terça-feira, 16 de outubro de 2018

CPB lança nesta terça-feira projeto com bolsas de ensino superior gratuitas Por CPB

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Por CPB

O Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) lança nesta terça-feira, 16, às 15h, o Programa “Atleta Cidadão”. Um evento no CT Paralímpico, em São Paulo, marcará a apresentação do projeto. No evento, haverá a divulgação de um programa de bolsas de estudo de graduação no formato à distância (EAD). Maiores detalhes e o edital serão conhecidos na ocasião. A imprensa interessada na cobertura deve confirmar presença ao e-mail imp@cpb.org.br.

O Programa "Atleta Cidadão" tem como objetivo estimular o desenvolvimento pleno da cidadania dos atletas em todas as fases da carreira (iniciação, alto rendimento e pós-carreira) por meio da capacitação e orientação profissional. Para viabilizar o Atleta Cidadão, o CPB estabeleceu parcerias com instituições que realizam tais capacitações. Atualmente, o Comitê trabalha em conjunto com a Estácio, o Ernest Young Institute, a EF English Live, a Lee Hatch Harrison e a Adecco.

A apresentação contará com a presença de dois medalhistas paralímpicos: o piauiense Antônio Delfino, ouro nos 200m e 400m T46 (amputados de braço) em Atenas 2004 e prata nos 400m em Sydney 2000, e a goiana Adria Jesus, bronze no vôlei sentado feminino no Rio 2016. Os dois são os primeiros atletas a concluírem o ensino superior por meio da iniciativa do CPB.

O Atleta Cidadão visa aperfeiçoar o antigo projeto “Transição de Carreiras”. Criado em setembro de 2015, o “Transição” atendeu cerca de 250 atletas em sua fase final de trajetória. A ideia, no momento, é fazer a mentoria enquanto os esportistas ainda estão na ativa. Os esportistas recebem suporte por meio de cursos de graduação, idiomas e programas de mentoria e coaching.

"Entendemos que o processo de capacitação da pessoa com deficiência tem um papel vital na sua formação como indivíduo. Por este motivo, demos uma nova dimensão ao Programa Atleta Cidadão, com a intenção de abrir o leque de oportunidades a estes atletas desde o seu período ativo, o que dará a eles uma nova perspectiva e reduzirá impactos da saída do status quo quando o esportista decidir encerrar sua carreira", disse Mizael Conrado, presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro.

Fonte: cpb.org.br

CBVD divulga tabela de jogos da 2ª fase do Brasileiro Feminino

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Por CPB

A Confederação Brasileira de Voleibol para Deficientes (CBVD) divulga a tabela de jogos da segunda fase do Campeonato Brasileiro Feminino de Vôlei Sentado, que acontecerá de 19 a 21 de outubro, tendo como palco das partidas o Centro de Excelência do Esporte, localizado na Av. Oeste, nº 56-250, Setor Aeroporto, em Goiânia, Goiás.

Logo na abertura, teremos a partida entre o Adap/GO e o Sesi/SP, equipes que decidiram o título da primeira fase em Aracaju, Sergipe. Em quadra, estarão brigando pelo título da competição dez das 12 jogadoras que conquistaram a medalha de bronze nos Jogos Paralímpicos Rio 2016.

Quatro equipes competirão no Campeonato Brasileiro Feminino: Associação dos Deficientes de Aparecida de Goiânia (ADAP) e Associação dos Deficientes do Estado de Goiás (ADFEGO), ambas do estado de Goiás; SESI, do estado de São Paulo; e Associação Atlética Anthares, de Alagoas.

Confira a programação do Campeonato Brasileiro Feminino de Vôlei Sentado:

19 de outubro

18h – Adap/GO x Sesi/SP

19h – Adfego/GO x Anthares/AL

20 de outubro

8h30 - Adfego/GO x Adap/GO

9h30 – Anthares/AL x Sesi/SP

15h30 – Adap/GO x Anthares/AL

16h30 – Sesi/SP x Adfego/GO

21 de outubro

8h30 – Decisão 3º lugar

9h30 - Final

*Com informações da Confederação Brasileira de Voleibol para Deficientes (CBVD).

Fonte: cpb.org.br

Como o cadeirante deve usar a escada rolante? Acesse e veja algumas dicas- Vejam os vídeos.

Foto: ACADEF

Muitos cadeirantes nos procuram para tirar dúvidas sobre sua mobilidade em locais distintos, principalmente em shoppings centers, aeroportos, trens e ônibus. Com relação ao acesso em ESCADAS ROLANTES, por exemplo, é preciso muita atenção e prática, pois o equipamento é MUITO PERIGOSO quando não há respeito perante as dicas de nossos profissionais especialistas da Fisioterapia e da Terapia Ocupacional.

Especialmente convidado o usuário, Joel Irineu Storck, aceitou mostrar essas dicas, em duas situações diferentes, a primeira com cadeira motorizada e a segunda com cadeira manual, acompanhado do fisioterapeuta Jivago Di Napoli.



Confira as dicas, que servem tanto para cadeiras de rodas motorizadas como as convencionais:

1º Se puderes se organizar antes de sair de casa em seu itinerário, perfeito! Confira o site do estabelecimento, ligue para se informar se o local possui acessibilidade e sempre prefira utilizar os elevadores. Caso os elevadores estejam indisponíveis, verifique se o local oferece rampas ou plataformas para cadeiras de rodas;

Os símbolos de acesso estarão nos locais, conforme modelo:


2º Em rampas, só desça se tiver experiência. Caso contrário, solicite auxílio de outrem, sendo que o acompanhante deverá lhe conduzir de ré pela descida da rampa. Incline seu corpo para frente, assim evitarás que sua cadeira tombe de costas. Caso o estabelecimento não possua rampas ou elevadores, e houver a opção pelas escadas ROLANTES, a maneira correta e segura de subir/descer com sua cadeira de rodas é sempre ACOMPANHADO por outra pessoa capaz e, tanto na subida como na descida o acompanhante deverá estar atrás de você a um passo de distância de seu equipamento, apoiando na bengala do encosto. Pode ser o próprio segurança ou monitor do local devidamente orientado ou seu amigo ou familiar.

Posicione-se próximo à área da escada, desligue sua cadeira e destrave/libere os freios para sistema manual. Com sua cadeira de rodas, sempre suba de frente e desça de costas, segurando os corrimãos com ambas as mãos até o final do último patamar, com seu corpo inclinado para frente da cadeira de rodas. O acompanhante deverá lhe conduzir preferencialmente quando a escada estiver sem outras pessoas no mesmo fluxo, ou que sejam convidadas a aguardar sua saída, para evitar acidentes.

ÔNIBUS e TRENS

3º Se o coletivo estiver equipado com a plataforma vertical, a orientação máxima, é que proceda com embarque na plataforma de ré e desça de frente. Siga as orientações com a supervisão do responsável pelo veículo coletivo, pois há diferentes modelos. No caso de trens ou ônibus que possuam sistema de nivelamento, observe se não há vão entre a plataforma de embarque e o veículo. Caso haja um vão, solicite que o responsável pelo veículo lhe ajude a transpor manualmente este obstáculo. Se o vão for demasiado espaçoso, solicite uma rampa ou ponte-guia para embarcar/desembarcar com segurança.

4º os vídeos importantes para você assistir, mostram abaixo o CERTO e o ERRADO em escadas rolantes com usuários de cadeiras de rodas:

 

 
(mas não retire as mãos do corrimão!)

Como não descer escada rolante, você confere no vídeo abaixo:

Jamais desça escadas rolante com sua cadeira de rodas de frente!
 
Sempre utilize o auxílio de um condutor atrás de você tanto na subida como na descida, mas lembre-se sempre de utilizar os corrimãos caso não tenha supervisão de outrém.

 

Se sua cadeira motorizada não possui RODAS ANTITOMBO NA TRASEIRA, não ingresse sozinho na escada rolante, solicite ajuda, ou procure a rampa. No vídeo abaixo, a pessoa sofreu grave acidente!

 

Profissionais consultados:

Jivago Di Napoli, é mestre em acessibilidade e inclusão social da APTA FISIOTERAPIA E ACESSIBILIDADE-LTDA

Natália Cardoso é Terapeuta Ocupacional da ACADEF.

Passeios turísticos são adaptados para pessoas com deficiência física em Alagoas - Veja o vídeo


As praias e lagoas paradisíacas de Alagoas são atrativos turísticos para todo mundo, mas para todo mundo mesmo. Diversos passeios estão adaptados para receber pessoas com alguma deficiência física.

Na Lagoa Manguaba, em Marechal Deodoro, a 30 km de Maceió, a prática de stand up paddle é inclusiva. A bailarina Gabriela Amorim aproveitou para curtir um pouco do esporte, que até então não sabia que era possível praticar.

"Eu nunca ia saber que tinha essa opção de fazer stand up paddle pra cadeirante. Foi uma experiência incrível, eu amo ter contato com a água, é muito maravilhoso poder me sentir livre, flutuando, é uma sensação indescritível", contou a bailarina.

A fisioterapeuta Aline Gomes, que não enxerga, também se aventurou na prancha de SUP.

"Tudo o que eu não consigo fazer em terra como pessoa com deficiência, eu consigo fazer na água. O equilíbrio mesmo é que está sendo incrível, porque eu tenho dificuldade de equilíbrio e consegui me equilibrar agora tranquilamente", comemorou Aline.

Na capital, o projeto Praia Acessível acontece uma vez por mês, geralmente no sábado, na praia da Pajuçara.

"Sempre estamos trazendo coisas novas, trouxemos uma piscina para os meninos que têm autismo brincarem, eles gostam muito de água. Tem várias outras atividades que a gente vem trazendo e adaptando para cada deficiência", explicou João de Barro, coordenador do projeto.

Edmilson é cadeirante, mas conseguiu realizar mergulho nas piscinas naturais de Maceió — Foto: Reprodução/TV Globo

Os cadeirantes ainda ganham uma passarela na praia para que quem tem problema de locomoção possa chegar até a água.

E já que estamos na água, o passeio pode ser estendido até as piscinas naturais dentro do mar. As jangadas que levam os banhistas até lá também são adaptadas para quem usa cadeira de rodas.

A prefeitura de Maceió e a Capitania dos Portos tem realizado capacitações com os jangadeiros para garantir o serviço acessível a todos os públicos.

"O coração está a mil, eu já andei de barcos, mas nunca de jangada. Balança, mas é um balançar muito gostoso. A expectativa é enorme, porque não só vou para as piscinas naturais, mas também vou mergulhar", afirmou o mochileiro Edmilson Sá.

"É uma sensação de liberdade que eu jamais pensaria que ia ter. Sabe quando você esquece que você não anda? Eu acho que isso vai ficar marcado sempre. E aí você percebe como é gostoso quando as coisas têm acessibilidade e você não precisa se preocupar com mais nada, você só vive, e isso não tem preço, é maravilhoso", disse Edmilson após o mergulho.

Assista o vídeo:

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Pessoas com deficiência visual podem ler e produzir textos em biblioteca da USP

Aberta a qualquer cidadão, Sala de Acessibilidade tem leitor autônomo, teclado em braile e outros equipamentos

Foto do leitor autônomo. Sobre sua superfície, há um livro aberto e, ao lado, uma tela exibe o conteúdo em texto do livro.

No começo de setembro, a Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, em São Paulo, inaugurou, em sua biblioteca, uma Sala de Acessibilidade para pessoas com deficiência visual. Localizada no segundo piso, a sala oferece aos usuários diversos equipamentos para o acesso à leitura e produção textual e foi desenvolvida em parceria com o Programa USP Legal, ligado à Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da USP.

Em um país onde 23,9% da população – cerca de 45,6 milhões de pessoas – têm algum tipo de deficiência, a Universidade também precisa se posicionar para atender a essa demanda crescente, afirma Adriana Domingos Santos, vice-chefe da Biblioteca FEA. Ela explica que essa é uma conquista não só da faculdade como de todo ambiente acadêmico, já que poucos locais possuem tecnologia que contemple essa população, até mesmo na USP.

A sala é aberta para todo o público, contando com todo o acervo da FEA. O usuário também pode utilizar os equipamentos para qualquer livro que levar consigo, bem como para a escrita e o desenvolvimento de trabalhos. O ambiente é espaçoso e os funcionários da biblioteca estão treinados para ajudar os usuários que necessitem.

Entre os aparelhos, destaca-se o leitor autônomo e instantâneo para pessoas cegas, que efetua a leitura de qualquer documento escrito em voz alta para o usuário, com a velocidade regulável e a possibilidade de gravação. Há também um ampliador de caracteres clássico para pessoas com baixa visão, um teclado em braile, um teclado ampliado de fácil visualização e um software no computador capaz de ler os caracteres na tela para o usuário cego.

Biblioteca da FEA
Horário de funcionamento: segunda a sexta-feira, das 7h30 às 21h30
Telefone: (11) 3091-5998
Local: Av. Luciano Gualberto, 908 – Cidade Universitária – São Paulo-SP


A deficiência como fronteira do contrato social em Martha Nussbaum

                      Foto: Booksandideas
                         Retrato em preto e branco de Martha Nussbaum

Por Lucio Carvalho

Não conheço muitos pensadores contemporâneos, principalmente na filosofia, que tenham se debruçado diretamente sobre questões de interesse às pessoas com deficiência. De forma indireta, há muitos que sem dúvida abordam temas de interesse seja no que diz respeito à vida social quanto às condições existenciais e morais dos indivíduos, no entanto me parece ser uma experiência um tanto incomum encontrar quem os aborde objetivamente e, mais raro ainda, quem apresente uma compreensão abrangente e profunda de seus problemas e não um receituário de soluções consertativas. Isso é o que há de melhor no capítulo que a filósofa norte-americana Martha Nussbaum dedicou às pessoas com deficiência no seu “Fronteiras da justiça: deficiência, nacionalidade, pertencimento à espécie”, publicado no Brasil em 2013, pela Martins Fontes.

Essa ausência, eu não diria exclusão, parece ter mais uma causalidade histórica do que propriamente teórica. A essa altura do séc. XXI, não é segredo para mais ninguém que até o período da Segunda Guerra Mundial praticamente todas as questões relativas às deficiências, especialmente as intelectuais (sobre as quais ela mais se debruça), encontravam-se confinadas ao interesse da medicina e de investigações e intervenções muito tímidas da psicologia, campo que se ampliou e diversificou em muitas ramificações desde então. Seja como for, é pacífico afirmar que até então o interesse científico para com a deficiência intelectual era predominantemente clínico, naquilo que nos estudos da deficiência ficou conhecido como o “modelo médico da deficiência”.

Nussbaum, no entanto, se interessa menos pelos aspectos clínicos da deficiência do que pela sua emergência na esfera pública do séc. XX e em atualizar os estudos contratualistas, principalmente os de John Rawls1, de quem foi aluna em Harvard. No livro, ela esclarece também que muito do seu interesse decorre de uma experiência familiar. Um sobrinho seu, Arthur, diagnosticado com as síndromes de Asperger e de Tourette, percorre o capítulo do livro e ela muitas vezes compara detalhes de sua experiência de vida a de outras pessoas com deficiência, principalmente Sasha, uma jovem com paralisia cerebral grave e profundamente dependente, e Jamie, um garoto que nasceu com a síndrome de Down e cuja vida vem sendo relatada em diversos livros escritos pelo seu pai, o crítico literário Michel Berubé. É, portanto, do confronto de vidas reais às teorias de filosofia política que ela analisa a problemática, tendo como lastro a verificação dos marcos legais norte-americanos e a emergência da cultura inclusiva mundo afora.

Antes de ir um pouco mais além ao que diz respeito às suas ideias propriamente ditas, acho importante dizer que se trata de um livro muito acessível no que se refere ao cuidado com a linguagem e a apresentação dos conceitos políticos empregados. Sem dúvida, é um cuidado pessoal da autora que, como intelectual pública, é muito presente no debate público nos EUA e em todo o mundo, publicando regularmente na imprensa e dialogando com dramas sensíveis do mundo contemporâneo, tais como as questões feministas, globalização, equidade e justiça social. Junto a Amartya Sen, o “inventor” do índice de desenvolvimento humano, Martha fundou em 2004 a Associação para o Desenvolvimento e Capacidade Humanos. Em dezenas de artigos e livros, ela vem desenvolvendo o que chama de a “teoria das capacidades”, postulado filosófico que, em linhas gerais, pretende obter o desenvolvimento de condições civis que permitam universalizar o conceito de dignidade humana onde é mais negligenciado. Não se trata, portanto, de uma proposição teórica, mas de uma que é dirigida às resolução prática dos problemas que afetam as democracias contemporâneas em todo o mundo.

Como já dito, neste livro Nussbaum parte de um tempo menos remoto àquele tratado na filosofia de Michel Foucault ou Gilles Deleuze, o de institucionalização e controle do espaço público. Foucault2, principalmente em “História da loucura”, analisa exaustivamente os mecanismos de exclusão na modernidade e como isso vem desaguar nos principais conflitos mundiais do século XX, com a naturalização do racismo e eugenismo como crenças morais distintivas. Não é que Nussbaum não os comente ou menospreze, apenas que seu interesse opera muito mais na própria composição das sociedades livres e no contrato social moderno.

A inclusão da pessoa com deficiência intelectual na sociedade tem uma história muito breve, ainda. Segundo Nussbaum, os contratualistas clássicos, mesmo Rawls, que faleceu em 2002, fundamentam o contrato social na capacidade que as pessoas tem em cooperar em condições de igualdade visando a vantagem mútua. Nessa perspectiva da teoria da justiça, uma tênue linha de continuidade leva às situações de desigualdade a noção de cuidado especial e altruísmo e, em seu centro, a ideia kantiana do indivíduo como um fim em si mesmo. Nussbaum, além de esmiuçar previamente as teorias do contrato social e considerar que nem sempre oferecem respostas satisfatórias em relação ao que denomina por “fronteiras”, ainda assim considera que é preciso oferecer uma alternativa que nos alce para o tempo futuro. Para tanto ela se apoia na sua teoria das capacidades e num consenso ampliado de esfera pública no qual as diversidades estejam garantidas, as condições de igualdade permanentemente impulsionadas e a dignidade humana sempre preservada.

Sobre este tripé, Nussbaum vai dialogando com os pensadores modernos sem nunca deixar de observar a realidade, o que a distancia de qualquer visão idealista de justiça. A forma com que avalia o mundo é através das suas instituições sociais fundamentais: a justiça, a assistência e a educação. Apesar de neste livro abordar a educação apenas no que se refere às formas de atendimento as pessoas com deficiência e sua conformação formal e legal, Em outros livros, Nussbaum tem desenvolvido suas preocupações quanto às competências lucrativas e o que chama de educação para as capacidades compreensivas. Num dos seus outros livros traduzidos no Brasil, “Sem fins lucrativos”, ela examina detalhadamente o problema do abandono dos valores humanitários na educação ocidental.

Nussbaum reflete permanentemente sobre o contratualismo e sua ideia de inclusão passa justamente por um esforço em garantir o valor da busca pela igualdade e de uma atenção às dificuldades individuais apesar dos flagrantes desequilíbrios sociais e econômicos. Em seu enfoque das capacidades, o ser humano não pode ser instrumento do outro e sua ideia supera o simples reconhecimento3 através de uma ideia de inclusão como superação da estigmatização4 e obtenção e manutenção do autorrespeito moral de cada pessoa.

Em relação à deficiência, Nussbaum dedica-se especialmente a relacionar o que chama de “ética do cuidado” com o conceito de desenvolvimento de capacidades. Mesmo que o termo remeta ao que se refere ao preconceito contra pessoas com deficiência, o “capacitismo”, sua concepção de “capacidade” é inteiramente oposta ao privilégio de uma capacidade sobre a outra ou de qualquer discriminação competitiva ou qualitativa.

O que ela não deixa de considerar nem menospreza é o fato de que o cuidado é real e dispende recursos humanos, familiares e sociais. Convencer a sociedade da importância de investir na inclusão é, em sua visão, uma forma de convencê-la de que precisa melhorar essencialmente e nas relações humanas amplo senso. Detendo-se longamente em valorizar as condições de vida, assistenciais e educacionais, Nussbaum nunca generaliza as formas de atender as pessoas. Com um princípio em tudo semelhante ao de Ortega y Gasset5 em “O homem e sua circunstância”, ela não propõe um modelo de atenção, mas que a atenção seja a adequada a cada indivíduo e que o social colabore com ele, e não a oposta readequação.

Como crítica do funcionalismo e argumentando contra a ditadura dos “standards”, seu enfoque é o do autorrespeito e da dignidade. No que se refere à escolarização – e para tanto ela se vale dos exemplos já mencionados – critica situações que rompam com a equidade de direitos e a preservação da dignidade. Refutando o procedimentalismo jurídico, Nussbaum insiste que a justiça não se esgota na lei e nem no acesso à justiça, mas na experiência civil, onde o direito ao cuidado e a noção de autorrespeito deveriam preponderar ao direito formal e às convenções sociais. Nesse ponto, ela defende que a educação deva ser heterogênea e o estado responsável por garantir a cada um o que lhe é necessário para conviver em condições de igualdade com os demais. A preocupação com igualdade, ou equidade, aliás, é central tanto no seu pensamento como em todo o contratualismo rawlsiano.

Os elementos ou requisitos fundamentais de uma sociedade menos excludente e desigual são, para Martha, o apoio mútuo, a cooperação e a ideia de uma democracia pluralista. Citando exemplos de cidadãos norte-americanos que obtiveram da justiça daquele país as garantias de acesso adequado à saúde e educação, ela avança da seara dos direitos formais ao apoio e consideração das diversas habilidades e critica duramente o sistema educacional norte-americano, segundo ela quase todo voltado ao mercado competitivo e valores de consumo, assim como a decadência no financiamento das escolas públicas.

Sobre assistência, Nussbaum dedica um longo arrazoado sobre a vida real das pessoas com deficiência, seus cuidadores e as dificuldades legais sobre acesso à renda e serviços acessíveis e de qualidade. Centrando-se muito na questão das mulheres, como feminista que é, Nussbaum denuncia severamente as sociedades que sobrecarregam sem desonerar de nenhuma forma famílias de baixa renda e sustentadas pelo trabalho feminino. Nesse ponto especificamente, volta a fortalecer a ideia de compromisso social coletivo em torno às dificuldades e custos reais e na necessidade de um contrato social que preveja a diversidade de condições sem, no entanto, deixar de fomentar o desenvolvimento social, econômico e cultural de cada pessoa.

Para além das questões sobre deficiência, Nussbaum ainda aborda em seu livro duas outras situações bastante complexas. Trata-se das desigualdades globais (e consensos internacionais) e, por fim, os direitos que atendem aos animais não humanos. Como filósofa interessada especialmente na ética e na justiça global, Nussbaum se vê muito a vontade com o legado de Rawls e devota à educação dos sentimentos o capítulo final de seu livro. Mesmo considerando que a demanda por melhorar as condições objetivas do mundo passa necessariamente por melhorar as condições subjetivas, seu livro é um reforço considerável nas esperanças de quem propõe o ser humano mais como agente da benevolência do que do do egoísmo. Para ela, as fronteiras da justiça continuam a requerer reflexão e novas soluções. E a curiosidade intelectual e a coragem imaginativa benevolente, como propõe, poderão continuar a nos encorajar contra o cinismo e o desespero que às vezes bate à porta.


CDH deve votar projetos em prol de pessoas com deficiência

Jos van Galen/SXC
Pessoa se locomove em cadeira de rodas.

A Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) se reuniu nesta quarta-feira (10) e tem sua pauta de votação orientada para os direitos das pessoas com deficiência. Acessibilidade, reconhecimento e inclusão social são os temas centrais das propostas a serem discutidas e votadas.

Um dos projetos estabelece critérios e mecanismo para a avaliação e identificação da pessoa com deficiência (PLS 84/2017). O texto é uma medida temporária a ser adotada enquanto o que é definido na Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI, Lei 13.146, de 2015) não for colocado em prática pelo Poder Executivo. A legislação prevê a realização de uma avaliação biopsicossocial, que, contudo, não foi regulamentada pelo Executivo.

O projeto, do senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), define que laudos serão suficientes para a identificação da pessoa com deficiência, desde que emitidos por profissionais habilitados para o reconhecimento de condições físicas, mentais, sensoriais ou funcionais expressivamente diferentes dos padrões socialmente construídos e que sujeitem a pessoa a restrições no acesso a bens, serviços e espaços. O texto recebeu voto favorável do relator, senador Paulo Paim (PT-RS).

Outro projeto que trata do reconhecimento da pessoa com deficiência é o PLS 316/2016, que determina que as pesquisas feitas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ou por outras instituições públicas de pesquisa, gerem informações sobre a aptidão para o trabalho das pessoas com deficiência. A intenção da proposta, do senador Romário (Pode-RJ), é facilitar o cumprimento, pelas empresas, da legislação de cotas para pessoas com deficiência (Lei 13.146, de 2015). Paim também é relator do texto.

Acessibilidade para crianças

A pauta conta ainda com duas propostas que obrigam estabelecimentos públicos e comerciais a fornecerem melhores condições de acessibilidade e inclusão para crianças com deficiência. O PLS 433/2017, de Cássio Cunha Lima, obriga supermercados, hipermercados, empórios e aeroportos a oferecer carrinhos de transporte de compras ou de bagagem adaptados para o transporte de crianças com deficiência. Pelo texto, os carrinhos adaptados deverão ser oferecidos em quantidade proporcional à demanda de clientela. Romário, relator na comissão, votou pela aprovação da matéria.
Já o PLS 382/2011, do ex-senador Vital do Rêgo (MDB-PB), determina que centros de compras com área de lazer infantil tenham pelo menos 5% dos brinquedos com condições de acessibilidade para crianças com deficiência. A relatora ad hoc da proposta, senadora Regina Sousa (PT-PI), foi favorável ao texto.
A acessibilidade também é o foco do PLS 650/2011, que obriga os empreiteiros responsáveis pela construção dos imóveis financiados pelo programa Minha Casa, Minha Vida a promover, nas unidades habitacionais, as adaptações necessárias para atender necessidades individuais de beneficiários idosos e de pessoas com deficiência. O projeto é do senador Humberto Costa (PT-PE) e o relator é o senador Paulo Paim, que votou pela aprovação da proposta.

Infância protegida

Os direitos das crianças são ainda abordados no PLS 43/2018, da senadora Regina Sousa. A matéria assegurar proteção social a filhos de pais e mães presos, como o incentivo à amamentação para a mãe encarcerada e a substituição da prisão preventiva por prisão domiciliar no caso dos presos e presas com filhos pequenos. Na CDH, o projeto é relatado pelo senador Telmário Mota (PTB-RR), que votou pela sua aprovação.

Orçamento

Antes da votação das matérias, a comissão deve discutir e votar as emendas do colegiado ao Projeto de Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2018, na forma do PLN 27/2018, que prevê a receita e fixa a despesa da União para o exercício financeiro de 2019.
A CDH se reúne a partir das 11h, na sala 2 da Ala Senador Nilo Coelho, no Anexo 2 do Senado.