segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Adaptação de veículos para pessoas com deficiência ainda é cara e burocrática

O alto custo da adaptação pode afastar o cliente. O preço varia entre R$ 150 e R$ 4 mil, de acordo com as alterações.

O carro adaptado tem sido uma alternativa para as pessoas portadoras de deficiência que buscam independência de locomoção. O Brasil tem cerca de 24,5 milhões de pessoas com deficiência - segundo o Censo de 2000 - e transporte público ainda inadequado na maioria das cidades.

O alto custo do veículo adaptado, no entanto, pode afastar o cliente. O preço varia entre R$ 150 e R$ 4 mil, de acordo com as alterações, segundo o gerente comercial de uma grande empresa especializada em adaptar veículos, Raul Oliveira Neto. A Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfab) não tem dados sobre quantos veículos adaptados são vendidos por ano no Brasil. Mesmo assim, Oliveira diz que as concessionárias têm interesse nesse grupo de clientes.

"Montadoras e concessionárias procuram facilitar a compra desses veículos, que dispensam o uso dos pés e permitem que paraplégicos conduzam o próprio carro".

Apesar dos descontos em impostos como IPI, ICMS e, em alguns estados, IPVA e IOF, os preços altos e a burocracia podem intimidar o consumidor. Antes de comprar o veículo, a pessoa deve passar por uma avaliação no Departamento de Trânsito (Detran), responsável por indicar as alterações necessárias, como o uso de câmbio manual ou automático, por exemplo.

Depois do exame, a pessoa com deficiência recebe uma documentação que deve ser encaminhada à Receita Federal e ao Detran. Só então, depois de aproximadamente 30 dias, é possível fazer a adaptação em um carro usado ou comprar um adaptado de fábrica com isenção de impostos.

Mesmo assim, o restaurador de obras de arte José Roberto Furquim, de 54 anos, acredita que vale a pena. "Na verdade, você passa a ter autonomia. No meu caso é fundamental, até porque moro numa região de chácaras e a minha locomoção seria impossível se não tivesse o carro", afirma.

Depois de sofrer uma lesão medular que provocou a perda parcial da sensibilidade, da força e do controle das pernas, ele procurou, em 1984, adaptar o carro que já tinha. "Essa adaptação era bastante limitada e só podia ser utilizada em determinados padrões de carros. Foi um bom quebra-galho, me serviu durante muito tempo", explica.

Apesar de o último carro já ter sido comprado com as adaptações de fábrica - uma na parte mecânica e outra na parte elétrica do veículo - Oliveira acredita que ainda falta muito para os carros adaptados ficarem realmente cem por cento. "Ainda não fica totalmente bom, perde-se muito das funções do carro", afirma.

domingo, 7 de dezembro de 2008

O desafio de passar de pedinte a cidadão

Para os entrevistados o fingimento de algum tipo de deficiência para ganhar esmolas é um absurdo.

Laís Braz de Oliveira


Deficiente visual, Wellington Gomes,que há 27 anos, toca sanfona para ganhar dinheiro
Um senhor cego tocando sanfona para ganhar a vida na rodoviária de Brasília. Essa é a realidade de Wellington Gomes, 60 anos, que há 27 anos sai da cidade de Luziânia, Entorno do Distrito Federal, para resistir, por meio da música, às dificuldades pela falta de dinheiro. A realidade de algumas pessoas com deficiência é bem parecida. Eles saem em busca da sobrevivência, não trabalham, mas pedem esmolas nas ruas para ter o pão de cada dia.

Mas essa realidade pode mudar para aqueles que procuram seus direitos. A Lei Federal nº 7.853 define os direitos das pessoas com deficiência, e nela afirma-se que até 5% das vagas em empresas são destinadas aos trabalhadores, porém ao andar pelas ruas não é trabalhadores o que se vê, mas pedintes.



“Acho uma vergonha alguém se passar por deficiente para conseguir dinheiro”, diz Ronaldo de Souza
Ronaldo de Souza, 38 anos, tem uma doença degenerativa, não pode andar e trabalha entregando panfletos. “Fico triste quando as pessoas me oferecem dinheiro, estou trabalhando”, desabafa. Para ele existem muitas barreiras. O primeiro emprego obteve por meio de muito estudo. “Fiz um curso, tive notas boas e por isso consegui um serviço, porém não existia acessibilidade no prédio onde trabalhava”, diz.

Algumas empresas estão se adaptando às pessoas com deficiência e começam a inseri-las no mercado de trabalho. A Coordenadoria para Inclusão de Pessoas com Deficiência do Distrito Federal (Corde-DF) cadastra e encaminha trabalhadores para preencherem vagas. Para a assistente da Corde-DF, Ana Wright, a cada dia tem aumentado o número de empresas à procura de funcionários. “Recebemos o currículo de pessoas com deficiência, não importa se é cadeirante ou com deficiência intelectual, encaminhamos todos de acordo o perfil solicitado”, diz.

Muitas pessoas não conhecem a lei, e quando a conhecem não acreditam nela. Esse é o caso de Maria Silva, ela pede dinheiro na rua. “Não existe trabalho para mim que estou em uma cadeira de rodas” acredita. Ao ser indagada sobre a reserva de vagas para pessoas com deficiência afirma que está muito velha e por isso não conseguiria nada. Para ela, a solução para sustentar a família é esticar uma bandeja esperando que alguém possa ajudar com algumas moedas.

Para Ronaldo, pedir esmolas na rua é a última alternativa. Ele acredita que se as pessoas não lutarem para mudar de vida nada vai acontecer. “As pessoas têm que viver pelo próprio suor”, diz.

Com a proximidade das festas de fim de ano, várias pessoas saem às ruas para pedir donativos. E algumas delas se passam por pobres ou com algum tipo de deficiência. Para todos os entrevistados, o fingimento é um absurdo. “Acho uma vergonha alguém se passar por deficiente para conseguir dinheiro, afirma Ronaldo. Ivanildes Gomes, esposa do tocador de sanfona, diz que “é muito ridícula a situação, eles prejudicam a gente que precisa, as pessoas páram de acreditar em nós”.

O governo tenta amparar as pessoas com deficiência seja com vagas de emprego ou aposentadoria, e por esse motivo pedir dinheiro nas ruas é inaceitável, de acordo com a assistente da Corde. “Se a pessoa não tem nenhum tipo de assistência do governo, talvez essa seja uma alternativa, porém estamos aqui para ajudar”, diz Ana.