quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O perigo dos derrames silenciosos

É assim, sem dar pistas nem deixar sequelas, que ocorre um derrame silencioso. Mas atenção: ele é muito mais comum do que se imagina e pode, com o tempo, comprometer a agilidade mental.

Na surdina, uma artéria minúscula é obstruída e para de irrigar um grupo de neurônios, que, sem combustível, sucumbe. A princípio, o indivíduo nem se dá conta de um derrame que, como a falta de sintomas indica, é silencioso. Mesmo assim, ninguém deve julgar seu estrago inofensivo. Aos poucos, esse tipo de acidente vascular cerebral (AVC), como os médicos denominam o problema, semeia a discórdia no cérebro, podando funções cognitivas como o raciocínio.

"Ele é de cinco a dez vezes mais frequente que os derrames que apresentam sinais e sequelas na hora", chama a atenção o neurologista Vladimir Hachinski, editor-chefe da revista científica Stroke, da Associação Americana de Derrames, que, agora, joga os holofotes sobre a versão silenciosa do mal para alertar a população e os profissionais de saúde a respeito desse perigo - mensagem que, sem dúvida, também é válida para o Brasil.

"Os AVCs silenciosos costumam ser desprovidos de sintomas porque não atingem regiões estratégicas do cérebro", esclarece o neurologista Alexandre Pieri, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. "As áreas danificadas não estão envolvidas com as funções sensorial e motora", completa seu colega Cícero Galli Coimbra, da Universidade Federal de São Paulo. Com o tempo, porém, as lesões podem se multiplicar. Ocorre uma aqui, outra acolá, e assim por diante. "Daí, com o passar dos anos, parte do cérebro fica parecida com um queijo suíço", compara Coimbra.

O que, afinal, faz florescer esse fenômeno lento e progressivo? "A pressão alta, o diabete, o colesterol elevado, o abuso do álcool e o tabagismo", dá Pieri a lista dos vilões. O próprio envelhecimento tem lá sua culpa. "Um estudo americano aponta que um em cada dez idosos já sofreu um AVC silencioso", conta o neurologista Jefferson Fernandes, do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. No fundo, são os mesmos fatores que plantam um derrame avassalador. "Além disso, muitas vezes os próprios episódios silenciosos recorrentes predizem um AVC mais grave", lembra Pieri.

Para Hachinski, o problema não é tão sigiloso quanto parece ser. "Ele pode alterar a capacidade de o indivíduo se concentrar e se organizar", diz. Dessa forma, uma avaliação minuciosa com o neurologista abriria o caminho para surpreendê-los. O dilema é que, muito antes de haver uma devastação nos neurônios, o paciente não nota nem se queixa de nada - e a doença acaba passando despercebida até pelo médico. "Às vezes o diagnóstico é feito por acaso. O indivíduo tem uma dor de cabeça não relacionada ao problema e, na hora de realizar um exame de imagem, descobrem- se as lesões", relata Fernandes.

O alarme disparado pela Associação Americana de Derrames pretende fazer com que o AVC sem sintomas imediatos deixe de ser tão negligenciado. "É preciso mais atenção com esse problema que pode começar antes do que pensávamos e cujos fatores de risco necessitam ser controlados ainda mais cedo, desde a juventude", diz o professor Hachinski. Nem todo mundo, é claro, precisa correr ao consultório do neurologista e cobrar uma ressonância magnética, o exame de imagem que flagra os pequenos derrames espalhados na massa cinzenta. O cérebro só deve ser investigado quando não há queixa aparente em quem convive com a pressão arterial nas alturas ou tem um diabete duro na queda, por exemplo. Nesses casos, o especialista checa se há ou não rastros dos microAVCs.

O ataque silencioso ao cérebro deve ser desarmado quanto antes. Do contrário, a permanente poda de pencas e pencas de neurônios propicia o que os cientistas chamam de comprometimento cognitivo vascular. "Nesse quadro, o indivíduo passa a responder mais lentamente a estímulos, tem dificuldade para prestar atenção e perde a capacidade de planejamento", explica o neurologista Paulo Caramelli, da Universidade Federal de Minas Gerais. Em algumas situações, as múltiplas lesões geram até mesmo mudanças de comportamento. "A pessoa fica apática, não tem mais iniciativa", diz Caramelli. A boa notícia é que, ainda nesse estágio, uma aliança entre assistência médica, remédios e mudanças de hábitos pode frear o déficit cognitivo, prevenindo novas lesões.

O perigo é tudo isso passar batido e a somatória de pequenos AVCs desencadear a temida demência vascular. Daí, sim, fica quase impossível reverter a situação, já que o cérebro não conseguirá compensar a perda de tantas células. O que, então, determina o tamanho do estrago? "A extensão das lesões e as regiões que foram acometidas por elas", responde Jefferson Fernandes. Mas lembre-se: felizmente nada acontece da noite para o dia. Há como agir antes que a cabeça fique inoperante. A respeitada revista médica Stroke já sentenciou: "O derrame é uma catástrofe que pode ser prevenida e remediada". Independentemente de ser vítima ou não de um AVC silencioso, saiba que dá para assegurar a integridade do cérebro. Se você preza por uma mente saudável e faz o que está ao seu alcance para cuidar dela, são grandes as chances de nunca colher um derrame - barulhento ou não.

Deficiência e pobreza: Alguns fatos globais

Veja alguns dados da realidade sobre as pessoas com deficiência e a pobreza em regiões do mundo.

Os fatos relacionados abaixo ilustram as conexões entre pobreza e deficiência em escala global. Se você não encontrar dados para a sua região ou o seu país em outras fontes, estes poderão ser úteis para convencer outras partes interessadas. Contudo, estas estatísticas não devem ser usadas se a situação real no seu país for substancialmente diferente.

- Uma em cada 20 habitantes no mundo inteiro tem alguma deficiência, e desses mais de três de cada cinco vivem em um país em desenvolvimento (dados da ONU).

- Um de cada cinco habitantes mais pobres do mundo tem uma deficiência (estimativa do Banco Mundial).

- Só 2% das pessoas com deficiência em países em desenvolvimento têm acesso à reabilitação e serviços básicos apropriados.

- 20 milhões de mulheres a cada ano sofrem uma deficiência e complicações de longo prazo como resultado da gravidez e do parto.

- De 1 a 2% das crianças com deficiência nos países em desenvolvimento recebem educação.

- 25% de toda a população mundial são afetados direta ou indiretamente por uma deficiência (dados da ONU).

- Mais de 100 milhões de meninas e mulheres só em mais de 28 países africanos tem deficiência em conseqüência de mutilação genital.

- A mortalidade de crianças com deficiência beira os 80% em países nos quais a mortalidade das crianças abaixo de cinco anos, no seu conjunto, é inferior a 20%.

- De 7 a 10% da população têm uma deficiência, com as diferenças entre países situando-se entre 4 a 20% (dados da OMS).

- Mais de 10% da população mundial têm uma deficiência (dados da USAID).

- Nos países com índice de desenvolvimento humano baixo (IDH), 9,9% da população têm uma deficiência; nos países com índice de desenvolvimento humano médio, a percentagem cai para 3,7%; e em países de desenvolvimento humano elevado para apenas 1% (dados UNDP).

- Dependendo da estimativa, entre 281,7 milhões e 608,4 de pessoas no mundo inteiro têm uma deficiência, das quais 112,5 a 490,5 vivem em países em desenvolvimento.

- US$ 1,71-2,23 trilhões do Produto Interno Bruto mundial se perdem por causa da deficiência, o que perfaz um índice situado entre 5,35% e 6,97%.

- As pessoas com deficiência perfazem 15-20% da população pobre nos países em desenvolvimento (dados do Banco Mundial).

- 82% das pessoas com deficiência vivem abaixo da linha da pobreza em países em desenvolvimento (dados da ONU).

- De acordo com a UNICEF, 30% dos jovens de rua são portadores de deficiência.

- Estima-se que 386 milhões de pessoas em idade ativa no mundo são deficientes, diz a Organização Internacional do Trabalho (OIT). O desemprego entre os deficientes chega a 80% em alguns países. Muitos empregadores supõem que as pessoas com deficiência sejam incapazes de trabalhar.

- Para cada criança morta na guerra há três feridas e portadoras de deficiências permanentes.

- Em alguns países, até um quarto das deficiências resultam de lesões e violência, de acordo com a OMS.

- A pesquisa indica que a violência contra crianças com deficiência ocorre em taxas anuais pelo menos 1,7 vezes maiores do que para crianças não-deficientes.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

OSTOMIZADOS SÃO VÍTIMAS DE UMA TRAGÉDIA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO.

A Secretaria Estadual de Saúde do Rio, descumprindo a Lei, suspendeu o fornecimento de bolsas coletoras de fezes e/ou urina, para os portadores de ostomias que moram no interior do estado do Rio. Isso vem acontecendo desde setembro de 2008, ou seja, há cinco meses.

Em decorrência desse fato – que se caracteriza como uma gravíssima violação dos direitos humanos – milhares de ostomizados estão sendo submetidos a um forte impacto psíquico. Difícilmente, os sobreviventes dessa tragédia sairão ilesos dessa situação.

É óbvio que as conseqüências desse fato se refletirão no agravamento das condições psicológicas daqueles que, em decorrência de males como o câncer, etc, se vêem obrigados a carregar em seus abdomens uma bolsa coletora de fezes e/ou urina.

Muitos ostomizados estão recolhendo suas fezes, com sacos de supermercados amarrados as suas cinturas ou, então, usando panos velhos para aparar seus dejetos. É bom que todos saibam que esses dejetos jorram, ininterruptamente, sem qualquer forma de controle, das ostomias criadas para esse fim.

Esses humanos abandonados pelo “Poder Público”, se desesperam diante desse quadro tenebroso e trafegam em direção a loucura, não suportam essa situação, não suportam tamanho sofrimento.

Essa tragédia afeta a todos, não poupando desde bebês a idosos e, ainda, seus parentes. Também, afeta o povo brasileiro, os homens e mulheres de bem que não pactuam com atos que ofendam a dignidade humana.

Essa situação, por violar uma série de disposições legais e, principalmente, a Convenção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, ratificada e promulgada pelo Decreto Legislativo n° 186, de 9 de julho de 2008, deve ser objeto de análise pela Procuradoria Geral de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.

A Justiça têm o remédio para tratar desse mal, acreditem! É com ela, do lado dela, todos juntos, que salvaremos a vida dos nossos bebês, dos nossos idosos e de todos aqueles que acreditam na construção de uma sociedade feita por humanos e para os humanos.

A AORJ – Associação dos ostomizados do Rio de Janeiro, apoiada por todas as Associações de Ostomizados do Brasil, não descansará enquanto seus milhares de representados estiverem vivendo nessa situação.

Todos os que estão sendo vítimas dessa triste realidade, seus parentes e amigos podem e devem encaminhar suas denúncias para o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, clicando no link que segue:

http://www.mp.rj.gov.br/portal/page/portal/Internet/Servicos/Ouvidoria_Geral/Fale_com_o_MP

As denúncias também poderão ser entregues no Protocolo-Geral do MPRJ, que fica localizado à Av. Marechal Câmara, nº 370, Centro, Rio de Janeiro - RJ.

ATENÇÃO: “O denunciante não precisa se identificar para apresentar sua denúncia ao Ministério Público. Se desejar, poderá permanecer anônimo, ligando pelo número 127 (tarifa de ligação local) ou apresentando sua comunicação pessoalmente ou pela Internet”.

Para obter mais detalhes, veja a página da Ouvidoria do Ministério Público, clicando no link que segue:

http://www.mp.rj.gov.br/portal/page/portal/Internet/Servicos/Ouvidoria_Geral



CUMPRA-SE A LEI.

SEJA FEITA A VONTADE DE TODOS.

SEJA FEITA JUSTIÇA!

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Falta de respeito

O desrespeito aos deficientes não se resume à inadequação dos espaços urbanos. A vaga reservada aos deficientes em estacionamentos muitas vezes é desprezada pelos motoristas inconscientes.

No esporte, eles provam que são capazes. Nas empresas ou em suas casas, tornam-se questão de orgulho. Porém, portadores de deficiência física mostram que os esforços não são nada diante do desrespeito aos seus direitos.

Uma simples ida ao supermercado, shopping ou à praia pode demonstrar que algumas pessoas não respeitam o espaço reservado ao portador de necessidades especiais.

Quando uma pessoa é flagrada por um agente de trânsito, a desculpa é sempre a mesma: "Eu não ia demorar muito. Só vou pegar umas frutas no supermercado".

Rogério Franco, portador de deficiência, afirma que já foi vítima desse desrespeito. Passou horas e horas pra poder estacionar na beira-mar, pois alguém estava em sua vaga. "Até aí tudo bem. Poderia ser um deficiente como eu. Mas o que me irritou foi ver que era uma pessoa saudável, jovem, que podia caminhar", desabafa.

Para evitar esse tipo de cena ou pelo menos amenizá-la, o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) resolveu regulamentar essas vagas específicas. As placas e as credenciais vão ser padronizadas e terão validade em todo País. O Contran estabeleceu o prazo de um ano para que cartão entre em vigor em todo o País.

De acordo com a Autarquia Municipal de Trânsito, Serviços Públicos e de Cidadania de Fortaleza (AMC), em 2008, os números de autuações por estacionamento proibido em vagas regulamentadas (Zona Azul, vagas para deficientes, táxis, carro oficial), somaram 18,8 mil. Cinco por cento das multas foram por estacionamento em vagas para deficientes.

A AMC distribui um adesivo, regulamentado pela Portaria nº 363/2006. "Cerca de 700 pessoas estão cadastradas no órgão para receber esta identificação, que deve ser afixado no pára-brisa do veículo com a frente voltada para fora, visível", diz Benedito Sousa, assessor de imprensa.

Em Fortaleza, as vagas estão espalhadas principalmente pelo Centro, Aldeota e Avenida Beira-Mar. Benedito lembra que não há limite de tempo para que o carro que transporta pessoas com deficiência física, desde que esteja identificado, fique estacionando nas vagas.

A AMC declara que qualquer cidadão pode participar fazendo a denúncia ao constatar que há um veículo em cima da vaga especial sem o adesivo em locais públicos, pelo telefone 190. Para esta infração, a multa é de R$ 57,24, remoção do veículo, três pontos na CNH.

Para quem é portador de necessidades especiais e acabou de adquirir um automóvel, Benedito indica que as solicitações de credenciamento dos veículos devem ser protocolizadas na sede da AMC, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, não havendo qualquer ônus para o requerente. É necessária a apresentação da Carteira de Identidade, CPF, documento do veículo, laudo médico pericial comprovando a condição de deficiência física e comprovante de endereço. "No caso de menores de idade, os documentos devem ser apresentados pelo pai ou responsável. Se o veículo estiver em nome de terceiro, é preciso comprovar laço consangüíneo ou de afinidade com a pessoa portadora de deficiência", acrescenta.

A AMC descreve que o selo é válido por 365 dias, desde que a condição de deficiência física seja permanente. No caso de deficiência provisória, o prazo de validade é de 180 dias. Toda a documentação atualizada deve ser reapresentada pela AMC para que o cadastro seja renovado. Terminado o prazo, o cidadão dispõe de 30 dias para fazer a renovação.

Entretanto, é bom lembrar ao leitor que a AMC só pode punir o infrator dentro do espaço público. Em espaços privados, como shoppings ou supermercados, seu poder é em vão. "De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro, a atuação do órgão se restringe à via pública (pista de rolamento, canteiros centrais e calçadas). Isto está determinado na Lei Nacional de Acessibilidade, Decreto 5.296, de 02/12/2004, artigo 25", esclarece.

DADOS

3 Pontos na Carteira Nacional de Habilitação e multa de R$ 57,24 para o motorista infrator que estacionar em local reservado ao deficiente. O veículo pode também ser removido da vaga

Famílias de crianças deficientes vivem dilema com o início das aulas

Pais cobram preparo de profissionais, estrutura física adequada, materiais e apoio de escola especial para permitir a inclusão em escola regular.

O início do ano letivo nas escolas da rede municipal de São Paulo deve contar com um número maior de crianças deficientes nas salas de aula, graças a ações de incentivo do governo em prol da inclusão. Contudo, pais de crianças deficientes vivem o dilema da falta de preparo dos profissionais, de materiais, de equipamentos e de estrutura física das escolas regulares e temem, sobretudo, o abandono e a regressão no desenvolvimento pela falta de compromisso com as necessidades individuais de cada criança.

Sabe-se que o país tem mais de 24,5 milhões de deficientes, dos quais 11,6% são crianças e jovens entre zero e 17 anos. Do total da população com deficiência em idade escolar, apenas 24,6% estão matriculados em classes regulares e especiais, segundo um estudo do MEC/Inep. Para melhorar estes números, e sob o argumento de favorecer a inclusão, órgãos ligados à educação têm tomado medidas que buscam forçar as famílias a matricularem suas crianças deficientes nas escolas da rede pública.

No plano municipal, a atual política de inclusão educacional da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo determina que toda criança com deficiência deva se cadastrar junto ao CEFAI - Centro de Formação e Acompanhamento à Inclusão, sob pena de as instituições de educação especial, conveniadas com a secretaria, e que atendem suas necessidades pedagógicas e terapêuticas específicas, deixar de receber o repasse de verba da prefeitura.

Na avaliação dos pais, mais crianças deficientes na escola regular não é garantia da inclusão educacional e social. Falta de estrutura física e de salas adaptadas, despreparo do professor, currículo não adequado às condições da criança, ausência de cuidador, de materiais pedagógicos adequados e de monitoramento são algumas das carências que a escola regular enfrenta para educar a criança deficiente e que têm assombrado os pais desde que o cadastro lhes foi imposto, a partir de 2007

"Como a escola não tem profissionais, não tem sala adaptada, rampa de acesso e gente preparada, eu tenho de ficar junto com meu filho. Pergunto se é justo o governo transferir esta responsabilidade para as mães?", questiona Simone Silva de Souza, mãe de João José (7) que tem problema motor e deficiência auditiva.

Há ainda casos em que a inscrição no CEFAI não dá garantia de vaga em escola regular, nem contempla o direito à freqüência diária às aulas, assim como os demais alunos têm.

Enquanto na escola especial o aluno freqüenta três vezes por semana, com um repasse de verba da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo de R$ 180 por aluno, um projeto do governo prevê destinar à escola regular o equivalente ao dobro do recebido pela escola especial. A proposta, que deverá ser implantada já a partir de 2010, ainda precisa ser aprovada.

Na prática, a inscrição de cada criança deficiente deve ser acompanhada de um laudo de saúde apenas. Sem considerar as necessidades individuais de cada criança e o que deve ser providenciado para a escola regular se comunicar com ela, a proposta de inclusão corre o risco de ser uma armadilha, avalia a diretora da ADefAV-CRIFES e também consultora do Programa Hilton Perkins para a América Latina, Maria Aparecida Cormedi. "Cada criança tem uma necessidade especial que requer atendimento personalizado, e o laudo educacional feito pela educação especial poderia contribuir neste processo", defende Cormedi.

Assim como a especialista, outras mães estão indignadas com a situação que a lei lhes têm imposto. "Se a lei obriga a criança a ir para a escola, acreditamos que é dever do Estado oferecer as condições ideais para que isto aconteça", defende Emedice Maria Ferreira da Silva, mãe de Airton Sena (7), que tem deficiência auditiva e visual e freqüenta a ADefAV-CRIFES desde os 2 anos.

Este tipo de situação decorre, ao ver da família, do caráter genérico da lei de inclusão, que não leva em consideração os tipos de deficiência. "Uma criança cega e com deficiência múltipla não tem as mesmas necessidades de um deficiente físico. A lei não contempla medidas para serem aplicadas de acordo com o grau de deficiência de cada pessoa. Para ser eficiente ela deveria passar por ajustes", defende Júlio César Kushida, pai de Júnior (8) que tem séria deficiência múltipla.

Solução
Em decorrência das novas regras, a AdefAV-CRIFES, instituição especializada no atendimento a crianças surdocegos e deficientes múltiplos, desde outubro já sofre com a redução de 80% da verba repassada pelo governo. Não só porque muitos pais deixaram de fazer a matrícula de seus filhos na escola regular, como em função da mudança de critério do órgão municipal de educação, que excluiu de seu orçamento o repasse à entidade pelo atendimento de crianças abaixo de 3 anos e acima de 14.

A valorização da escola especial e dos Centros de Recursos pela regular pode ser a chave do sucesso no processo de inclusão da criança deficiente, defende Cormedi. "A ADefAV/Crifes pode treinar profissionais da escola regular e dar orientações sobre o plano educativo desta criança, através da renovação de convênios e enviando profissionais especializados para apoio, enquanto entidade especializada na capacitação e formação de profissionais para o atendimento do aluno surdocego e com deficiência múltipla", afirma.

Na opinião de pais e especialistas, enquanto não for implantada uma avaliação individual das condições de aprendizagem, estágio de evolução e dificuldades da criança será impossível fazer a inclusão responsável do deficiente. "O aluno tem de ser tratado como igual, mas suas necessidades são diferentes. Só quando as políticas públicas priorizarem a qualidade em detrimento dos números é que poderemos falar de sucesso da inclusão educacional no Brasil", finaliza Cormedi.

Sobre a ADefAV-CRIFES
A ADefAV-CRIFES - Centro de Recursos para a Inclusão na Família, Escola e Sociedade é uma organização filantrópica reconhecida no terceiro setor pelo trabalho que desenvolve em prol da inclusão na família, escola e sociedade de crianças, jovens e adultos com surdocegueira e deficiência múltipla. Fundada em 1983 e situada em São Paulo (SP), a ADefAV-CRIFES também é reconhecida pelas consultorias e cursos de capacitação pedagógicos e terapêuticos que desenvolve para profissionais e comunidades brasileiras e latino-americanas, com o apoio técnico do Programa Hilton/Perkins para a América Latina, da Perkins School for the Blind (EUA).