Apenas em 2019, foram 25 novas contratações de pessoas com deficiência que tiveram apoio do Programa de Empregabilidade em Catanduva (SP)
Por G1 Rio Preto e Araçatuba
Banco de Empregos gera 25 contratações de pessoas com deficiência em 2019 — Foto: Divulgação/Prefeitura de Catanduva
O Programa de Empregabilidade tem dado suporte para pessoas com deficiência (PCD) no mercado de trabalho em Catanduva (SP). Somente em 2019, 25 candidatos foram contratados ao longo do ano.
Os interessados podem cadastrar seu currículo pelo site criado pela prefeitura, a partir daí as empresas acessam os dados do candidato visando o recrutamento de acordo com o perfil e as limitações de cada um.
Além do acesso on-line, o programa também oferece atendimento e cadastro presencial, que é realizado por uma deficiente visual que auxilia os candidatos na elaboração do currículo.
Atualmente o banco de empregos possui 145 currículos cadastrados. Apesar disso, a coordenação do programa alerta que outros 60 currículos estão com informações desatualizadas. Na cidade, cerca de 30 empresas utilizam a ferramenta em busca de candidatos.
É lei
A Lei 8.213/1991 estabelece a política de cotas para inclusão de pessoas com deficiência e reabilitados no mercado de trabalho. A lei prevê que toda empresa com 100 ou mais empregados deve destinar de 2% a 5% dos postos de trabalho a pessoas com deficiência.
As empresas que possuem de 100 a 200 empregados devem reservar 2% de suas vagas; entre 201 e 500 empregados, 3%; entre 501 e 1000 empregados, 4%; e empresas com mais de 1001 empregados, 5% das vagas.
Quase 24% da população brasileira é composta por pessoas que possuem algum tipo de deficiência. De acordo com o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui 45 milhões de Pessoas com Deficiência (PCDs).
Objetivo é proporcionar um dia diferente, com voos de parapente, às pessoas com deficiência e que enfrentam dificuldades de locomoção
Projeto oferece voo de parapente, em João Pessoa, para pessoas com deficiência — Foto: Gutemberg Cunha
Um projeto desenvolvido por uma faculdade particular de João Pessoa promove neste sábado (18) e domingo (19) o "Não consigo Andar, mas Posso Voar". O objetivo é proporcionar um dia diferente, com voos de parapente, às pessoas com deficiência e que enfrentam dificuldades de locomoção. O projeto é desenvolvido na Praia do Sol, no litoral paraibano, das 8h às 15h30.
No local, há uma estrutura montada com tendas e lanches para os participantes e a expectativa é receber cerca de 50 cadeirantes da Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Para auxiliar os participantes a realizar os voos, pilotos voluntários estarão disponíveis, chamados de Pilotos do Bem, durante os dois dias do evento. O projeto já beneficiou mais de 250 cadeirantes.
O projeto tem como objetivo estimular pessoas com deficiência, para mostrar que elas podem ir além e realizar os seus sonhos. Gutemberg Cunha é voluntário do projeto pela terceira vez e sentiu desde a primeira vez que participou que não poderia deixar de continuar ajudar a ideia. "Eu disse a mim mesmo que faria o possível para não deixar de vir porque você vê seus amigos e outras pessoas com deficiência descer do ar com um sorriso gigante estampado no rosto. É muito bom ver a felicidade deles", disse Gutemberg.
Os voos são gratuitos. Para participar é basta acessar o site da instituição e se inscrever. Todo o ano, as inscrições são abertas no início de janeiro.
O projeto acontece neste sábado (18) e domingo (19), em João Pessoa — Foto: Gutemberg Cunha
Usuários do 'BlindHelper App' têm acesso a vistas aéreas captadas de drones, que se movem em todas as direções, com base no mapa da Paraíba.
Por G1 PB
Aplicativo criado na PB permite que pessoas com deficiência visual fiscalizem obras públicas — Foto: Silas Yuidi/Arquivo pessoal
Um aplicativo desenvolvido por um pesquisador da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) possibilita que pessoas com deficiência visual tenham acesso à fiscalização de obras públicas. De acordo com Silas Yudi de Oliveira Santos, o “BlindHelper App” oferece uma abordagem de acessibilidade aos sistemas de realidade aumentada, que tem uma utilização quase impossível para pessoas com deficiência visual.
A ferramenta foi criada com a finalidade de garantir acessibilidade ao sistema Obras 4D, desenvolvido pelo Laboratório de Aplicação de Vídeo Digital (Lavid) da UFPB para o Tribunal de Contas do Estado da Paraíba (TCE-PB).
Por meio do dispositivo, Silas Yudi faz com que o conteúdo do sistema Obras 4D seja absorvido pelas pessoas com cegueira ou baixa visão. Elas podem captar pelas mãos o marcador na tela e a aplicação configurada no sistema oferecerá opções de “visitar” as obras públicas para saber em qual situação elas se encontram.
O aplicativo capta os movimentos através de um “acelerômetro” no dispositivo móvel e oferece as opções via audiodescrição, realizando vibrações para afirmar ao usuário que a ação dele foi assimilada.
“O usuário movimenta seu smartphone para cima ou para baixo para navegar entre as opções. E para a direita, ou para a esquerda, visando confirmar ou desistir da ação de ouvir o conteúdo daquela opção”, explicou o pesquisador.
Interação do 'BlindHelper' é feita com base nos movimentos que os usuários fazem com as mãos — Foto: Silas Yudi/Arquivo pessoal
Interações através de movimentos do usuário com as mãos
O BlindHelper possibilita que o usuário interaja com o sistema Obras 4D por meio de um mapa da Paraíba. As pessoas com deficiência visual utilizam óculos de realidade aumentada para encontrar as obras existentes no estado.
Os usuários têm acesso a vistas aéreas captadas de drones, que se movem em todas as direções, e podem fiscalizar a execução das obras públicas.
“As interações são todas baseadas em movimentar o smartphone com a mão, não há tela sensível ao toque. Com isso, há um diferencial para sanar a possível dificuldade de usuários cegos ou com baixa visão em manusear telas. Em trabalhos futuros, também pode haver a opção de utilização por comando de voz”, destacou Silas.
App pode ser configurado para outros usuários
O BlindHelper foi criado apenas como um modelo restrito para servir de acessibilidade ao sistema Obras 4D. Mas é possível configurá-lo para outros sistemas.
“Por se tratar de protótipo, testamos apenas com um usuário cego. Ele gostou da iniciativa e sugeriu melhoras na configuração do modelo, como ajustar a sensibilidade da captação dos movimentos e acelerar a fala”, ressaltou o pesquisador.
Para Silas, a expansão do aplicativo BlindHelper é uma realidade possível com custos baixos e atenderia a outras necessidades da população com deficiência visual.
Cláudia Werneck criou a ONG Escola de Gente há quase 20 anos para promover a inclusão de pessoas com deficiência
Anderson Baltar de Ecoa, no Rio de Janeiro (RJ)
Para muitos, ela é a "vovó da bebê do ano". Mas quem conhece o trabalho de Cláudia Werneck, 62, sabe que a mãe da atriz Tatá Werneck e avó da pequena Clara Maria Werneck Vitti, nascida em 23 de outubro, tem uma atuação intensa ligada à educação e à inclusão.
Cláudia é a criadora da ONG Escola de Gente, organização localizada no Rio de Janeiro que atua com capacitação de jovens para a comunicação com pessoas com deficiência e apoio a políticas públicas visando à inclusão. "Trabalho com participação democrática. A pessoa existe e tem direito a uma vida com as mesmas oportunidades que as outras. Mas não há como fazer inclusão sem comunicação. Não admito nenhuma forma de discriminação", afirma.
Em 2020, a ONG completará 18 anos de atividade. O envolvimento de Cláudia com a questão da deficiência, no entanto, tem mais de 28 anos.
Jornalista, Cláudia foi tocada inicialmente em 1991, quando era chefe de reportagem da revista Pais e Filhos. Por pedido do filho mais velho, Diego, foi conhecer o irmão recém-nascido de um amigo. O bebê tinha Síndrome de Down.
"Era uma família de classe média-alta que morava na Barra da Tijuca. Quando a mãe do menino soube onde eu trabalhava, me pegou pelo braço e pediu ajuda. Não existia internet nem livros sobre o tema no Brasil. Naquela noite, eu dormi de olho aberto, mesmo sem ter nenhuma criança com deficiência na família. Sempre tive o desejo de ter o jornalismo como função social e a encontrei naquele momento", relembra.
Imagem: Felipe O'Neill/Divulgação
Cláudia Werneck é jornalista e começou a estudar sobre inclusão em 1991
Do apelo, surgiu uma matéria, que foi publicada em agosto de 1991 e ganhou prêmio da Associação Médica Brasileira. No processo de apuração, ao conversar com adultos com Síndrome de Down, Cláudia ouviu uma frase que a marcou:
Me disseram que Down era como a Aids. Querer falar e não conseguir mata. Isso me destruiu como profissional. Até então me achava a superjornalista e, naquele dia, vi que não desempenhava minha função da forma correta.".
Cláudia pediu demissão da revista e passou a incessantemente pesquisar sobre o tema. Em 1992, lançou o primeiro livro brasileiro sobre a Síndrome de Down, "Muito prazer, eu existo". Recebeu e respondeu, a mão, mais de 3 mil cartas que chegaram. E passou a ser convidada para programas de entrevistas, com direito a ter a apresentadora Xuxa como uma de suas maiores divulgadores e incentivadoras. Outros livros vieram, e a jornalista passou a rodar o Brasil e vários países para dar palestras.
"Sabe a felicidade de um jornalista quando ele descobre algo que ninguém sabe? Eu tinha descoberto que as pessoas com deficiência fazem parte da vida, da sociedade e não são invisíveis. Eu me sentia fazendo o bem, algo verdadeiramente importante, trazendo uma informação de utilidade pública. E me encontrei como jornalista", relata Cláudia Werneck, que contabiliza 14 livros publicados.
Formando jovens para a inclusão
Após se dedicar por 10 anos à escrita e às palestras, a jornalista deu uma nova guinada em sua vida, em 2002, ao fundar a Escola de Gente. Com a instituição, Cláudia deu vazão à necessidade de formar pessoas que seriam multiplicadoras do conhecimento acumulado após 10 anos de estudos e militância.
"O objetivo foi fazer uma organização que formasse jovens, que ensinasse as políticas, que atuasse no cotidiano e tivesse como estratégias a comunicação inclusiva, que trata de temas de valor humano, e a comunicação acessível, que garante todo o discurso de acessibilidade. Acreditamos que a juventude é o principal agente de transformação de uma sociedade."
Imagem: Divulgação/Escola de Gente
A ONG Escola de Gente promove oficinas e cartilhas em escolas para estimular a inclusão por meio da comunicação
A essa altura, toda a família já estava envolvida com a causa. O marido, Alberto, tinha transformado sua empresa de informática na WVA Editora, especializada em livros em formatos acessíveis. Tatá, à época estudante de teatro na Unirio (Universidade do Rio de Janeiro), se engajou na Escola de Gente e criou um grupo de teatro, "Os inclusos e os sisos".
O trabalho do grupo criou uma inédita experiência de teatro inclusivo no Brasil, onde pessoas com qualquer deficiência poderiam acompanhar os espetáculos. O filho, Diego, criou um fórum de discussões na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), onde estudantes de jornalismo e direito discutiam o enfoque da imprensa sob a ótica da inclusão.
Imagem: Divulgação/Escola de Gente
Tatá Werneck em um dos projetos promovidos pela ONG Escola de Gente (foto de arquivo)
Após quase 18 anos de atuação, o legado da Escola de Gente é vasto. A ONG surgiu para capacitar jovens para a comunicação inclusiva, ou seja, ensinar às pessoas como se comunicar com quem tem uma deficiência: Libras, audiodescrição, criação de conteúdos em várias plataformas para que todos os tipos de público possam ser atingidos pela mensagem. Para isso, ofereceu oficinas em escolas, criou cartilhas e fez parcerias com entidades privadas e públicas, como o Ministério Público.
Posteriormente a organização passou a fazer também programas de rádio, projetos de educação inclusiva e atuação em ações de acessibilidade, com foco na formação de políticas públicas. No momento, a Escola de Gente dá consultoria para o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sobre como fazer as eleições serem acessíveis, de forma que todo eleitor possa participar sem qualquer tipo de entrave.
A atuação na formulação de políticas públicas, aliás, é uma das vertentes que mais encantam Cláudia Werneck.
Meu desafio não é captar dinheiro para fazer projeto. E, sim, para continuar pensando, incidindo, dia a dia, nos conselhos, nas políticas, nas leis."
A jornalista destaca que a maioria dos orçamentos públicos hoje são criados sem pensar em minimizar a discriminação, e é exatamente aí que a ONG pode ajudar. "Ninguém sabe quanto custa não discriminar. Nós sabemos."
Capacitando comunidades
Uma das pessoas que tiveram a vida transformada pela Escola de Gente é Vinicius Pierre, 30 anos. Morador da Vila Kennedy, comunidade da Zona Oeste carioca marcada pela violência e falta de oportunidades, ele tinha 22 anos quando conheceu o trabalho da ONG. "Era jogador de futebol e tive a carreira abreviada por contusões. Sempre me preocupei com o social e vi, numa capacitação promovida pela Cláudia na minha comunidade, uma grande chance de mudar a minha vida e a das pessoas", relata.
Imagem: Arquivo pessoal
Vinicius Pierre e Cláudia Werneck
Vinicius logo se tornou um "capacitador" e militante. Fez parte do grupo de teatro de Tatá Werneck e hoje estuda jornalismo, além de ser assessor na área de inclusão no gabinete de um deputado federal. Ele afirma que a Escola de Gente deixou um legado importante em sua comunidade: "O mais importante é entendermos que as pessoas com deficiência não são coitadinhas. Elas precisam e merecem ter um espaço igualitário na sociedade".
Aplicativo para acessibilidade cultural
A mais recente iniciativa da Escola de Gente foi lançada em setembro: o aplicativo "Vem Cá". O objetivo é disponibilizar uma programação cultural com atrações que ofereçam algum tipo de acessibilidade. De forma colaborativa, os promotores podem incluir os seus eventos.
"No aplicativo, temos vários tipos de acessibilidade listadas, como a audiodescrição, rampas para cadeirantes, tradução por Libras e cartazes e cardápios em braille. Porém nosso conceito de acessibilidade é mais amplo. A gratuidade é uma importante forma de acesso", explica Cláudia. O aplicativo, disponível nas plataformas Android e IOS, já registra mais de 2 mil downloads.
Imagem: Felipe O'Neill/Divulgação
Cláudia Werneck mostra o aplicativo "Vem Cá", para que o público encontre atrações culturais acessíveis
"Não dá para descansar"
Com cerca de 400 jovens formados em projetos presenciais, a ONG calcula que mais de 500 mil pessoas foram atingidas por suas ações, como programas de rádio, espetáculos teatrais e outras iniciativas desenvolvidas por pessoas capacitadas pela organização.
A Escola de Gente já recebeu 60 premiações, sendo três da ONU (Organizações das Nações Unidas) por conta de iniciativas consideradas como algumas das mais inovadoras do planeta: o grupo de teatro "Os inclusos e os sisos", um projeto de leitura acessível e outro de formação de agentes de acessibilidade nas favelas.
Ainda assim, Cláudia Werneck se sente com energia para novos projetos
Não existe ativismo sem olhar para a urgência do outro. Eu tenho a pressa das famílias. Você não pode dar um passinho e achar que está abafando. Não dá para descansar. Se você fizer isso, o mundo anda para trás."
No meio do caminho tinha uma porta fechada. Tinha uma porta fechada no meio do caminho. Obstáculos são frequentes na estrada de pais que procuram colégios para seus filhos com deficiência. A lista de desculpas para não matricular um aluno com limitações físicas ou cognitivas é infinita: espaço estruturalmente inadequado, professores sem especialização e receio sobre a convivência com as outras crianças são algumas delas.
Recusar a matrícula de um aluno baseado em deficiência não é apenas insensível, é crime. Quem o comete pode ir para a cadeia. A Constituição e outras leis garantem acesso igualitário à educação para todos. A nova Lei Brasileira de Inclusão começou a valer há dois meses (em janeiro de 2016). Um dos pontos mais importantes é a proibição de cobrança de taxa extra por escolas particulares para aceitar alunos com deficiência.
A lei também prevê punições como a detenção de dois a cinco anos para quem impedir ou dificultar o ingresso da pessoa com deficiência em planos privados de saúde e a quem negar emprego, recusar assistência médico-hospitalar ou outros direitos a alguém, em razão de sua condição. Mesmo assim, esse direito ainda está longe de ser uma realidade. O Metrópoles acompanhou as dificuldades de três famílias brasilienses na hora de encontrar uma escola para os filhos com deficiência.
As mãos estudiosas de Lucas Victório (na foto acima), 17 anos, adorariam passar as páginas de um livro, mas não obedecem os comandos do cérebro. Os pequenos dedos da irmã dele, Mariane, 4 anos, trocam as folhas quando a leitura termina. Lucas é paraplégico, devido a uma má formação genética, nasceu com essa condição, que nunca o impediu de aprender. É preciso ver além da cadeira de rodas e do que Lucas não consegue fazer para conhecê-lo. São as conquistas que o definem, não as desabilidades.
Lucas em seu quarto, onde guarda medalhas conquistadas em competições de física e matemática
O quarto de Lucas é cheio de medalhas e troféus conquistados em competições de física e matemática. Em uma das disputas, ele só não foi até a fim por não conseguir manusear um compasso. As barreiras surgem a todo instante, mas Lucas as supera com determinação.
A trajetória de Lucas, porém, não é feita somente de alegria. Antes de ser considerado aluno modelo, ele foi rejeitado por várias escolas. “Quando você chega com uma cadeira de rodas, eles só enxergam a cadeira. Até o olhar é diferente”, diz a mãe de Lucas, Cristiane Victório, que se formou em terapia ocupacional para atender melhor as necessidades do filho.
O ensino infantil e fundamental foram complicados. As escolas não correspondiam às expectativas e não conseguiam realizar a inclusão. Lucas foi alfabetizado com apoio de uma prancheta com letras, criada pela mãe. Somente no ensino médio, em uma escola privada, Lucas viveu plenamente o direito à educação. A escola fez reformas para recebê-lo e os colegas o auxiliavam com as tarefas.
Quando nasceu, médicos disseram que ele iria vegetar. A família não se conformou com o pessimismo e investiu toda sua atenção e recursos na saúde do garoto. “Nós o estimulávamos o tempo todo. Aos 4 anos, ele já falava a capital de 16 países. A primeira palavra que disse foi Paris. As pessoas se surpreendem muito com ele, desde sempre”, lembra a mãe.
Com tantos estímulos, recuperou parte da visão, que era baixíssima, e conquistou o movimento da mão direita, algo considerado impossível pelos especialistas que havia consultado. Concluiu o ensino médio com homenagens dos colegas e professores, pelo seu esforço em sala de aula. “Eu tirava foto do quadro, porque não podia copiar. As provas sempre foram orais”, relatou Lucas.
Descobri que ter amigos na escola faz toda a diferença. Eu achava que era triste porque não podia andar. Mas com o passar do tempo descobri que a felicidade não estava em caminhar, mas em ter pessoas ao meu redor que me acolhessem
Lucas Victório
No último dia 22, Lucas teve seu primeiro dia de aula na faculdade de relações internacionais. Quer ser diplomata e viajar pelo mundo. “É uma profissão na qual serei útil e que também me oferecerá a segurança e os benefícios dos quais preciso”, afirma, com maturidade. Ele também pretende escrever um livro sobre a própria vida, para incentivar que as famílias de crianças com deficiência não desistam de seus filhos.
Quando a família não acredita, não há como dar certo, porque tudo joga contra. É preciso muita persistência para inserir uma criança com deficiência na sociedade
Cristiane Victório
Lucas com a mãe, Cristianemore
A mãe ajuda Lucas a se vestir para ir ao primeiro dia de aulamore
“A menina que dá trabalho”
O medo de que a filha sofresse bullying ou outros tipos de abuso não impediu que a advogada Adriana Monteiro procurasse uma escola adequada para Ana Luísa, que tem Síndrome de Angelman, uma alteração genética. Dos 4 aos 7 anos, ela estudou em um colégio comum. A mãe pagava a mensalidade em dobro, exigida pela escola para aceitar a menina. Ainda assim, o atendimento não era satisfatório.
Eles deixavam a Ana no parquinho o tempo todo, como se ela não pudesse aprender. Ela nunca estava em sala de aula. A escola reflete a sociedade preconceituosa
Adriana Monteiro, advogada e mãe de Ana
Aos 15 anos, a adolescente nunca experimentou a inclusão. Por conta da deficiência intelectual somada ao autismo, Ana não fala e precisa de ajuda para tudo. “Rodei a cidade toda e somente uma escola aceitou a minha filha. Apesar da boa vontade, não tinha capacitação”, diz Adriana.
Hoje, está matriculada em uma escola especial. Só ela e mais uma menina formam a turma. “Para toda criança, o ideal é a escola inclusiva, mas não existe nenhuma nesses moldes hoje, em Brasília, que atenda as necessidades da Ana Luisa”, constata a mãe.
A sociedade isola as pessoas com deficiência. Ao privar Ana Luisa de uma educação inclusiva, o sistema também restringe seu circulo social. “Ela não tem amigos, não recebe convites para festinhas. Isso reduz a vida social da família inteira. Algumas pessoas se referem à Ana como “a menina que dá trabalho”. Toda pessoa tem um saber, mas nem todos estão dispostos a aprender a reconhecê-lo”, diz Adriana.
A deficiência é algo inerente ao ser humano. Você pode estar saudável hoje, atravessar a rua, sofrer um acidente e se tornar uma pessoa com deficiência. Falta esse olhar à sociedade
Adriana Monteiro
Como advogada e mãe, Adriana, que é presidente da Comissão de Direitos da Pessoa com Autismo da OAB/DF, acompanhou a aprovação da nova Lei Brasileira de Inclusão. “Esperamos que exista uma mudança real, uma nova perspectiva de inclusão, porque no papel toda ideia é bonita”, ressaltou.
“A escola inclusiva é essencial para formar adultos com mais autonomia, capazes de contribuir com a sociedade. As pessoas com deficiência são tratadas como estorvo. Todo mundo precisa de amor, mas também precisa de educação, saúde e lazer”, Adriana Monteiro
Gigi quer ser modelo
Desde que Giovanna nasceu, há 6 anos, a mãe Cleo Bóhn preocupa-se em garantir à filha, que tem Síndrome de Down, acesso aos espaços da sociedade. “Quero que ela possa escolher entre ser artista, professora, modelo, esportista”, planeja a mãe. Para isso, é preciso ter acesso à educação. Algo que muitas vezes foi negado à menina, tanto na rede pública quanto na particular.
“Os colégios afirmam não estar preparados para recebê-la. Eu também não estava, quando ela nasceu, mas tive de me adaptar. Bati na porta de várias escolas e cansei de voltar chorando para casa”, Cleo Bóhn.
Este ano, Giovanna começou em uma nova escola particular, em classe inclusiva. Está semialfabetizada e já consegue escrever algumas palavras. Faz diversos acompanhamentos, como musicalização e equoterapia, além de tratamento com terapeutas ocupacionais, para garantir seu desenvolvimento. Tudo é custeado pela família.
Giovanna participa do programa Fashion Inclusivo, que reúne modelos com deficiência. Cleo Bóhn enviou à Câmara Legislativa um projeto de lei que inclua pessoas com deficiência em propagandas de órgãos da administração pública. “Ainda quero ver a Gigi em propagandas de pós-graduação, para romper com o preconceito de que pessoas como ela são incapazes”, afirma.
Um longo caminho pela frente
O atendimento de crianças e jovens nas classes inclusivas (que têm pessoas com e sem deficiência) passou a ser uma orientação legal em 2008. Baseada em dados do IBGE e do Inep, além de entrevistas e pesquisas próprias, a tese de mestrado de Patricia Augusta Ferreira Vilas Boas, da UnB, dedica-se ao ensino inclusivo no DF. Aponta que, nos últimos 8 anos, o crescimento percentual de matrículas inclusivas no Brasil foi 13, 87% maior que o crescimento do DF.
“A Região Centro-Oeste foi a que registrou o menor percentual de crescimento de matrículas inclusivas no país. No DF, apesar do crescimento ser inferior à média nacional, o número de matrículas foi 11,1% maior que a média registrada na Região Centro-Oeste”, afirma a tese de Patricia.
Reprodução da cartilha do Movimento Down
Cerca de 45,6 milhões de pessoas, 23,9% da população brasileira, declararam ter alguma deficiência, durante o mais recente Censo do IBGE (2010). A mesma pesquisa apontou a existência de diferenças significativas entre as taxas de escolaridade das pessoas com deficiência e as sem deficiência.
Na faixa etária de 15 anos ou mais, 38,2% da população sem deficiência não possuía instrução ou tinha apenas o ensino fundamental incompleto, mas esse percentual eleva-se para 61,1% no caso dos com deficiência.
A pesquisadora Patricia Augusta Ferreira Vilas Boas descobriu que, apesar do esforço dos professores, que fazem muito com pouco recurso, a inclusão, na capital do Brasil, só existe no papel. No tocante às matrículas inclusivas, atualmente 94% estão na rede pública, e a rede privada acolhe apenas 6% dos alunos com deficiência.
Cartilha do Movimento Down ensina sobre os direitos da pessoa com deficiência relacionados à educação
A pesquisadora ressalta que, apesar de avanços, o DF é a unidade da federação do Centro-Oeste que mais tem estabelecimentos com atendimento exclusivamente especializados (que não são classes inclusivas): 162. “Que é muito próximo, diga-se, do somatório de todas as demais unidades da região: 168 estabelecimentos.”
A qualidade da inclusão é o que preocupa a especialista. Ela entrevistou 93 professores da rede pública para entender problemas e sugerir caminhos. O estudo mostra que 35% dos que responderam já haviam participado de curso cuja temática principal era a educação especial e inclusiva.
Entre os entrevistados, 38% se declaram professores de Salas de Recurso (onde os alunos com deficiência aprendem no contraturno, geralmente, e recebem estimulação). Dos professores ouvidos, 29% afirmaram não se sentir preparados para atuar na sala de recurso e 50% afirmaram estar “parcialmente preparados”. Eles sentem falta de ações do governo para capacitação e de mais condições de trabalho.
A maioria dos participantes da pesquisa declarou que as condições de acessibilidade dos seus respectivos locais de trabalho são inexistentes ou apenas parciais, o que indica a presença de barreiras à inclusão escolar de estudantes com deficiência no DF. 23% avaliam que a atual política de educação especial é ruim, e 77% avaliam que ela é de razoável a boa. A pesquisa completa pode ser acessada aqui.
Serviço
O Movimento Down elaborou uma cartilha para orientar os pais de pessoas com deficiências sobre seus direitos sobre educação. Acesse aqui.
*Leilane Menezes
Formou-se em Jornalismo pelo Centro Universitário de Brasília (UniCeub), em 2008. Trabalhou como produtora na Rede Record, foi repórter do Correio Braziliense durante sete anos e atualmente faz parte da editoria de Brasil do Metrópoles. É vencedora de oito prêmios de jornalismo, entre eles, o Tim Lopes de Jornalismo Investigativo, CNT, MPT, CNH, Sebrae e SINDHRio
Hoje a empresa com 100 ou mais funcionários está obrigada a preencher de 2% a 5% das vagas com pessoas deficientes
por: TÁCIO LORRAN
O governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) enviou um Projeto de Lei (PL) que acaba com a cota para trabalhadores com deficiência no mercado de trabalho. A proposta, segundo o governo, ajudaria a reduzir o desemprego no país.
O projeto, em tramitação na Câmara dos Deputados, altera a Lei de Cotas para Pessoas com Deficiência e mais nove normativos em vigor. Atualmente, a empresa com 100 ou mais funcionários está obrigada a preencher de 2% a 5% das vagas com trabalhadores reabilitados ou pessoas com deficiência.
O governo Bolsonaro, por sua vez, argumenta que hoje estão preenchidas apenas metade das 768 mil vagas asseguradas por lei. Além disso, o Executivo explica que o empregador em uma pequena cidade pode não encontrar número suficiente de pessoas com deficiência.
“Esta política foi uma importante medida para a inclusão social desta população, contudo, após alguns anos de sua aplicação, várias possibilidades de aprimoramento podem ser detectadas”, explica a apresentação do projeto, assinado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes.
Em contrapartida, a proposta prevê duas formas alternativas para inclusão social das pessoas com deficiência. São elas:
A contribuição para conta única da União cujos recursos serão destinados a ações de habilitação e reabilitação;
A associação entre diferentes empresas que, em conjunto, atendam à obrigação de contratação na forma da lei.
Pessoas com deficiência severa contarão em dobro para o preenchimento de vagas. “Com essas modificações, busca-se engajar todas as empresas do país, apresentando alternativas que considerem as diferenças setoriais, locais e ocupacionais na contratação de trabalhadores”, prossegue.
Para o advogado trabalhista sócio do Guimarães Parente Advogados, Thiago Guimarães, o projeto de lei representa um grande retrocesso para as pessoas com deficiência. Segundo o especialista, a medida viola a Constituição Federal.
“Hoje, o espaço que eles conseguiram adquirir é considerado muito pequeno. Eles necessitam de mais acesso ao mercado de trabalho e esse PL, além de ir totalmente contra a política dos últimos anos, significa uma violação à Constituição, que determina a inclusão dessas pessoas no mercado de trabalho”, comenta.
O projeto tramita em regime de urgência constitucional e será analisado por uma comissão especial. Depois seguirá para o Plenário da Câmara dos Deputados.
Daniel é sucesso na internet e sonha em conhecer a dupla. A mãe, Hedrienny, produz os vídeos e a irmã, Júlia, canta em algumas músicas
por: FELIPE MORAES
O pianista brasiliense Daniel, de 7 anos, adora um desafio. Em 2018, sua mãe, a administradora Hedrienny Cardoso, propôs ao filho, cego, autista e tecladista autodidata, gravar e postar no perfil da família no Instagram uma música por dia durante um ano inteiro. A maratona terminou em março e logo veio outra. A mais recente prova terminou há poucos dias, em junho: registrar toda a obra de Sandy e Junior, 178 canções, a tempo do show que a dupla faz em Brasília em 20 de julho, no Estádio Nacional Mané Garrincha.
O sonho de mãe, filho e de Júlia, de 5 anos, que acumula participações especiais nos shows do irmão, é conhecer os astros de pertinho. Para tal, Hedrienny movimenta as redes sociais de olho na campanha de visita ao camarim lançada pelos artistas.
Os mais de 13 mil usuários que acompanham a “banda” no Insta sempre dão uma forcinha, com hashtags e compartilhamentos. Os três só conseguiram os (disputadíssimos) ingressos para a apresentação graças à ajuda de internautas. Outro dia, Daniel ganhou um piano de parede Fritz Dobbert de uma seguidora. Tem se acostumado aos poucos com as teclas mais grossas e pesadas do novo “brinquedo”.
Certa vez, Sandy postou um vídeo de Daniel nos stories. “Não sei como chegou até ela”, pergunta-se a mãe. “Foi quando ela lançou Areia. Ele ouviu umas 40 vezes e aprendeu a música em um dia para filmarmos”, conta. Foi o máximo de contato que ídolos e fãs tiveram.
No mundo da música Primeiro filho de Hedrienny, 33 anos, e Robson Ribeiro dos Santos, 37, engenheiro mecatrônico, Daniel se interessa por música desde muito cedo. O garoto nasceu cego, mas só recebeu diagnóstico dois anos depois, bem na época em que a goiana estava grávida de Júlia: amaurose congênita de Leber, uma distrofia retiniana que causa cegueira infantil. O casal ainda não sabia que se tratava de uma doença com herança genética. A segunda filha também nasceu cega. Pedro, 2, o caçula, veio ao mundo sem deficiências.
O autismo foi notado pouco depois, quando Júlia tinha um aninho e Daniel, 3. Brincadeiras quase nunca despertavam a atenção dele. Só a música e sons diversos, de ruídos domésticos a urbanos. Reproduzir o que ouve, por sinal, faz parte do aquecimento do músico antes das gravações. Um dia qualquer, durante um encontro na casa de amigos, o menino estava especialmente agitado. Hedrienny avistou um teclado na sala e apresentou o instrumento ao filho. “Ele ficou apaixonado, estático”, lembra.
Ato contínuo, os pais compraram um teclado para Daniel. Dono de um ouvido absoluto, ele logo aprendeu, sozinho, Brilha, Brilha, Estrelinha, faixa que até hoje fecha as apresentações dele, como uma espécie de despedida temporária das teclas. Hedrienny começou a estimulá-lo em casa mesmo, já que os acordes impulsionaram a absorção de Braille no cotidiano. Ela procurou escolas e profissionais com método específico para aprendizado musical de cegos e autistas, mas não encontrou. “Ele viciou de uma forma incrível”, resume a mãe.
O repertório de canções infantis logo se esgotou. E a mãe passou a apresentar ao primogênito artistas e gêneros dos quais é fã, como rock e Legião Urbana. E, claro, Sandy e Junior. Ela dispensa sertanejo. Às vezes, o marido quebra o acordo que fizeram antes de terem filhos – o estilo musical seria herdado somente da mãe – e mostra Bruno e Marrone para o filho. “Ele também gosta de Jota Quest, Roupa Nova, Fábio Júnior. Tem uma alma de 80 anos”, brinca.
Quando Hedrienny casou-se com Robson, entrou na igreja ao som de Olha o que o Amor Me Faz tocado no violino. Lá atrás, jamais poderia prever que se tornaria, em alguns anos, “produtora” de um pequeno pianista especialista no repertório da dupla.
Hedrienny, Júlia e Daniel: família espera conhecer a dupla Sandy e Junior no show em Brasília, em 20 de julho
Entre sons e acordes
Daniel cultiva um ritual bastante particular cada vez que se senta ao teclado. Ele aquece as mãos e os ouvidos imitando ruídos diversos com as teclas. Do metrô, de eletrodomésticos. E alguns imaginários, seguindo o comando da mãe. “E quando alguém perde no jogo? E quando ganha? E quando quando alguém cai após escorregar na casca de banana?”, provoca Hedrienny.
O garoto fica tão feliz que chega a gargalhar. “É uma viagem curta”, informa Júlia. O show já vai começar. Mas o roteiro precisa ser combinado antes. Se a mãe pede quatro músicas, o filho vai executar exatamente o previsto no setlist. Nada de bis ou faixas bônus.
Daniel não é assim tão rígido quanto aos instrumentos que passam por suas mãos. Além do teclado e do piano, toca escaleta e sanfona. No Natal passado, pediu uma guitarra e ganhou. Por ora, não deu muita bola para as cordas. “Ele já pediu presente para esse ano”, avisa Hedrienny. “Um saxofone”