sábado, 13 de junho de 2009

A lição é vencer o preconceito.

Cresce o número de estudantes com necessidades especiais em escolas regulares.

Quando conheceu a aluna Diuliana Guimarães Borges, o colega Antonio dos Santos, de nove anos, estranhou. Como a menina tinha dificuldades de enxergar e até de pegar o lápis, em consequência de uma paralisia cerebral, pensou que ela não seria capaz de aprender. A cada dia, porém, o aluno da Escola Municipal de Ensino Fundamental Dolores Alcaraz Caldas, em Porto Alegre, descobre que quem precisava aprender era ele.

– Vi que ela pode fazer um monte de coisas, e ela está aprendendo. Ontem, ela fez o A – constata o colega, do 3º ano do Ensino Fundamental.

A descoberta do pequeno Antonio é uma realidade entre as escolas que promovem a inclusão de mais de 28 mil alunos com necessidades especiais no Rio Grande do Sul. Um desafio crescente: segundo dados do Censo Escolar do Ministério da Educação, o número desses estudantes em escolas regulares no Estado cresceu 38% em oito anos, na soma das redes estadual, municipal e particular. Embora o processo ainda enfrente resistências, instituições que investem em estratégias para acolher alunos com dificuldades motoras, auditivas, visuais e mentais em turmas regulares comemoram conquistas. Ao se adaptar para receber uma criança especial, todo o grupo aprende a vencer preconceitos.

– Até pouco tempo, não se tinham expectativas de que essas crianças pudessem estudar e ir além em sua escolarização. Hoje, elas chegam cada vez mais ao Ensino Superior. Pela lei, as escolas já não podem negar matrícula para nenhum aluno, mas a questão não é só a entrada, precisamos pensar em como garantir a permanência e a qualidade do ensino, caso contrário, a entrada dessas crianças nas escolas regulares poderá promover processos de "inclusão excludente" – alerta a professora do Departamento de Estudos Especializados da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Adriana da Silva Thoma.

Uma das apostas é o projeto de docência compartilhada
Desafiados diante de uma nova realidade, os estabelecimentos de ensino começam a rever suas práticas. Na Escola Dolores Caldas, por exemplo, onde cerca de 50 dos 1,7 mil alunos têm algum tipo de deficiência, uma das apostas é o projeto de docência compartilhada. Em duas turmas, dois professores dividem a mesma sala de aula, para garantir que a inclusão aconteça e que alunos como Diuliana possam aprender. Enquanto um dá atenção ao grupo todo, o outro desenvolve atividades específicas a fim de estimular o aprendizado de quem mais precisa.

– É um desafio muito grande, a gente planeja às vezes uma atividade e na hora descobre que não vai funcionar, mas é compensador. Ontem, passamos pela escola inteira mostrando a letra A que a Diuliana conseguiu fazer. Todo mundo fica feliz, os alunos correm para ficar com ela no recreio – conta a professora Geani Droescher, uma das que atuam na sala da menina.

As transformações também atingem a rede privada. O presidente do Sindicato dos Estabelecimentos do Ensino Privado no Estado do Rio Grande do Sul, Osvino Toillier, afirma que a meta é adaptar a estrutura dos prédios para assegurar acessibilidade até 2010. Mas também aponta limitações.

– Somos totalmente a favor da inclusão, mas é impossível que cada escola atenda a todos os tipos de necessidade especial. Dependendo da natureza da dificuldade o caso é tão complexo que exige uma verdadeira equipe para atender, e isso gera custos. Quem vai pagar? – questiona.

No Colégio La Salle Dores, em Porto Alegre, 25 alunos especiais frequentam turmas regulares. Para reforçar o aprendizado, alunos com deficiência mental frequentam laboratórios de ensino e aprendizagem no turno inverso. Colega de um aluno que sofre de esquizofrenia, Gabriela de Mello Colombo, 10 anos, ajuda o garoto a copiar a matéria e guardar seus materiais.

– A gente aprende a conviver e a respeitar as diferenças. Antes eu achava que, se ele estava precisando de ajuda, eu não tinha nada a ver com aquilo, porque cada um tinha que se virar. No começo, os colegas riam porque ele falava sozinho, mas agora todo mundo ajuda, passa a matéria, e isso é bem legal – conta.

Zero Hora
10/06/2009

quarta-feira, 10 de junho de 2009

“Eu posso ter uma capacidade de fazer coisas que os ditos normais não conseguem”

Texto fala sobre a deficiência e os obstáculos à inclusão.

"Coitadinho do cego" é uma expressão que se ouve com regularidade, mas que não se adequa a João Almeida. A energia e a força de vontade que mostra ter em qualquer actividade que desempenha no dia-a-dia fazem com que ele se sinta feliz apesar da falta de visão que o persegue desde o dia em que sofreu um acidente de viação. Oito de Dezembro de 2001 foi o dia que marcou a sua vida. Após um acidente de carro sofreu um traumatismo craniano e ficou cego. Mas, não foi a perda de um dos sentidos mais importantes do ser humano que o fez desistir de lutar pela vida com os quatro que lhe restaram. "Eu sou diferente porque não tenho uma coisa que a maioria das pessoas tem: não vejo. Mas eu posso ter uma capacidade de fazer coisas que os ditos normais não conseguem", explica João Almeida.

Apesar da memória visual das pessoas e dos objectos que viu ficarem para sempre, agora as pessoas com quem convive são identificadas pela voz.

A diferença nunca foi um obstáculo e discriminação é uma palavra que não entra no seu vocabulário. "Não me acho discriminado. O deficiente só se considera discriminado se ele não se integrar".

Em casa não está parado. Quando se levanta prepara o pequeno-almoço para a filha e para a namorada que é amblíope e tem apenas 30 por cento de visão. A filha, que João teve com a ex-mulher, é a única lá em casa que não tem problemas visuais. No entanto, consideram-se todos iguais. "Eu não vou utilizar a minha filha para me desenrascar". É o lema lá em casa. Por vezes, quando surgem documentos com letras mais pequenas que a namorada não consegue ler João pede ajuda à filha, "mas só em coisas deste género".

A organização é essencial na vida de um invisual. Na cozinha, João Almeida confessa que faz de tudo. "Só não faço doces porque não ligo muito", afirma. Existem técnicas que utiliza para saber quando a comida está pronta e também se baseia muito no temporizador para confeccionar os pratos. No entanto, não é possível trabalhar correctamente na cozinha, ou em qualquer outro espaço, se não estiver sempre tudo organizado. "Lá em casa não pode haver desarrumação para que seja possível encontrar as coisas", refere.

A roupa que veste é escolhida por si. No armário guarda tudo por secções. Com alguns truques consegue identificar a marca, as cores e o tecido. "Quando tenho duas camisolas de marcas diferente mas da mesma cor, se as etiquetas forem iguais - o que normalmente não acontece - cozo uma bolinha na etiqueta de uma delas para as distinguir", explica.

Preconceitos das empresas complicam a vida aos deficientes na procura de emprego. Ganhar o euro milhões não é, como acontece à maior parte das pessoas, o grande sonho de João. Para o futuro, a coisa melhor que lhe podia acontecer era arranjar emprego. "Com um emprego conseguia ter uma vida mais estável", afirma. Ficou desempregado depois de ter o acidente e até hoje ainda não conseguiu encontrar um novo local de trabalho. Já realizou alguns estágios e várias formações, mas as portas para um novo emprego teimam em não se abrir. "Muitas vezes as empresas e as pessoas em si não se querem abrir a receber pessoas com deficiência", lamenta João Almeida. "O que é que ele vai fazer? Se calhar vou ter que andar aqui com ele de braço dado para aqui e para ali", esta é a mentalidade que João Almeida considera que muitas empresas têm sobre os invisuais. A lei obriga a que cinco por cento dos elementos de uma empresa sejam portadores de deficiência. Mas nem sempre isso é cumprido.

O computador que utiliza não é diferente dos restantes, apenas tem um software específico que lê tudo o que aparece no ecrã. João Almeida passou a ter mais entraves no seu caminho, mas garante que com os meios que existem actualmente consegue fazer quase tudo. "Não podemos ser preguiçosos nem comodistas, nós, deficientes, temos que lutar pelos nossos objectivos", apela.

Um amigo chamado Myle. João Almeida deixou para trás a bengala e optou pela companhia de Myle, o seu cão guia, que o permitiu tornar-se mais independente e ter uma maior mobilidade. Não é Myle que segue João Almeida, mas sim ao contrário. Com ele conseguiu diminuir o tempo que demorava em cada trajecto e ultrapassar mais facilmente os obstáculos que encontra pelo caminho.

À ordem de João, Myle segue até ao Pinto, um café que habitualmente frequentam. Nos degraus pára, nos postes desvia-se, e quando chega ao local é saudado pelo dono. Mas também é repreendido quando se porta mal.

João Almeida refere que o obstáculo que mais o atrapalhava são as pessoas. E conta que em Lisboa já lhe aconteceu querer sair numa paragem de autocarro e uma senhora lhe dizer que não podia sair naquele sítio, porque essa não era a saída da associação de invisuais. "Mas eu é que sabia para onde queria ir", respondeu indignado. "As pessoas também andam sempre a dizer ‘cuidado com o degrau que pode cair’ mas, um invisual quando precisa de ajuda pede, é isso que eu digo sempre às pessoas".

Os cães são normalmente atribuídos apenas a invisuais que estão empregados, visto que, acarretam grandes despesas. Na altura em que ficou com Myle, João Almeida estava desempregado, mas devido ao facto de ser muito activo abriu-se uma excepção. Quando o cão chegar à idade da reforma, que se atinge entre os nove e os dez anos, começa a perder capacidades e terá que ser substituído. Contudo, João Almeida garante que não quer perder o amigo e que vai ficar com Myle até ele morrer.

A força de vontade é o alimento que faz com que João Almeida continue a viver normalmente a sua vida e não se tenha deixado abalar pelo acidente que em 2001 lhe roubou a visão.

Jornal do Centro
Portugal, 09/06/2009
Publicado em 05/06/09

Especialistas afirmam que ácido fólico adicionado às farinhas de trigo e milho é insuficiente para prevenir malformações.

Estudo Colaborativo Latino-americano de Malformações Congênitas indica que a dosagem atual é insuficiente e deve ser aumentada.

Desde o dia 17 de junho de 2004, encontra-se em vigor no Brasil a resolução que obriga a adição de ferro e ácido fólico nas farinhas de trigo e milho, após um esforço conjunto de diversos órgãos de saúde, entre eles o ECLAMC (Estudo Colaborativo Latino-americano de Malformações Congênitas), sociedades médicas e algumas ONGs. A resolução baseia-se em estudos que mostram os benefícios dessas substâncias na prevenção de defeitos do fechamento do tubo neural (mielomeningocele e anencefalia), considerados como uma das formas mais comuns de malformação congênita.

Hoje, porém, a posição do ECLAMC, através do seu coordenador, Dr. Eduardo Castilla, e também de outras instituições, é de que a dosagem atual é insuficiente, devendo ser aumentada. A Resolução no 344 prevê que cada 100g de farinha de trigo e de farinha de miho forneça, no mínimo, 4,2 miligramas de ferro e 150 microgramas de ácido fólico - em 1992, a saúde pública dos EUA já recomendava uma dosagem de 400 microgramas.

Para os especialistas dos diversos órgãos de saúde e sociedades médicas envolvidos com o Projeto Ácido Fólico, entre elas a Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN), além do aumento da dosagem, é necessário a implementação dos demais pontos do projeto, no sentido de estimular a ingestão de alimentos ricos em ferro e, especialmente, a recomendação de que todas as mulheres férteis ingiram ácido fólico diariamente.

O empenho já vem acontecendo em forma de discussões fechadas, visando a elaboração de uma nova proposta. Mas, a partir deste ano, o assunto começará a ser debatido em congressos médicos, para que o Brasil apresente uma proposta na Reunião Latino-americana de Consenso sobre Mielomeningocele, a ser realizada no primeiro semestre de 2010. "O objetivo é envolver a América Latina como um todo - hoje, apenas no Brasil, Argentina, Chile e Costa Rica há um programa de fortalecimento de farinhas levado a sério", explica o Dr. José Francisco M. Salomão, membro do Departamento de Pediatria da SBN.

Segundo o Dr. Salomão, o objetivo final deste esforço, que também prevê uma maior conscientização da população sobre o papel protetor do ácido fólico, é a alteração da Resolução no 344 pelo Ministério da Saúde, garantindo uma prevenção mais efetiva quanto a essas malformações.


Snif Doctor
09/06/2009

terça-feira, 9 de junho de 2009

Lidando com as diferenças.

Texto de aluno do 3°ano do colégio, que fala sobre a importância do convívio com a diferença na infância.

Devido à participação de uma portadora de deficiência física como apresentadora em um programa infantil britânico, muitos pais, cujos filhos assistiam a essa atração, demonstraram indignação, divulgando, em “websites”, pensamentos de temor pela influência que essa imagem incomum causa nas crianças. Cerrie Burnell, a mulher que é alvo desses comentários, não deve, entretanto, ser afastada de seu trabalho por sua deficiência.

Burnell representa uma oportunidade para os pais conversarem com seus filhos sobre deficiência física. Ela mostra às crianças o que os filmes infantis omitem, permitindo que os infantes cresçam menos absorvedores de preconceitos. Cabe aos pais aproveitar a situação e concluir a tarefa iniciada pela televisão: ensinar seus filhos a conviverem harmoniosamente com o que é diferente.

A sociedade passa seu preconceito de uma geração à outra. Ao provocar comentários desagradáveis sobre sua deficiência física, Burnell desmascarou a discriminação embutida em muitos pais. Essa herança social deve ser combatida veementemente, com a criação de mais leis que punam o preconceito contra deficientes físicos.

A apresentadora não deve, portanto, ser afastada de seu trabalho devido à sua deficiência física. Ela é importante para que as crianças britânicas cresçam aprendendo a respeitar o que é diferente. Burnell pode ser o começo para a entrada de apresentadores distante da idealização cultuada pelas últimas gerações, em programas infantis.

O Povo Online
08/06/2009