sexta-feira, 3 de abril de 2009

Shoppings cumprem lei, mas não fiscalizam

MPE pretende assinar termos de ajustamento de conduta neste mês.

Dentre os espaços privados, os shoppings são os campeões de reclamações de desrespeito às vagas de estacionamento exclusivas para pessoas com deficiência. Praticamente todos na cidade de São Paulo seguem a legislação e destinam pelo menos 2% do total de vagas para esse público. No entanto, não há fiscalização interna desses espaços. Para evitar conflitos com os clientes, muitos simplesmente não reprimem quem ocupa indevidamente as vagas.

Na tentativa de acabar com o problema, o Ministério Público Estadual (MPE) vai assinar no próximo mês termos de ajustamento de conduta (TAC) com alguns centros de compras da capital. Um dos principais pontos do acordo diz que esses lugares terão de manter metade das vagas de estacionamento para pessoas com deficiência cercadas com correntes, sendo permitido o acesso somente para carros com a identificação apropriada. Além disso, haverá campanhas para orientação dos clientes, com avisos sonoros.

De acordo com o promotor Júlio Botelho, do Grupo de Proteção à Pessoa Portadora de Deficiência do MPE, aproximadamente 70% dos shoppings indicaram que vão assinar o acordo, que prevê multa em caso de descumprimento. "E nós vamos ingressar com Ação Civil Pública contra os demais que não aderirem ao acordo e não se adequarem", diz Botelho.

A reportagem do Estado passou 1 hora, na tarde do dia 25, acompanhando o entra e sai das vagas especiais de um dos setores do Center Norte. Dos 14 carros estacionados, apenas dois tinham o adesivo de deficiente físico no para-brisa. "Não podemos arrumar encrenca com o cliente", disse um vigilante, que pediu para não ser identificado. O Center Norte destacou, em nota, que conta "com o bom senso dos frequentadores". "Os seguranças abordam a pessoa que parou o carro no local indevido. Os vigilantes pedem, com gentileza, que a pessoa retire seu carro. Entretanto, o shopping não tem autonomia para multar ou retirar o veículo do infrator", diz a nota.

Outros shoppings procurados pela reportagem deram respostas semelhantes. No Eldorado, os seguranças colocam um adesivo no vidro do carro, identificando que aquela vaga é reservada a deficientes. O Shopping Metrô Santa Cruz garante que "ainda não houve registro de cliente não portador de deficiência que tenha se recusado a retirar o veículo de uma vaga reservada". O MorumbiShopping frisa que disponibiliza serviço de manobrista sem custo adicional aos frequentadores com mobilidade reduzida.

Os Shoppings Iguatemi e Market Place lembraram que "cabe ao poder público fiscalizar o cumprimento da lei". Eles também deixam no veículo infrator um aviso informativo.

O Estado de S. Paulo
02/04/2009
www.saci.org.br

terça-feira, 31 de março de 2009

Terminologia na área da deficiência

Agência Inclusive
31/03/2009

Vai escrever ou falar sobre deficiência? Saiba o que dizer e, principalmente, o que NÃO dizer.
Que termos usar e não usar. Estas recomendações valem para a área de comunicação. Não se trata do politicamente correto, mas sim de legitimar avanços de mudança de mentalidade que as palavras devem refletir.

· DEFICIÊNCIA é a terminologia genérica para englobar toda e qualquer deficiência (física ou motora, mental ou intelectual, sensorial e múltipla). O uso da preposição COM é ideal para designar pessoas COM deficiência. Outras opções são as expressões QUE TEM ou QUE NASCEU COM.

· Exemplos: pessoas COM deficiência; ator QUE NASCEU COM síndrome de Down; menina QUE TEM paralisia cerebral; estudante COM deficiência visual etc.

· Use INSERÇÃO quando estiver em dúvida se o caso relatado na matéria é de integração ou de inclusão. O vocábulo inserção é neutro porque não está vinculado a movimentos internacionais de defesa de direitos de pessoas com deficiência.

· Não tenha receio em usar a palavra DEFICIÊNCIA. As deficiências são reais e não há por que disfarçá-las.

· Use SURDO e nunca surdo-mudo. Sob a ótica da diversidade humana é natural existirem múltiplas formas de comunicação entre seres da nossa espécie, sendo impossível compará-las como “a mais humana” ou a “menos humana”. O fato de a maioria das pessoas “falarem pela boca” não nos dá o direito de considerar esta forma de expressão como a única valorada, ou seja, o modelo. Esta é uma visão integradora, pois favorece a comparação entre condições humanas. Para uma pessoa surda é difícil falar o português, sendo natural que opte pela Língua de sinais brasileira (Libras). Neste caso, não é mudo, apenas SURDO.

· A Libras não é uma linguagem, mas uma LÍNGUA. Existem outras formas de linguagem envolvendo ou não pessoas surdas como a linguagem gestual e a corporal.

· Deficiências visual e auditiva são exemplos de DEFICIÊNCIA SENSORIAL. O aconselhável é retratá-las dessa forma: PESSOAS CEGAS (deficiência visual total) ou SURDAS (deficiência auditiva total); PESSOAS COM DEFICIÊNCIA VISUAL (ou COM BAIXA VISÃO) ou AUDITIVA (há resíduo auditivo) ou PESSOAS QUE TÊM DEFICIÊNCIA VISUAL ou AUDITIVA.

· Os substantivos CEGUEIRA e SURDEZ podem ser usados.

· A palavra deficiente não deve ser usada como substantivo (”os deficientes” jogam bola”), mas pode ser usada como ADJETIVO. Essa preocupação fica mais clara de ser compreendida ao substituirmos “deficiente” por outros substantivos, como gordo, negro, magro, louro, careca etc. Quem usaria, em uma matéria, a expressão “os gordos”, “os negros”, “os carecas” etc.

· A normalidade hoje é um conceito polêmico, por isso, para designar uma pessoa sem deficiência use o adjetivo COMUM. Exemplo: PESSOAS COMUNS, PESSOAS SEM DEFICIÊNCIA…. Pela mesma razão, evite usar “defeituoso”, “incapacitado” e “inválido” ao se referir a alguém COM DEFICIÊNCIA.

· A expressão síndrome genética é a mais indicada. Anote algumas sugestões que podem ser usadas para não repeti-la: EVENTO GENÉTICO; OCORRÊNCIA GENÉTICA; SITUAÇÃO GENÉTICA. Evitar o uso das expressões anomalia, mutação, erro, acidente e doença genética.

· A palavra deficiente não deve ser usada para designar outras limitações como o alto grau de miopia. Existem critérios muito rígidos para designar o que é uma pessoa com deficiência visual ou cega. Por isso não é adequado dizer que “todos nós somos deficientes”.

· Para se referir às escolas que não são especiais, o ideal é usar ESCOLA REGULAR ou ESCOLA COMUM e no caso das turmas, CLASSE REGULAR ou CLASSE COMUM.

Adaptado do Manual da Mídia Legal, publicado pela Escola de Gente, disponível no seguinte link: www.escoladegente.org.br
por Patricia Almeida – Coordenadora

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Escolas adaptam aulas de educação física para alunos com deficiência

Além de regras modificadas, deficientes contam com ajuda de colegas. Atividades de inclusão melhoram desempenho em outras disciplinas.

G1
30/03/2009
www.saci.org.br

Várias escolas no país estão adaptando as aulas de educação física para atender alunos com deficiências físicas. Mônica Guimarães, de 15 anos, participa de atividades e esportes adaptados pela própria professora de educação física, Maria Conceição Moreira Lopes.

“Começamos com um trabalho para aprimorar a coordenação motora da Mônica e, em seguida, adaptei algumas regras de esportes que costumamos ensinar para os alunos. O basquete, por exemplo, passou a ser jogado com a bola de vôlei. Já o futsal, que ela adora e pratica com a ajuda de muletas, é jogado com uma bola de borracha, mais leve”, diz Maria Conceição ao G1.

A professora conta que levou a turma de Mônica para uma visita à Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD) para conscientizar os alunos e reduzir o preconceito. “Essa experiência foi fundamental para que eles passassem a integrar Mônica em suas atividades e começassem a ajudá-la não só nas aulas de educação física, mas em outros momentos”, afirma.

Mônica estuda há cinco anos no Colégio Adventista de Interlagos, em São Paulo. Segundo sua mãe, Maria Isabel dos Santos Guimarães, as mudanças nas regras dos esportes foram de grande proveito para a autoestima da menina. “Fez muita diferença para o emocional dela e melhorou, inclusive, o desempenho nas outras disciplinas. Ela passou a se sentir incluída em todas as atividades praticadas pelos outros alunos e isso me deixou muito satisfeita”, diz. Mônica nasceu prematura de 6 meses e meio. Uma hemorragia cerebral causou uma paralisia e afetou a coordenação motora da estudante.

“As atividades são produzidas de forma diferenciada, com mudanças ou adaptações de regras, materiais e dinâmica da atividade, sempre visando a inclusão e a participação desses alunos nas atividades. Entretanto, infelizmente isso não pode acontecer em todo tipo de atividade, em razão das limitações físicas diferenciadas que cada aluno pode apresentar. Em alguns momentos eles participam das atividades do grupo com outras funções, auxiliando o professor”, diz Dantival Jacyobá de Siqueira Filho, professor de educação física da Escola Pueri Domus, que também trabalha com alunos deficientes físicos.

Para Dante de Rose Junior, doutor em psicologia social pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e professor livre-docente pela Escola de Educação Física e Esporte da USP, o esporte proporciona uma série de benefícios em muitos aspectos da convivência social.

“A atividade física ajuda qualquer pessoa, não só deficientes físicos, porque é capaz de melhorar a coordenação motora e a autoestima. No caso específico de um deficiente físico, há ainda o importante componente da socialização e da inclusão. O aluno passa a ter a oportunidade de praticar a mesma atividade que os demais, mesmo que dentro das suas limitações. O esporte amplia a capacidade de superação”, afirma o especialista ao G1. Rose Junior é autor do livro “Esporte e Atividade Física na Infância e na Adolescência”.

Coordenadora-geral de articulação da política de inclusão da Secretaria de Educação Especial, do Ministério da Educação, Martinha Dutra dos Santos considera que um sistema educacional inclusivo deve contemplar uma proposta pedagógica que atenda às necessidades específicas de todos os alunos.

“A educação física não se restringe aos jogos como vôlei ou basquete, mas consiste em atividades coletivas de cooperação, interação e participação, portanto devemos organizar grupos de pessoas independentemente de suas diferenças físicas, sensoriais, mentais”, diz ao G1.

segunda-feira, 30 de março de 2009

1º Guia Adaptado da maior cidade brasileira

Andrea Schwarz

Depois de desenvolver o 1º Guia Adaptado da maior cidade brasileira, vai mapear o Brasil promovendo a acessibilidade no turismo.

Revista Sentidos.
Inserida em: 31/10/2003 Reportagem: Adriana Perri


Quando, aos 22 anos, Andrea Schwarz perdeu o movimento das pernas e foi obrigada, pelo o que ela chama de destino, a usar a cadeira de rodas, percebeu que, como pessoa, não havia mudado, apenas tinha uma necessidade a mais. Aceitou e adaptou-se a sua nova condição e decidiu continuar fazendo o que gostava. Foi aí que surgiram alguns problemas. Ela, que sempre gostou muito de sair, não podia mais freqüentar qualquer lugar. Barreiras físicas, e às vezes, atitudinais, a impediam. Andrea percebeu que deficiente era a cidade onde vivia, São Paulo. Tinha medo de ao sair, passar por constrangimentos em locais onde deveria ser bem recebida como cliente. "Depois de ficar na cadeira, quando ia sair eu consultava um guia tradicional e conferia se havia o símbolo universal de acessibilidade, o da cadeira. Mas, muitas vezes quando chegava no local e conferia que não tinha nada: uma rampa muito íngreme, era impossível entrar no banheiro, e outras coisas. Depois, eu ligava, às vezes mais de uma vez, para o restaurante aonde iríamos e perguntava sobre banheiro, circulação, tudo. Percebi que era muito difícil sair de casa e que muitas pessoas deixavam de fazer o que gostam por causa disto."

Da sua necessidade, Andrea percebeu que poderia fazer o que ninguém tinha feito até então. Resolveu fazer algo inédito e ousado: elaborar um guia para pessoas com deficiência com produtos e serviços que as incluíssem como cidadãos consumidores. Em parceria Jaques Haber, na época seu namorado e hoje seu marido, saiu a campo para checar, passo a passo, os estabelecimentos: como entrar, a circulação, a altura das mesas, os banheiros. Acrescentaram mais informações sobre leis, associações, transporte e o resultado do Guia São Paulo Adaptada, lançado em 2001, superou as expectativas do casal. "Muitos empresários começaram a nos procurar para saber o que fazer para adaptar seus estabelecimentos". Para atendê-los e conquistar mais espaços para as pessoas com necessidades especiais, abriram uma empresa para dar consultoria em análise de acessibilidade e oferecer soluções e treinamento para funcionários.

Participou de treinamentos nos EUA, e coisas que para os americanos eram óbvias, no Brasil não eram levadas em conta. "Para os americanos uma escada dentro do projeto é inconcebível sem uma rampa. Acredito que falta divulgar informações a respeito do assunto, popularizar este conhecimento".

Hoje, o maior cliente de sua empresa é o projeto Para Todos da rede Pão de Açúcar. O trabalho é desenvolvido pessoalmente por Andrea e Jacques. Primeiro eles mapearam todas as lojas da cidade de São Paulo e levantaram seus problemas. O segundo passo foi contratar uma empresa de engenharia para fazer as adaptações físicas necessárias. Ainda estão concluindo as reformas necessárias para algumas lojas. Depois de reformadas, a dupla promove o treinamento para os funcionários, com vivências, workshops, modificando a mentalidade destas pessoas, a maneira como percebem e tratam o deficiente. Até o final de 2003, não haverá uma loja sem acessibilidade e uma delas será especial para deficientes visuais. "Este público contará com todos os recursos táteis e sonoros para sua independência na hora de fazer compras", afirma. Todas as lojas contarão com um profissional chamado facilitador, que está apto a auxiliar o cliente da melhor maneira.

Durante todo este desenvolvimento profissional, o casal oficializou sua união. Andrea casou com um vestido lindo, inteiro bordado com cristais, e percebeu que até em questões pessoais o deficiente sofre preconceito. "As pessoas ainda pensam que o deficiente é coitadinho e não tem os mesmos sonhos que os outros tem. Por que o deficiente não pode casar, estar bem, ter direito a felicidade?".

A próxima empreitada será na rede Extra, que pertence ao mesmo grupo. Ao mesmo tempo, a idéia é expandir o projeto Para Todos e levar o conceito de acessibilidade universal para todos os estados brasileiros.

Outro projeto que iniciará a partir do ano que vem, é a elaboração do Guia Brasil Adaptado, voltado para o turismo. Uma equipe será treinada pessoalmente pela dupla e buscarão locais e serviços com acessibilidade por todo país. É um projeto patrocinado pela Editora Abril que já publica os Guias 4 Rodas, mas que não havia coletado dados concretos relativos a acessibilidade. "Na verdade, a Abril nunca confiou em disponibilizar este tipo de informação sem uma checagem prévia. Nós iremos prestar este serviço pela primeira vez e mudaremos o conceito de que basta uma rampa para o local ser acessível. Existem outras necessidades, como a de cegos e surdos, a serem pensadas".

Andrea revela que ainda falta muita informação a respeito do assunto e espera que com o tempo isto mude. Um exemplo são as vagas reservadas para deficientes, sobre as quais muitos questionam se os surdos tem direito a elas. Eles não tem, as vagas são direito de quem tem mobilidade reduzida apenas, e isto inclui as pessoas imobilizadas temporariamente e os idosos que necessitam de bengala para andar. "Na prática são estas pessoas que precisam ter seu acesso facilitado. O surdo pode estacionar em local mais distantes, isto não dificulta seu acesso. Agora, um cadeirante precisa, inclusive, de espaço o suficiente para descer sua cadeira de rodas com segurança".

Sempre atentos às mudanças, já estão levando as recomendações da nova norma da ABNT para seus clientes. Itens como a necessidade de um banheiro privativo, que possa ser usado por ambos os sexos e onde seja possível a entrada de uma acompanhante, é uma delas. Ou então a visibilidade em salas de cinema que precisa ser melhorada.

Hoje, aos 27 anos, Andrea considera que já fez muitas coisas e sente-se feliz e realizada. Para o futuro Andrea e Jacques planejam ter um filho, "daqui uns dois anos, depois que a gente curtir mais a vida a dois".