sábado, 14 de novembro de 2009

Workshop Sobre Acessibilidade Na Produção teatral Brasileira.

A importância de se ampliar o acesso das casas de espetáculos culturais para possibilitar a inclusão de pessoas com deficiência
Como parte da programação do 7º Festival Intercâmbio de Linguagens (FIL), que ocorreu de 2 a 12 de julho no Rio de Janeiro e de 7 a 12 de julho em São Paulo, a Mais Diferenças – ONG voltada para a educação e inclusão social de pessoas com deficiência promoveu um workshop sobre a acessibilidade na produção teatral brasileira.

No dia 3 de julho, no Rio de Janeiro, um dos coordenadores da Mais Diferenças, Luis Mauch, junto com o músico Marcelo Yuka e a especialista em acessibilidade Lêda Spelta, debateram o tema 'Reflexões sobre a produção teatral acessível para pessoas com deficiência', no Teatro do Jockey - Centro de Referência Cultura e Infância.

Os participantes enfatizaram a importância de se ampliar o acesso das casas de espetáculos culturais para possibilitar a inclusão de pessoas com deficiência. Mediador da mesa-redonda entre os participantes, Luis Mauch ressaltou que se os espaços forem transformados, a deficiência 'deixará de existir'.

"O conceito de deficiência é o de uma limitação funcional, porém, ao se adaptar à deficiência, o ambiente passa a permitir o acesso de todos, fazendo com que desapareça qualquer tipo de limitação", explica Mauch. "Na verdade, o conceito é erroneamente ligado à pessoa, quando é o ambiente que deveria deixar de ser limitado para propiciar a acessibilidade de qualquer pessoa".

Para o músico Marcelo Yuka, ex-integrante da banda O Rappa que se tornou paraplégico após ser baleado por um assaltante no Rio de Janeiro, a questão da não acessibilidade é endêmica à cultura brasileira e a outras culturas no mundo. "Como músico e espectador, eu tenho a possibilidade de estar nos dois lados do espetáculo e, por isso, identificar problemas em ambas as esferas", afirmou Yuka. "A arquitetura brasileira, de forma geral, é muito elogiada no mundo inteiro, mas ainda há uma predominância da visão econômica, que acredita que só deve ter acesso aquele que produz e gera dinheiro, considerando idosos e deficientes como excluídos desse grupo, o que é um erro", completou.

A especialista Lêda Spelta pôde contribuir com o debate compartilhando sua experiência técnica com o tema. Lêda enfatizou a importância da audiodescrição e da capacidade profissional dos audiodescritores para que a acessibilidade seja completa. "Tudo que a compreensão natural seria obtida pela visão tem de ser substituído pela audiodescrição, seja com recursos óbvios ou muito sutis, de forma cirurgicamente colocada no intervalo entre os diálogos", salienta. Para finalizar, Lêda cobrou do governo a falta de apoio para incluir a audiodescrição nos canais de televisão. "Esperamos que, após um ano da assinatura da Convenção da ONU pelos Direitos da Pessoa com Deficiência, as coisas comecem a mudar. Na hora de pagar impostos, pessoas com ou sem deficiência pagam igual, nem mais, nem menos. Portanto, os direitos também devem ser iguais e não é o que tem ocorrido".

A supervisora e coordenadora do "Na Luta", Beatriz Pinto Monteiro, prestigiou o evento e confessou ter tido informações sobre audiodescrição que desconhecia.



Blog Audiodescrição
13/11/2009

MPF move ação para garantir que estudante com paralisia cerebral faça o Enem.

A ação visa garantir que Guilherme Finotti utilize computador adaptado para realizar a prova
O MPF (Ministério Público Federal) em Novo Hamburgo (RS) ajuizou ação civil pública com pedido de antecipação de tutela para que o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), responsável pela aplicação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), atenda às necessidades de um estudante com paralisia cerebral e utilize o computador adaptado do laboratório da Escola de Aplicação da Feevale para que ele realize a prova.

Caso o equipamento não seja disponibilizado, Guilherme Finotti corre o risco de não conseguir fazer a prova, que será aplicada nos próximos dias 5 e 6 de dezembro.

De acordo com a ação, o estudante gaúcho é portador de paralisia cerebral e já cursou o ensino técnico em informática, junto com o ensino médio regular, no qual irá se formar no final deste ano.

O aluno ainda obteve o prêmio Destaque do 4º Salão UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Jovem 2009, pelo desenvolvimento de um projeto de iniciação científica Júnior da Feevale, por ter criado uma ferramenta de aprendizagem que consiste em um jogo de computador (Software de Alfabetização para Crianças com Paralisia Cerebral).

Antes disso, recebeu também outros títulos: medalha de Prata na VII Olimpíada Brasileira de Astronomia, prêmio de Melhor Fotografia, pelo Júri Técnico, no documentário “Diferente Como Você”, formação no Curso Técnico em Desenvolvimento de Software e Aplicação para Internet.

Para se comunicar com seus amigos, colegas e professores, Finotti utiliza um computador adaptado e a Escola da Aplicação da Feevale, onde estuda atualmente, adaptou dois equipamentos, um em cada laboratório, para que Guilherme possa estudar. “Esses equipamentos são computadores – que servem como lápis e papel para ele – com teclados e mouse adaptados, numa espécie de colméia, com orifícios na posição das teclas”, escreveu o procurador da República e autor da ação Júlio Carlos Schwonke de Castro Júnior.

Enem para faculdade pública

O estudante deseja prestar o Enem para ingressar numa faculdade pública, como muitos de sua idade. Desde maio seus pais tentam a realização da prova por meio de computador adaptado, porém, sem sucesso.

Em resposta, o Inep alegou que a adaptação de um computador para o aluno realizar o exame “estaria fora das regras do Enem, e que não haveria lei que os obrigassem a 'abrir tal exceção'; o segundo motivo é que não haveria tempo suficiente para licitação para a compra daquele equipamento, já que o material deve ser fornecido somente pelo Inep”.

A própria Feevale se dispôs a fornecer o computador adaptado – o qual já existe naquela escola – para que o estudante realize o Enem, de forma alternativa, dentro das condições do exame, com a retirada de programas de computador (inclusive corretor ortográfico, calculadora e demais) e, se for o caso, ficando o equipamento lacrado até o resultado final do certame. Tal possibilidade também não foi aceita pelo Inep, com a alegação de que o próprio Instituto é quem deveria fornecer o equipamento.


Última Instância
13/11/2009

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Deficiente vítima de abuso sexual depõe piscando os olhos.

Uma britânica com paralisia cerebral ajudou a condenar por abuso sexual o funcionário de um lar para deficientes, ao responder apenas com piscadas de olho às perguntas dos advogados.

James Watts, de 57 anos, foi sentenciado a 12 anos e meio de prisão, após um julgamento de três semanas, no qual outras vítimas também com deficiências graves deram seus depoimentos com a ajuda de sensores colocados em suas cadeiras de rodas e ligados a um computador.

O juiz da corte da cidade de Exeter, Graham Cottle, afirmou que este foi o caso mais difícil que enfrentou por causa do grau de invalidez das vítimas.

Ao proclamar a sentença, Cottle disse a Watts que a população vai ver seus crimes com "grande revolta". "O senhor desceu a um nível de depravação que ultrapassa os limites da compreensão", declarou.

Inapropriado
Watts trabalhou como motorista no asilo entre 2005 e 2008.

No local, vivem homens e mulheres com idades entre 20 e 50 anos que sofrem de casos graves de deficiência, precisando de ajuda para se locomover e realizar outras atividades comuns do dia-a-dia.

Segundo o promotor do caso, Paul Dunkels, Watts abusou de quatro mulheres que não conseguiam oferecer resistência por causa de sua condição física.

Os crimes foram descobertos depois que uma voluntária do local viu ele tocando uma das vítimas de maneira inapropriada durante uma refeição.

O promotor afirmou que a mulher que respondeu às perguntas com piscadas de olho conseguiu confirmar que Watts realmente tocou várias partes de seu corpo.

Outra vítima prestou depoimento à polícia na época das investigações, mas agora já perdeu a capacidade de se comunicar. Mesmo assim, vídeos de seu testemunho foram exibidos aos jurados.

Em um comunicado conjunto, as famílias de duas vítimas se disseram satisfeitas com o veredicto. "O resultado deste caso reconhece que aqueles indivíduos mais vulneráveis têm uma voz e merecem o direito à justiça como qualquer outra pessoa", afirmaram.



BBC Brasil
12/11/2009

Um mundo de Geisys.

Para Fábio Adiron, o que aconteceu com Geisy acontece todos os dias com as pessoas com deficiência, que são condenadas por terem características que incomodam os demais.

Fábio Adiron

Muito se falou (e ainda se falará), sobre o caso da moça que foi expulsa da universidade (cujo nome não merece menção) depois de ser vítima de assédio moral e, não fosse a intervenção da polícia teria sido vítima de agressão ou, até mesmo, de abuso sexual.

O assunto já foi muito analisado e discutido em diversos fóruns, não vou entrar nesse debate.

O ponto ao qual quero me ater é o seguinte: a moça foi condenada por ser vítima, ou seja, duplamente agredida, num primeiro momento pelos colegas, no segundo por uma instituição que preferiu se livrar de um problema a resolvê-lo. Pior, alegou questões de valores e de ética para detonar com qualquer hipótese de respeito ao direitos humanos.

O que aconteceu com a Geisy chamou a atenção pela cobertura dada pela mídia ao caso. Mas não é nenhuma novidade. Acontece todos os dias com as pessoas com deficiência que são condenadas por terem características que incomodam os demais.

Todos os dias, crianças com deficiência são recusadas ou convidadas a se retirar de escolas, porque não são compatíveis com os valores que essas mesmas escolas dizem ter. Escolas que preferem culpá-las por suas deficiências do que tentar entender a atender a diversidade.

Todos os dias, colegas e pais de colegas preconceituosos assediam as escolas (especialmente as particulares) reclamando da presença de pessoas com deficiência nas suas salas. Todos os dias, escolas aceitam a pressão desses mesmos colegas e pais (em nome do dinheiro que eles pagam, é claro, assim como foi o caso da menina da universidade).

Todos os dias pessoas com deficiência são expulsas (ou recusadas) de ônibus cujos motoristas não querem perder tempo abaixando e levantando plataformas. Todos os dias passageiros sem deficiência comemoram o tempo que não perderam para as pessoas com deficiência embarcarem.

Todos os dias pessoas com deficiência são eliminadas de processos de recrutamento e seleção porque são culpadas das empresas não terem acessibilidade física, de comunicação ou, pelo simples fato de que os possíveis colegas de trabalho não vão se adaptar à presença delas no ambiente de trabalho (lugares onde vemos muito valores como solidariedade, colaboração, respeito, não é mesmo?).

Todos os dias pessoas são expulsas do acesso à cultura, à comunicação, ao lazer. São culpadas por não enxergar, ouvir ou compreender os valores distribuídos nesses canais.

A mídia, os blogs, os políticos, os poderes públicos estão se mobilizando pela Geisy e contra o que significou a atitude da escola.

Será que alguma hora vão se lembrar das demais 24,5 milhões de Geisys que temos espalhadas pelo país?



Xiita da Inclusão
12/11/2009

Inclusão, sociedade e outros abusos conceituais

Mais dignidade para a vida de todos e menos discurso para que possamos construir de uma vez um novo tempo a partir de agora.

Muitos conceitos costumam habitar temporariamente a mentalidade da sociedade e das pessoas. Assim foi que a sustentabilidade passou a significar menos uma postura ético-ambiental e mais um termo do arcabouço aparentemente infindável do discurso político. Participação popular, democracia participativa são termos muito empregados por pessoas que são profissionais em representar os demais. Controle público já se pode ouvir da voz eletrônica de um 0800 de uma repartição pública. Sem falar no paradigma que, também por sua origem grega, impressiona, mesmo quando não há nada perto de um paradigma em questão.

Com a inclusão não haveria de ser diferente. A inclusão é um a palavra mágica que deveria recolocar o sujeito imediatamente numa condição de vida ideal, imaginada normalmente por um terceiro. Além disso, tem a vantagem de casar muito bem com outro termo: a transversalidade. Então temos que a inclusão é transversal, ou seja, é aplicável a qualquer segmento social, grupo humano ou temática. A crença de que a inclusão fica nisso é o que torna o conceito suscetível a maus entendidos muitas vezes criados intencionalmente. Mas a inclusão é a condição da ausência, mais que da presença. Seu foco não é o sujeito e suas particularidades, mas o ethos e suas complexidades. Muito da dificuldade em desfazer a crença comum de que a luta pela inclusão seja meramente uma tentativa de reconciliação social se deve ao fato de que também muitas vezes se faz uma relação apressada com outro conceito que também ganha eco em proporções e direções geométricas: a reparação.

A reparação é possível e cabível quando aqueles a serem reparados tem em consenso que ela por si só é condição si ne qua non de resolução de um conflito. É como um passo sem o qual não é possível avançar. A noção de reparação não tem muita semelhança com a inclusão pois aqui não há uma espécie de dívida histórica, a inclusão é uma necessária interlocução nas democracias contemporâneas porque se trata da ocupação de um vazio histórico, no qual a invisibilidade é um tipo de violência pactuada por toda a sociedade. A inclusão não existe sem o seu oposto: a exclusão. E todos os processos em que se coloca a perspectiva de incluir sujeitos é porque estes mesmo sujeitos se encontram de uma forma ou de outra alijados de seus direitos fundamentais e de qualquer oportunidade social.

Quando se fala em incluir um aluno numa escola, não se fala somente em seu direito a pertencer, a ocupar um espaço social, mas sobretudo em destituir a escola de sua cultura excludente, onde cabem uns e não cabem outros. Quando se fala em incluir uma pessoa no mercado de trabalho, não se está falando apenas do seu direito ao acesso ao autosustento, mas na transformação do mercado num espelho de toda a sociedade, e não apenas dos privilegiados que criam o seu ordenamento. Quando se fala em inclusão, não se fala apenas por pregação da diversidade ou pela afirmação da igualdade de direitos e oportunidades, mas se admite que o estado de direito e a organização social competem e organizam uma sociedade essencialmente desigual e heterogênea. O que se busca com a inclusão é a construção de uma sociedade mais igual, que respeite mais as diferenças entre os grupos e que providencie direitos comuns aos cidadãos e seu acesso a estes direitos.

Muitas vezes será impossível avançar nesse sentido sem que se desarticule o discurso da exclusividade, do preferencial, da proteção e até mesmo da reparação. Talvez aqui estejamos falando de um paradigma, de uma situação formalmente assumida pela sociedade. Bem como pensava Thomas Khun, não há mesmo meio de suplantar um modelo de organização sem que suas bases sejam desestruturadas, desconstituídas. A sociedade brasileira ganhará muito se conceitos como sustentabilidade, participação popular, controle público, inclusão e estado de direito deixarem de ser ameaçados por discursos vazios e eventuais. Se forem incorporados como valores "da" sociedade e não conceitos com finalidade específica. Estes são termos que precisam ser "incluídos" em definitivo em nossa sociedade para que possamos começar a construir mais realidades e menos conceitos. Mais dignidade para a vida de todos e menos discurso. Para que possamos construir de uma vez um novo tempo a partir de agora.


Brasil de Fato
12/11/2009

Alinne Moraes: o desafio da tetraplégica Luciana.

Em entrevista, atriz conta que esse é o papel mais difícil de sua carreira, pois exigirá muito fisicamente; ela terá movimento parcial dos braços e nenhum das pernas.

Aos 26 anos, a modelo-atriz Alinne Moraes já registra ao menos três papéis difíceis na carreira. Em 2003, deu corpo a uma menina lésbica na novela Mulheres Apaixonadas. Quatro anos depois, viveu a vilã Silvia, de Duas Caras. Agora, em Viver a Vida, novela das 21h da Rede Globo, ela faz Luciana, uma modelo ambiciosa que se torna tetraplégica após um acidente. De todos os papéis, este é o maior desafio, conclui a sorocabana radicada no Rio. Especialmente pelo que exigirá dela fisicamente - Luciana terá movimento parcial dos braços e nenhum das pernas. Para viver a personagem, Alinne vem fazendo laboratório e realizando muita pesquisa. Na entrevista a seguir, ela fala sobre o processo de preparação.

O que você sentiu quando recebeu o convite para viver a Luciana?
Eu soube em abril que viveria a Luciana, e fiquei surpresa com a escolha. Depois, quando tive mais informações da história da personagem e li os primeiros capítulos da novela, percebi que esse seria o meu maior desafio até hoje. E, se o Jayme [Monjardim, diretor] e o Maneco [Manoel Carlos, autor da trama] me deram a Luciana, é porque estão seguros da escolha. Me sinto honrada.

O papel envolve também marketing social. O que você espera dessa personagem?
Acho que a novela poderá não só ajudar as pessoas com deficiência, mas abrir os olhos daqueles que desconhecem esse drama. Vamos contar uma história linda e verdadeira.

Como está sendo a sua preparação?
Para fazer a Luciana, conheci algumas pessoas, como a Flávia Cintra, que é consultora da novela. Eu me aproximei bastante dela, que é jornalista, casada e mãe de duas fofuras de dois anos de idade. Há 18 anos, ela sofreu um acidente que a deixou tetraplégica. Estamos sempre nos falando, e eu estou aprendendo muitas coisas. Uma delas é que a sociedade não os enxerga de verdade. Eu também treinei com uma professora que foi colocada à minha disposição e fiz um laboratório à minha maneira.

O que pesa mais na composição da Luciana, o lado físico ou emocional?
A minha preocupação é mais com a questão do corpo e dos movimentos, e não com o emocional. Conheci pessoas com diferentes níveis de deficiência e com histórias distintas, e acompanhei suas ações: vi como trocam de roupa, cozinham, cuidam dos filhos, tomam banho, escovam os dentes.

Você pretende se basear mais nos movimentos de alguma pessoa específica, como a Flávia Cintra?
Não. Acompanhando essas diversas pessoas, eu percebi que, apesar de todas terem em comum a deficiência, elas são bem diferentes, agem de forma distinta. Isso me possibilita uma liberdade de atuação.

O acidente afastará Luciana das passarelas?
Eu tenho pouca informação ainda sobre a nova situação da Luciana, porque não recebi os capítulos futuros. Estou aberta às surpresas que chegarão do Manoel Carlos.

Veja
12/11/2009

Deficientes físicos: vida segue sobre 4 rodas.

Ao choque que decorre da perda total ou parcial dos movimentos de pernas, braços e tronco, segue-se a recuperação e a criação de uma nova rotina para tetraplégicos e paraplégicos.

No capítulo da novela Viver a Vida desta quinta-feira, a personagem Luciana, vivida por Alinne Moraes, sofre um grave acidente que a deixará tetraplégica. A trama dará início ao calvário da modelo, que verá sua vida mudar radicalmente - como é lógico imaginar. Tudo indica, porém, que o trauma abrirá também uma nova fase na vida da moça.

A história deve repetir, dessa forma, o caminho seguido por muitos tetraplégicos e paraplégicos - no total, eles são 24 milhões no país ou 14,5% da população, segundo o censo divulgado pelo IBGE em 2000. Ao choque que decorre da perda total ou parcial dos movimentos de pernas, braços e tronco, segue-se a recuperação e a criação de uma nova rotina. O cotidiano, sem dúvida, demanda adaptações em relação à vida anterior. Mas, aos poucos, essas pessoas voltam a trabalhar, namorar, ter filhos e, enfim, tocar a vida adiante.

Quatro rodas - A adaptação mais evidente é representada pela cadeira de rodas. Com ela, paraplégicos e tetraplégicos podem ir e vir. "Eu sou praticamente um cidadão independente, faço quase tudo sozinho. Consigo me transferir da cadeira de rodas para o banco do carro, consigo dirigir, tomar banho, me vestir e me alimentar", diz o jornalista e escritor Marcelo Rubens Paiva - cujo drama da tetraplegia foi retratado no livro Feliz Ano Velho, best seller na década de 1980. Paiva é também um militante da causa dos deficientes físicos: foi dele a ideia de adaptar a frota de táxis de São Paulo para receber esse público.

As mudanças fazem parte da rotina de pessoas com deficiência. Mas não as impedem de viver. Ao contrário, como conta Sergio Lianza, professor-responsável pela disciplina de reabilitação da Santa Casa de São Paulo. No primeiro ano de lesão medular, diz Lianza, o paciente deve prestar especial atenção ao tratamento fisioterápico, para que não se torne totalmente dependente de outras pessoas. "Tomados os cuidados necessários, a pessoa segue em frente normalmente, com a mesma expectativa de vida de antes", afirma o médico.

Além da fisioterapia, é recomendável manter uma agenda de exercícios. Isso impede que a pessoa com deficiência física engorde, cultive colesterol e afaste as chances de enfarte.

A vereadora paulistana Mara Gabrilli é exemplar nesse quesito. Sem movimentos nas pernas e mãos desde 1994, ela precisa de ajuda até para coçar o nariz. Mas faz exercícios todos os dias. "Eu trabalho todos os músculos, do pescoço ao pé, e faço eletroestimulação neles uma vez por semana", conta a vereadora, em forma aos 42 anos. "Preciso de ajuda para tudo, mas não deixo de fazer nada. Meu banho é quase uma fisioterapia. Peço para as moças que me ajudam que me lavem com minha mão. E, quando como, é também com minha mão, conduzida por elas. É mais prazeroso assim."

Por dentro e por fora - Pouca gente sabe, mas manter controle sobre o intestino e a bexiga é um dos maiores desafios de quem está em uma cadeira de rodas. "É preciso reeducar os órgãos para condicioná-los a trabalhar em horários determinados", revela Fernando Fernandes, ex-modelo e ex-participante do Big Brother Brasil.

Ele sofreu um acidente de automóvel em julho, em São Paulo. Desde então, não sente as pernas e não sabe se voltará a andar. Mas está animado com a independência conquistada na fase de reabilitação. Ele já pratica esportes e toma banho sozinho.

Sexo, sim - O ritmo pode mudar. Mas o sexo, como a vida, continua para esses deficientes físicos. Para a mulher, as mudanças incluem a descoberta de novas zonas de prazer. "Como as sensações que geram orgasmo não são apenas genitais, ela acaba encontrando outros caminhos", afirma Lianza. Pode haver também alteração no ciclo menstrual no período imediatamente posterior à lesão. Depois, volta tudo ao normal.

Para o homem, a principal novidade é a ereção reflexa. "Quando você quer ter uma relação, não tem controle, é uma bagunça. Mas, com o tempo, você vai conhecendo seu corpo e a sensibilidade vai voltando", diz o tetraplégico Fabiano Puhlmann, de 43 anos, psicólogo e autor do livro A Revolução Sexual sobre Rodas. Puhlmann é casado há 12 anos.

Há casos em que a ereção involuntária é preservada, mas não é tão boa. Aí, pode-se fazer uso de drogas como o Viagra. A ejaculação também pode ser dificultada, mas em geral acontece. E, mesmo que não ocorra, ou que aconteça de maneira retrógrada - quando o sêmen vai para a bexiga, de onde é eliminado com a urina –, não se perde a possibilidade de ser pai. Uma coleta de sêmen, a ser introduzido na parceira, resolve a questão.

Veja
12/11/2009

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Filhos, esses enjeitados.

"Se a situação já não é boa para os filhos em geral, piora muito quando o filho tem alguma deficiência"

Por que alguém (no caso, alguéns) coloca um filho no mundo? Claro, muitos nascem, alegadamente, por descuido, como se as pessoas não soubessem exatamente como se dá o processo de produção.

Mas, pensando nos filhos gerados intencionalmente, eu já ouvi as mais diversas explicações.

Alguns alegam que os filhos são a reafirmação dos sonhos e de ver neles realizado tudo aquilo que um dia sonharam para si mesmos. Ou seja, não passam de instrumentos para manobrar suas próprias carências psicológicas.

Outro argumento sujeito as críticas é o da necessidade de satisfação do instinto materno: a recusa de uma mulher em procriar é vista quase que como uma ofensa social. Nesse caso a pressão social é um componente significativo. Alguns os têm por questões de sobrevivência econômica, acreditando que os filhos serão o suporte para a velhice. De novo, um argumento egoísta e, na maioria das vezes, falaz.

Existem casos de filhos que foram usados como possível amarra para casamentos falidos. Os pedantes alegam questões antropológicas de preservação da espécie. A psicologia de cozinha garante que é só para ter uma boneca de verdade para se brincar.

Nenhuma das explicações que eu li indicaram que alguém faça filhos pensando neles. Aliás, os que pensam no futuro das crianças são os que mais relutam em tê-los. A questão em que poucos costumam lembrar é a de que filho dá trabalho. E, cá entre nós, ninguém está muito a fim de trabalhar.

Os bichinhos precisam comer, são carentes de atenção, não poucas vezes ficam doentes. Para completar, uma hora tem de ir para a escola.

Esse é o momento em que os pais acham a sua tábua de salvação. Finalmente encontram um lugar para terceirizar as crias. E a escola que dê conta de fazer tudo aquilo que eles, pais, não estão dispostos a investir seu tempo.

O que é apenas mais uma demonstração do egoísmo original. Filho é ótimo, desde que não atrapalhe a minha individualidade, que não tome o tempo que eu poderia estar usando em atividades mais prazeirosas.

Se a situação já não é boa para os filhos em geral, piora muito quando o filho tem alguma deficiência. Aí é que os pais querem mesmo é se safar deles (claro, nem todos são tão cruéis a ponto de descartá-los), o trabalho é maior, o investimento de tempo muito maior, a necessidade de atenção é imensa.

Por isso não é nada surpreendente que tantos pais sejam contrários à inclusão de seus filhos em escolas comuns. Preferem se livrar deles das 7 às 18h largando em qualquer lugar que prometa que vai tomar conta deles, ainda que esses mesmos lugares não façam das crianças seres humanos de verdade. Jogam os filhos em depósitos de crianças com deficiência e, se pudessem, nem voltariam lá para buscá-las.

Preparar esses filhos para o mundo vai dar muito trabalho, até porque não vai ser tarefa exclusiva da escola comum, vai precisar do envolvimento deles, pais, que não tiveram filhos para ter esse tipo de compromisso.

O pior é que outros pais em cargos políticos estimulam essa lógica. Primeiro porque estão de olho nos votos dos pais insatisfeitos, depois porque muitos deles são, eles mesmos, os beneficiários dos sistemas de exclusão e segregação. O poder adora tutelar pessoas.

Os pais que querem criar seus filhos como seres humanos são chamados de loucos, radicais e até de xiitas.

Essa lógica perversa só muda quando a sociedade quer, só muda se os pais se mexerem para isso. Aí a escola se prepara, os professores se preparam, o mundo muda.


Fábio Adiron
Blog Xiita da Inclusão
09/11/2009

Procrastinações públicas em comunicação para pessoas com deficiência.

Fábio Adiron fala a respeito de políticas públicas referentes à comunicação para pessoas com deficiência.

Me pediram para falar a respeito de políticas públicas, em especial as referentes à comunicação para pessoas com deficiência. Por isso, antes de mais nada. fui pesquisar para entender o que são, ou deveriam ser, essas tais de políticas.

Descobri alguns conceitos interessantes. Que políticas públicas se fazem através de projetos transdisciplinares, uma vez que envolvem a ciência política e também a administração.

Que elas existem para a garantia dos direitos sociais, que visam a resolução de conflitos em torno da alocação de bens e recursos públicos para atender o maior número de beneficiários possível.

Existem diferenças entre decisões políticas e políticas públicas. Nem toda decisão política chega a ser uma política pública. Decisão política é uma escolha dentre um leque de alternativas, já política pública, que engloba também a decisão política, pode ser entendida como sendo um nexo entre a teoria e a ação. Esta última está relacionada com questões de liberdade e igualdade, ao direito à satisfação das necessidades básicas, como emprego, educação, saúde, habitação, acesso à terra, meio ambiente, transporte etc.

Em tese tudo parece ser muito bonito. Exceto pelo fato que, não só na área de comunicações (mas de educação, da cultura, da saúde) as políticas públicas têm sido regidas pelos interesses da iniciativa privada e quase nunca no interesse público. Por isso prefiro chamar a minha fala de procrastinações públicas e, caso você não conheça o verbo procrastinar, ele significa a técnica sofisticada do que popularmente conhecemos como empurrar com a barriga.

O que não deixa de ser curioso, uma vez que, quando nos debruçamos sobre os aspectos puramente capitalistas desses problemas notamos que, em que pese o natural aumento de custos que essas políticas públicas podem criar para as empresas privadas, elas também trazem no seu bojo uma abertura de mercado de consumo que elas parecem não considerar que existe.

Peguemos um caso específico ligado à área das comunicações, uma vez que esse é tema desse encontro.

Em 27 de junho de 2006, através da portaria 310, o Ministério das Comunicações estabeleceu os recursos de acessibilidade para pessoas com deficiência a serem implantados pelos transmissores de radiodifusão (que, por sinal, são concessões públicas).

Os recursos que deveriam ser implantados num prazo de 2 anos seriam a audiodescrição, a janela de LIBRAS e a legenda oculta (closed caption). No caso da audiodescrição isso implicaria na transmissão de 2 horas de programação diária com o recurso (a programação integral só teria audiodescrição depois de 11 anos).

Um dia antes da entrada em vigor do serviço. O Ministério da Comunicações adiou o prazo por mais 30 dias sob alegação da Abert que não teriam tempo para implantar o recurso. Claro, como costuma acontecer nesse país, os dois anos só serviram para esperar o prazo vencer. Depois foi colocado um novo prazo de mais 90 dias.

E depois de 2 anos e 3 meses...e Ministério abriu uma nova consulta pública a respeito. Pior uma consulta pública sem recursos de acessibilidade para uma das partes interessadas no tema. Claro que com objetivos meramente protelatórios, uma vez que úma consulta pública já tinha sido para embasar a portaria 310.

Claro que esse tipo de adiamento eterno atende apenas os interesses das empresas de radiodifusão.

No Brasil, segundo dados do IBGE, existem pelo menos 24,6 milhões de pessoas com alguma deficiência, sendo que 16,6 milhões (quase 70%) têm limitações visuais, são cegos ou possuem baixa visão. Só dois estados do Brasil tem população maior que essa (SP & MG) é o equivalente de toda a população do Chile. Dos 200 países do mundo, só 1/4 deles tem população maior que essa.

Portanto, o que acontece quando as empresas de radiodifusão, negam a essa parcela da população o direito de acesso aos seus programas

1. Contrariam toda noção de direitos humanos e de direitos constitucionais (art 227 , II) de acesso universal de bens e serviços. O que não deixa de ser curioso quando essas mesmas empresas gritam tão alto quando são atingidas naquilo que entendem ser seus direitos.

Pior, contraria a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, recém aprovada com status contitucional. O Congresso Nacional aprovou, por meio do Decreto Legislativo no 186, de 9 de julho de 2008, conforme o procedimento do § 3º do art. 5º da Constituição, assinados em Nova York, em 30 de março de 2007, e o Decreto nº6.949/2009, que a promulgou.

2. Contraria todo o discurso de responsabilidade de social que arrotam nas suas programações. O que confirma a desconfiança de que, no modelo assistencialista fiscal em que vivemos, responsabilidade social só interessa quando carrega junto algum benefício fiscal.

3. Contrariam o direito democrático de acesso à informação, o que configura censura velada ou pior ainda, um modelo ideológico que pretende manter essas pessoas alienadas da sua cidadania (um modelo alías que interessa muito aqueles que exploram economicamente a tutela das pessoas com deficiência.

4. Contraria os interesses mercadológicos das próprias empresas que estão abrindo mão de um mercado de consumo imenso. Quando vemos uma empresa como a Natura colocando audiodescrição nas suas peças publicitárias, podem ter certeza que não é para ser só simpática com os cegos.

Enquanto as empresas de comunicação não perceberem o que estão perdendo ao patrocinar a exclusão, elas vão ficar se escondendo atrás de pseudo questões financeiras e tecnológicas. Cabe ao poder público efetivamente atender o interesse do que é de todos e não só de alguns.

A menos, é claro, que o poder público tenha como meta manter o apartheid em que nos encontramos hoje.

*Esse texto foi o que serviu de base para a minha palestra no Seminário Internacional Comunicação & Exclusão, promovido pelo Instituto MID e pelo SESC Vila Mariana, em Outubro de 2009


Fábio Adiron
Blog Xiita da Inclusão
09/11/2009

Como os cegos diferenciam as notas de dinheiro?

As cédulas de real apresentam diferenças perceptíveis no tato apenas quando estão novas. O Banco Central deve adotar modelo estrangeiro para que os cegos consigam identificar melhor os valores. O braile não é uma opção viável


Em qualquer lugar do mundo é possível reconhecer o valor das notas de dinheiro. Seja na Índia, na China ou nos Estados Unidos, e nem precisa saber a língua nativa, nem mesmo ser alfabetizado. Só há uma exceção para essa regra: os deficientes audiovisuais. Como eles contam dinheiro? Aqui no Brasil, as moedas da segunda família (a segunda geração de moedas de real) possuem tamanhos e espessuras diferentes, algumas são serrilhadas nas bordas, justamente para serem diferenciadas por meio do tato. Já as cédulas têm marcas de relevo que se perdem com o uso. "Essas marcas são pouco perceptíveis, principalmente para os mais idosos. E, com o tempo, as notas vão perdendo o relevo", diz Regina Fátima Caldeira de Oliveira, deficiente visual e coordenadora da Revisão dos Livros Braille da Fundação Dorina Nowill, de São Paulo.

A primeira solução que vem à cabeça é a inserção de caracteres em braile nas notas. Essa, no entanto, é uma saída pouco útil: o braile sairia com o desgaste das cédulas, assim como acontece com as marcas de relevo atuais. "Além disso, o braile é lido por muitas pessoas cegas, mas não por todas. A gente não quer braile nas notas", afirma Regina, que participou de reuniões com o Banco Central e a Casa da Moeda com entidades representativas dos deficientes visuais do país, para encontrar uma solução viável e prática para o problema. O BC comunga a opinião da Fundação Dorina. Segundo João Sidney, do chefe do departamento de Meio Circulante, "a tecnologia de impressão não tem sobrevida. Na terceira manipulação da nota, o braile já acaba".

Apesar da concordância, pouca gente sabe que o braile não é o melhor caminho a seguir. No dia 27 de outubro, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) encaminhou um ofício à Casa da Moeda solicitando informações sobre a viabilidade técnica para implantação desse sistema de leitura nas cédulas e moedas do país. A proposta, feita pelo conselheiro do Amazonas Edson de Oliveira, tem a melhor das boas intenções, em defesa dos direitos dos cegos, já que os mesmos não têm acesso à leitura das notas. Mas não funciona. "Há quem faça isso para melhorar e ajudar, mas devia falar com pessoas que lidam com o problema diriamente e que podem ter a melhor proposta", diz Regina.

Entre as propostas sugeridas nas reuniões entre as entidades e o governo, a que mais agrada Regina é o modelo adotado na Austrália e nos países que fazem parte da União Europeia (e usam o euro). Lá, as notas possuem tamanhos diferentes, crescendo à medida que o valor aumenta. O portador de deficiência visual recebe uma espécie de gabarito que indica o valor da nota, em braile. Ao colocar a nota dentro desse gabarito, sua ponta vai cair sobre o valor correspondente a ela. Serve mais para quem ainda não decorou o tamanho das notas ou não está acostumado àquela moeda.

Na opinião do BC, no entanto, o modelo canadense é que deve vigorar no Brasil. Segundo o chefe do departamento de Meio Circulante do Banco Central, não é necessário mexer no design ou tamanho do dinheiro. "O Canadá insere nas notas uma tinta invisível diferente para cada valor e distribui um aparelhinho subsidado que reconhece o magnetismo da tinta e emite um sinal para cada valor", afirma João Sidney. Trata-se de um aparelho pequeno, que pode ser levado no bolso e distribuído gratuitamente pelo Canadian National Institute for the Blind. Sobre o gabarito, adotado pelos australianos e europeus, Sidney diz que não é a melhor solução e, como o reconhecimento é feito pelo tato, pode levar a erros de interpretação. "Eu apostaria nessa tecnologia sonora", diz. Só não se sabe quando ela entrará em vigor.


Laura Lopes
Revista Época
09/11/2009

domingo, 8 de novembro de 2009

Regra e exceção.

Minhas convicções relativas à inclusão da pessoa com deficiência são tais que me levam a rejeitar a própria palavra deficiência, e o conceito que ela expressa. Sou uma pessoa amputada, assim como existem pessoas cegas, paraplégicas, com síndrome de Down, surdas, com paralisia cerebral etc. Para mim, as chamadas deficiências não existem, sendo apenas atributos dos seres humanos que as têm, da mesma forma que as pessoas são gordas ou magras, altas ou baixas, feias ou bonitas.

Quem me conhece sabe que sou absolutamente contrário a qualquer coisa que configure, material ou imaterialmente, discriminação e segregação de pessoas com as ainda chamadas deficiências. Quando todos acreditavam que a excrescência do Estatuto do Portador de Deficiência dos senadores Paulo Paim e Flávio Arns, o “Estatuto do Coitadinho”, era inevitável, o denunciei pelo simples fato de ser uma proposta de Estatuto e por conter em seu texto armadilhas e traições ao segmento que supostamente beneficiava. Indo mais longe, até fiz com que um advogado paraplégico meu amigo fizesse a leitura dessa baboseira comigo, os dois trancados no escritório durante um carnaval.

Por outro lado, será tão equivocada quanto a aceitação do “Estatuto do Coitadinho” qualquer tentativa de implementar a Educação Inclusiva com canetadas.

Descontando qualquer traço evolucionista, os seres humanos são os mesmos desde sempre, com ou sem as chamadas deficiências. O que mudou foi o conhecimento e o entendimento das condições e possibilidades reais de todas as pessoas, particularmente daquelas com atributos ainda identificados como deficiências. O Imperial Instituto dos Meninos Cegos, o atual Instituto Benjamin Constant, foi criado em 1854 por D. Pedro II, nosso Imperador, que em 1857 apoiou o professor francês Hernest Huet na criação do Imperial Instituto de Surdos Mudos, o INES dos dias de hoje.

Do tempo do Império para cá, no Brasil como no mundo, muita água rolou por baixo da ponte das pessoas com as chamadas deficiências. A motivação do interesse pela questão, que era caridosa ou humanista, passou a ser política e de luta por direitos, o atendimento, que era assistencialista e filantrópico, passou a ser obrigação legal, e a abordagem técnica, que se baseava em parâmetros médicos, passou a se basear em parâmetros de funcionalidade.

Antes da chamada Educação Inclusiva, que começou com uma lei nos EUA em 1975, passou pela Declaração de Salamanca em 1994, existia uma regra e suas exceções, quando o que se conhecia era a “Educação Especial”.

Nesse período, anterior às conquistas consolidadas pela Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, ratificada no Brasil com equivalência de Emenda Constitucional, a regra era de que todas as pessoas com as chamadas deficiências deveriam frequentar escolas especiais. As exceções eram representadas pelos Beethovens e Louis Brailles da vida, todas geniais.

Depois que as conquistas de direitos, os avanços da ciência e os progressos tecnológicos evidenciaram que a maioria das pessoas com as chamadas deficiências tinha potencial para frequentar as escolas regulares, precisando apenas de atendimento a necessidades específicas, arquitetônicas ou tecnológicas, o que era regra passou a ser exceção e o que era exceção passou a ser regra. Os gênios, estes continuam e continuarão a existir, independente de seus atributos físicos, intelectuais ou sensoriais.

Ou seja: nem tanto ao mar e nem tanto à terra, apesar de tudo de bom que foi conquistado, não sendo possível esquecer as atuais exceções, de alto grau de comprometimento, em qualquer discussão sobre implementação da Educação Inclusiva, e sendo rigorosamente impossível eliminar do mapa as chamadas escolas especiais, que ainda têm importante papel a desempenhar no processo de inclusão, particularmente nos rincões brasileiros, que ainda vivem na Idade Média da Inclusão.

Se instituições como o Benjamin Constant e o INES hoje são dinossauros gigantes e burocráticos, cabe a nós atuar para ajustá-los à nova realidade do público que atendem, otimizando o uso das suas grandes estruturas e imprimindo-lhes o dinamismo que a pressa dos nossos dias impõe.

A equação se inverteu, mas permanece sendo de regra e exceção.

Blog ANDREI BASTOS:http://blog.andrei.bastos.nom.br/2009/11/07/regra-e-excecao/
07/11/2009