sábado, 9 de maio de 2009

Deficiência não é incompetência.

Artigo fala sobre como empresas ainda estão atrasadas quanto à contratação de pessoas com deficiência.

Mesmo que o Ministério do Trabalho exija por decreto a inclusão de pessoas com limitações no mercado de emprego, as empresas não hesitam em colocar empecilhos para não contratá-los. Como aconteceu recentemente com um jovem recém formado que participava de um processo de seleção.

Ele passou por um constrangimento devido a sua condição de portador de visão subnormal, limitação que o impossibilita de ter uma visão útil para afazeres habituais. Problema este, que ele fez questão de frisar durante a entrevista.

Informado de que ele não havia sido selecionado, o responsável pelo departamento de Recursos Humanos procurou a pessoa que fez a seleção e constatou o seu descaso. Visto que, ele foi avaliado como os demais candidatos.

Esse tipo de comportamento é o reflexo de uma sociedade cada vez mais adepta de uma concepção arcaica e, veladamente, preconceituosa. Prova disso, são as vagas oferecidas pelas empresas aos portadores de deficiência.

Além de apresentarem um número restrito, estas vagas estão destinadas as funções de zelador, contínuo, ascensorista e porteiro. Por que não incluem pessoas com nível superior? Mesmo que sejam poucos que tenham esse privilégio, o que impede das instituições em darem uma oportunidade a estas pessoas?

Ao invés de responder a estes questionamentos e emitir opiniões, o que é comum, com frases feitas. Não seria mais viável pensar num modo de reverter esse quadro?

Cabem as pessoas com limitações prosseguirem com suas reivindicações e uma vez dada á oportunidade para que possam desenvolver os seus potenciais, as empresas se conscientizarão da importância dessa medida.

Obviamente que a solução esperada não há de acontecer instantaneamente porque a tendência é mexer com antigos valores. Nestas condições, é preciso recorrer ao termo “negociar”.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Como empresas e deficientes podem se relacionar melhor.

Muitos entrevistadores ainda não conseguem lidar naturalmente com o candidato com deficiência.

O conceito de inclusão é muito recente se comparado à trajetória secular de exclusão em nosso país. Segundo a palestrante da Associação Brasileira de Treinamento e Desenvolvimento (ABTD) e consultora do Movimento Incluir, Carolina Ignarra, grande parte das empresas do país cresceu e se desenvolveu sem ter em seu quadro de funcionários pessoas com deficiência. “Este tipo de profissional passou a ser contratado a partir de 1999, pelo Decreto 3.298 que regulamentou a Lei de Cotas 8.213/91”.

Porém, não adianta respeitar o Decreto simplesmente. Muitas organizações não sabem ainda como se portar diante desta realidade por ser um processo que envolve uma profunda transformação, revisão de conceitos e paradigmas, necessidade constante de informação, derrubada de barreiras culturais e arquitetônicas, além de atribuir responsabilidades para todos os envolvidos: a empresa, seus colaboradores e dos próprios profissionais com deficiência.

“De 2001 a agosto de 2008, evoluímos muito em termos de contratação. No início tínhamos cerca de 12 empresas contratando 600 deficientes no Estado de São Paulo. Hoje, temos mais de 6 mil empresas que contratam mais de 82 mil pessoas. Atualmente, 101 mil estão trabalhando no Brasil, sendo que deste número 43% são pessoas com deficiência física, 33% auditivos, 10% são profissionais reabilitados, 6% visuais, 4% mentais e 1% com deficiências múltiplas”, detalha Carolina.

Em uma de suas palestras para a ABTD, Carolina destacou aspectos importantes como o esclarecimento da empregabilidade inclusiva; estruturação de planos de ação; orientação de contratação e programas de retenção; ferramentas de sensibilização e ações de responsabilidade corporativa social. “A falta de preparo do gestor, a busca pela deficiência e não pelo potencial, a restrição da contratação por profissionais que necessitam de auxílio nas funções básicas e a falta de entendimento da Lei de Cotas são hoje os maiores fatores que dificultam o processo empregatício”, afirma.

Dicas para as empresas: Nem sempre o entrevistador consegue lidar naturalmente com o candidato com deficiência. Carolina Ignarra listou alguns detalhes que devem ser levados em conta no momento da entrevista de acordo com o tipo de deficiência da pessoa.

1) Deficiência visual: Conduzir é orientar a locomoção. | Ao indicar uma cadeira coloque as mãos do cego no encosto. | Atente-se aos obstáculos que ficam pendurados. | Mantenha as áreas comuns desobstruídas. | Permita a entrada de cão guia. | Palavras como “olhe” ou “veja” podem ser usadas naturalmente. | Reserve vagas no estacionamento. | Coloque um segurança à disposição para acompanhar a pessoa.

2) Deficiência física.: Em conversas prolongadas, procure sentar. | Nunca apóie nas cadeiras de rodas, muletas, bengalas e andadores. | Mantenha as muletas, bengalas e cadeira de rodas próximas da pessoa . | Se não entender o que a pessoa disse, peça para repetir. | Deficiência nos membros inferiores, espere para cumprimentar. | Palavras como “corra” ou “ande”, utilize naturalmente. | Mantenha sempre o contato visual. | Escolha salas sem informações visuais (quadros, por exemplo).

3) Deficiência auditiva: Não adianta gritar. | Chame a atenção da pessoa colocando-se em seu campo de visão. | Fale pausadamente e articulando as palavras. | Simplifique o vocabulário, facilite a comunicação. | Gestos, mímicas, bilhetes, desenhos podem ser utilizados. Seja criativo. | Faça perguntas simples e diretas. | Seja claro ao passar informações.

4) Deficiência intelectual: Geralmente são muito carinhosas. Não as trate de maneira infantilizada. | Não subestime seu potencial de desenvolvimento e aprendizagem. | Podem ser mais lentos. | Permita que o deficiente intelectual tome decisões. | Explique as tarefas, mostre como fazer e peça para ele repetir.

Pesquisa IBGE Segundo o Censo de 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 24,6 milhões de pessoas são deficientes, o que corresponde a 14,5% da população. Deste número, 48,10% são pessoas com deficiência visual , 27,10% são pessoas com deficiência física, 16,6% são pessoas com deficiência mental, 8,2% são pessoas com deficiência auditiva.

Cerca de 46% da população com deficiência são moradores de cidades com mais de 100 mil habitantes. No Nordeste estão concentrados 16,8%, 14,7% no Norte, 14,3% no Sul, 13,9% no Centro-Oeste e 13,1% no Sudeste. No Brasil, 10 mil pessoas adquirem deficiência por mês, 46% por acidentes envolvendo arma de fogo, 24% em acidentes de trânsito e 30% em outras situações.

Perfil de Carolina Ignarra:Carolina Ignarra é educadora física e adquiriu a paraplegia depois de formada. Formou-se em dinâmicas dos grupos, atuou na área de Consultoria em Qualidade de Vida nas Empresas por dez anos. Hoje, dirige as consultorias Movimento Incluir e Talento Incluir, desenvolve treinamentos de sensibilização focados na inclusão sócio-econômica das pessoas com deficiência e desenvolve programas de inclusão desta população nas organizações de acordo com a realidade de cada empresa.

Portal Fator Brasil
07/05/2009
Comentário SACI: Matéria do dia 30/04/09

Articulação nos municípios é passo importante para a inclusão de pessoas com deficiência.

Palestras sobre trabalho decente e inclusão de pessoas com deficiência fizeram parte de seminário realizado no Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco e Região.

Criar uma coordenadoria para articular o trabalho feito por entidades, empresas e órgãos públicos pela inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho é um dos passos fundamentais para garantir a essas pessoas condições de trabalho decente. Essa foi uma das conclusões do seminário “Trabalho Decente e Qualidade da Inclusão de Pessoas com Deficiência", realizado no sábado, 25, na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco e Região. O seminário foi o primeiro da série promovida pelas entidades sindicais da região de Osasco em comemoração ao Dia do Trabalhador.

A proposta de criação de uma coordenadoria foi feita por um dos grupos de trabalho do seminário, que discutiu as ações que devem ser tomadas para dar continuidade à evolução da inclusão de pessoas com deficiência na região. Tal articulação é fundamental para garantir não só o envolvimento do setor público na questão, mas também para reunir informações, sistematizar dados e se constituir num ponto de referência para outros interessados no assunto.

Os 15 municípios sob jurisdição da Gerencia Regional do Trabalho de Osasco registraram nos últimos anos uma evolução exemplar no cumprimento da Lei de Cotas. Sairam de 601 contratações em 12 empresas, no ano 2001, para 9299 contratações em 537 empresas, oito anos depois. Ou seja, 62,4% das vagas existentes estão preenchidas. No Brasil, somente 15,4% das vagas estão ocupadas. O crescimento só não é maior porque o poder público não tem contratado.

Pesquisa - Tal sugestão vai ao encontro de uma das principais preocupações dos organizadores do seminário: garantir a qualidade na inclusão de pessoas com deficiência. Tanto é que outro momento foi o teste de uma pesquisa que está sendo elaborada pelo Espaço da Cidadania e coordenada pela consultora em inclusão Sumiko Shimono e outros parceiros para avaliar a situação dos contratados, as oportunidades de evolução profissional, o relacionamento com os demais colegas e as condições de trabalho.

Pessoas com deficiência presentes avaliaram a pertinência dos questionamentos feitos na pesquisa, a qual será aplicada a um universo maior em breve.

Trabalho decente – Tais propostas tiveram como subsídio palestras sobre trabalho decente e inclusão de pessoas com deficiência, oferecidas por especialistas como Ivan Gonzalez Alvarado, coordenador da CSA (Confederação dos Trabalhadores das Américas), que apresentou o trabalho decente como uma saída para a crise econômica.

Isso porque um trabalho pode ser classificado como decente quando há liberdade sindical, fim da discriminação (de gênero, raça, etária, salarial etc), erradicação do trabalho infantil, eliminação das formas de trabalho forçado, entre outros quesitos que garantam ao trabalhador condições de exercer sua atividade profissional de forma plena, tendo seus direitos respeitados.

Ronaldo Freixeda, da Gerência Regional do Trabalho e Emprego de Osasco e Região, explicou o trabalho que tem sido feito na região para garantir a inclusão de jovens com algum tipo de deficiência na condição de aprendizes, uma possibilidade oferecida pela Lei do Aprendiz (lei 1097/2000).
Vera Lucia Leite de Oliveira, coordenadora do Núcleo Regional 2 do Conselho Estadual da Pessoa com Deficiência, tratou dos desafios enfrentados para garantir a discussão sobre a inclusão na subseção da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Osasco.

Agenda da inclusão
- Apresentação da Pesquisa sobre inclusão nas empresas metalúrgicas da região de Osasco – desenvolvida pela Gerencia Regional do Trabalho de Osasco e o Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco e Região
Data: nesta quinta-feira, 7 de maio das 8:30 às 11:00 horas
Local: Senai – Osasco

- Comemoração dos 30 anos da Semsat (Semana de Saúde do Trabalhador)
Data: 14/5
Local: Osasco Plaza Shopping
Horário: 14h às 17h

- Encontro no Senai-Itu
Os participantes irão conhecer a experiência de capacitação profissional inclusiva desenvolvida pela escola. A atividade é voltada para educadores e profissionais de recursos humanos, sindicatos, entidades especializadas e órgãos públicos que estão alavancando a inclusão no mundo do trabalho.
Data: 28/5

Informações:
Espaço da Cidadania
www.ecidadania.org.br
ecidadania@ecidadania.org.br
11-3685-0915

Espaço da Cidadania
Osasco - SP, 07/05/2009

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Deficiência moral

Falar “deficiência moral” assim, sem explicar, parece redundante, pois este é o maior padecimento da sociedade brasileira, em especial da sua representação política, na sua maior parte ilegítima e não merecedora de nenhum respeito. Mas estou me referindo é ao projeto do deputado Efraim Filho de cota para deficientes em instituições públicas de ensino médio e superior, que, ao menos de mim, também não merece respeito.

Qual é a desse Efraim? Será que ele está querendo promover a inclusão das pessoas com deficiência na bandalheira geral nacional, de acordo com a lei do pobre Gérson, ou está mediocremente catando votinhos de coitadinhos, e de quem pensa que somos coitadinhos, para se manter na mordomia da capital federal?

Mesmo sem considerar que os dez por cento reivindicados já são um exagero, que somados às outras cotas formam o absurdo de deixar apenas 40% para quem não é negro, pobre ou deficiente e apenas estuda, o projeto do Efraim representa, mais do que gigantesco retrocesso para a emancipação plena das pessoas com deficiência, um verdadeiro ato de discriminação, à semelhança do famigerado projeto de Estatuto do coitadinho do Paulo Paim, e o deficiente que o defender estará equivocado, se autodiscriminando.

Fazer a coisa certa, que é bater de frente com o Executivo e cobrar tudo o que seja necessário para as pessoas com deficiência poderem assistir às aulas – da acessibilidade arquitetônica aos softwares para cegos –, para poderem chegar nas escolas e faculdades – da acessibilidade nas vias urbanas a um sistema de transporte público acessível –, isso pouca gente faz porque gera antipatia e não serve às negociatas eleitoreiras ou de sinecuras. É mais fácil fazer demagogia com um projeto como esse, enganar os coitadinhos, os que pensam que somos coitadinhos, e favorecer aos que vivem de olho em mordomias.

Ô Efraim, deixa de ser Paim! Afinal, como ficará a autoestima de meus amigos paralisados cerebrais que passaram no vestibular, se formaram, e exercem o jornalismo com uma competência pouco comum, ou do rapaz pobre e tetraplégico, morador de subúrbio distante, que passou para Ciência da Computação na UFRJ, assim como a de tantas outras mentes brilhantes de pessoas com as mais diversas deficiências? Dá só uma olhada na História para você ver quantos deficientes contribuíram para o progresso humano. Você vai encontrar de Beethoven a Roosevelt.

E o coitadinho do Efraim ainda diz que a cota para deficientes é mais justa do que as raciais “porque vai corrigir uma desigualdade visível”…

Ex-aluno do colégio Pinócchio-Visão, o deputado diz que “um aluno cego não disputa o vestibular em igualdade com outro que enxergue, mesmo que os dois tenham recebido a mesma formação escolar”. Claro, ô Paim, quer dizer, Efraim! Para igualar as condições, o cego precisa de braile ou software leitor de tela! A bem da mais visível verdade, inteligência e capacidade para estudar os cegos têm, e muitas vezes mais do que quem não é cego e estudou no colégio Pinócchio-Visão.

Em outra pérola do pensamento efrainiano, o parlamentar solta que “a divisão das vagas vai depender do bom senso, porque há deficientes que também se enquadram nos critérios de renda e etnia”. Descontando o fato de que não deva ser o bom senso a reger partilha de tal natureza, podemos dizer que esta é uma conclusão brilhante diante da possibilidade de ele vir a defender que os deficientes negros e pobres podem acumular três vagas, três carteiras escolares, três diplomas etc.

Representante do povo paraibano, todos nós sabemos que o maior problema do Brasil, e certamente mais ainda do seu estado, é justamente a pobreza. Porque não gastar sua energia de jovem parlamentar promovendo maior distribuição de renda na terra em que nasceu e no resto do país? Trabalhe para garantir a melhor educação inclusiva possível para todas as crianças brasileiras pobres, deputado. Qualquer levantamento estatístico indicará que a maioria das crianças com deficiência, negras ou não, está nas camadas de baixa renda, que não têm nem mesmo a atenção devida na hora do parto. Fazendo isso, certamente resolveremos com facilidade todo o resto, sem necessidade de passar um atestado de deficiência moral como esse projeto de lei.

ANDREI BASTOS