. O número é três vezes maior que o da última sexta (68 mortes). Os casos confirmados também quadruplicaram, saltando de 1.223 para 4.048.
O total soma 121 homens e 98 mulheres. Até o momento, cerca de 90% deles ocorreram em serviços privados.
Entre as 219 mortes, 24 tinham mais de 90 anos; 57 na faixa de 80-89 anos; 66 entre 70-79; 45 de 60-69 anos. As demais vítimas incluem pessoas com menos de 60 com comorbidades que, assim como os idosos, representam grupo mais vulnerável a complicações da Covid-19.
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Dicas de prevenção contra o coronavírus — Foto: Arte/G1
Fonte: g1.globo.com
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