sábado, 6 de fevereiro de 2010

Os meus desiguais

Todos são meus iguais enquanto seres humanos detentores de direitos e deveres. Todos são meus desiguais enquanto seres humanos únicos e insubstituíveis.

Fábio Adiron




Mesmo os seres humanos mais parecidos entre si ainda serão desiguais



Mais uma vez, durante essa semana, fui confrontado com a tese de que as pessoas precisam conviver com os seus iguais para desenvolver a sua identidade.

Eu não entendo nada de psicologia e de psicanálise. Também não entendo porque esse tema de identificação com os iguais só surge quando se refere a pessoas com deficiência ou com aquelas que são consideradas desviantes da normalidade.

Nunca ouço que os gordos barbados como eu precisam formar um grupo de encontros para que possam exercitar suas identidades. Nem que mulheres morenas de olhos verdes deveriam criar uma associação para garantir os seus direitos.

Se eu preciso ver quem eu sou um espelho não é suficiente? Por que preciso me enxergar em outro? Além do que, nem mesmo entre gêmeos, dito idênticos, existe essa "igualdade" preconizada pelos defensores de grupetes segregados.

E aí eu me pergunto: que, afinal de contas é o meu desigual?

A Marta que é mulher enquanto eu sou homem?

O MAQ ou o Paulo que não enxergam?

A Anahi que precisa de um implante para escutar? Ou será a Flávia que não anda?

Será que meu desigual é o Nathan que é negro? Será o Richard que é homossexual? O filho autista da Valéria?

Na verdade são todos e nenhum deles. Todos são meus iguais enquanto seres humanos detentores de direitos e deveres. Todos são meus desiguais enquanto seres humanos únicos e insubstituíveis.

Mesmo o ser humano mais parecido comigo ainda será meu desigual e é nesse ponto que as pessoas não conseguem compreender o que é, efetivamente, o conceito de diversidade.

Meu diferente é qualquer um e não um grupo específico vítima da exclusão. Meu diferente é você que está me lendo.

Diversidade não é defender os interesses de coletivos de gênero, de etnia, de condição física ou de orientação sexual. Ou entendemos que todos são diversos, ou admitimos que todos são iguais, não existe meio termo (ainda que muita gente acredite que "nós somos iguais e eles diferentes")

Ainda assim, muita gente vai continuar procurando criar guetos de seres supostamente iguais. Vai colocar os filhos em encontros de pessoas com as mesmas deficiências que eles tem, educando-os para acreditarem que são seres de um planeta diferente, que só podem conviver com seus espelhos fenotípicos.

Essa é a identidade que eles vão construir, a identidade que a sociedade quer que eles tenham, a identidade que os rotula e os exclui da convivência com todos os demais seres humanos.



Inclusão : ampla, geral e irrestrita
05/02/2010

Matériapostada no BLOG da APNEN 06/02/2010

Os mesmos culpados

Seja pela nossa formação religiosa ou social, nós fomos criados para identificar culpados, não para resolver questões complicadas.






É necessário parar de apontar os indicadores e partirmos em busca de soluções

Fábio Adiron

Não é a primeira vez que escrevo a respeito de culpas. Segundo a Wikipedia, culpa se refere à responsabilidade dada à pessoa por um ato que provocou prejuízo material, moral ou espiritual a si mesma ou a outrem.

Seja pela nossa formação religiosa ou social, nós fomos criados para identificar culpados, não para resolver questões complicadas. Achar soluções para dificuldades implica em um esforço racional e operacional que ninguém quer ter. Por que se dar ao trabalho de desenvolver e aplicar soluções se é mais fácil atribuir a culpa dos nossos fracassos a outrem?

Essa maneira de encarar a vida está espalhada em todos os âmbitos onde existam seres humanos. Se o orçamento familiar não fecha, a culpa é do marido, da mulher ou do filho adolescente que estoura a conta telefônica. Se a empresa dá prejuízo a culpa é dos clientes que não compram. Se economia não funciona a culpa é do governo que não ajuda.

Na escola isso não é diferente. Se o aluno não aprende, a culpa é dele. Se o aluno for uma pessoa com deficiência ele passa a ser duplamente culpado: por ter a deficiência e por não se esforçar o suficiente para superar as suas limitações.

É bastante comum ouvirmos o discurso que o aluno não tem isso, que ele não consegue aquilo. Jamais ouvi uma escola dizer que ela mesma não teve competência para ensinar alguma coisa a um aluno (com ou sem deficiência), o que ouvimos é que o aluno deve procurar outra escola porque ele (de novo Ele) não se adaptou aos padrões da escola.

Nunca ouvi uma escola admitir que ela tenha dificuldades de ensinagem (não procure no dicionário, essa palavra não existe).

Se o aluno tem alguma deficiência a solução é despachá-lo para alguma entidade filantrópica onde ele possa ser devidamente isolado do mundo e não incomodar ninguém. Se não tem deficiência, recomenda-se aos pais que procurem uma escola que seja menos exigente.

Mas também não adiantaria nada as escolas assumirem a culpa. Isso também seria uma solução cômoda para os alunos e pais. E não resolveria os casos frequentes de exclusão.

O que precisamos é parar de apontar os indicadores e partirmos em busca de soluções. A escola efetivamente assumir sua função educacional e entender que não existe ninguém que não possa aprender. Os pais e alunos se envolverem com os projetos pedagógicos. É preciso caminhar juntos, senão o único prejudicado continuará sendo aquele que deveria ser o objeto da educação: o aluno.

No momento em que conseguirmos nos desvencilhar dos complexos de culpa e das práticas de empurrar responsabilidades para os outros é que escolas e alunos vão ensinar e aprender juntos.
E, quem sabe, desenvolvendo esse modelo de busca de soluções e não de culpados, a sociedade, como um todo, se torne um lugar mais saudável para se viver.



Inclusão : ampla, geral e irrestrita
05/02/2010

Matéria postada no blog da APNEN 06/02;2010

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Ministério da Saúde investe R$ 39,1 milhões em serviços para cegos

Investimentos são para implementar 75 unidades de reabilitação visual em todos os Estados do país.

O Ministério da Saúde vai investir R$ 39,1 milhões até 2011 para implementar 75 unidades de reabilitação visual em todos os Estados do país. O objetivo das unidades é acompanhar a pessoa com deficiência visual para que ela desenvolva habilidades que a auxilie em suas atividades diárias. Segundo a pasta, o acompanhamento especializado permitirá a adaptação delas aos recursos ópticos oferecidos no Sistema Único de Saúde (SUS), como óculos especiais, sistemas telescópicos, lupas, próteses visuais e bengalas.

“O serviço é um avanço na implantação da Política Nacional de Saúde para Pessoa com Deficiência. Nele será oferecido o atendimento necessário para que a pessoa com baixa visão ou cegueira desenvolva suas potencialidades e enfrente com maior autonomia as dificuldades no seu dia a dia”, afirma Érika Pisaneschi, coordenadora da Área Técnica de Saúde da Pessoa com Deficiência do ministério.


Abril
04/02/2010

Matéria postada no blog da APNEN 05/02/2010

Cientista dos EUA vai tratar diabetes com técnica do HC

Tratamento bem-sucedido por células-tronco é exportado para universidade de Chicago.

Uma das mais importantes universidades americanas, a Northwestern University, de Chicago, será sede de uma pesquisa de transplante de célula-tronco para o tratamento do diabetes tipo 1. A técnica foi desenvolvida por cientistas do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto.

A pesquisa para o controle do diabetes tipo 1 sem necessidade de uso de aplicações de insulina foi iniciada em novembro de 2003. O primeiro transplante foi realizado em 2004 e, desde então, 24 pacientes já se submeteram ao procedimento. Destes, 21 ficaram livres de insulina em algum momento.

"Com a criação desse centro em Chicago, pretendemos aumentar o número de pacientes que vão passar pelo transplante, nos Estados Unidos e da Europa. Além disso, com essa expansão, teremos mais verba para investir nas pesquisas", afirmou Carlos Eduardo Barra Couri, endocrinologista da equipe de transplante de células-tronco do HC de Ribeirão.

No início de janeiro, a pesquisa também foi aprovada pelo FDA (Food and Drug Administration), órgão americano responsável por avaliar segurança e importância de estudos clínicos relevantes.

"Com essa aprovação, a pesquisa passou a ter uma credibilidade ainda mais alta como referência em tratamento de diabete tipo 1".


Hélia Araujo
A cidade
04/02/2010
Matéria postada no blog da APNEN 05/02/2010

Sem melhora, jovem fala em voltar

Capixaba recebeu três aplicações de células-tronco e resultados foram mínimos; mesmo assim, acha que valeu a pena.

A esperança gerada pelas células-tronco - e pela angústia de estar preso a uma cadeira de rodas - é tão grande que mesmo pacientes que não melhoraram querem voltar à China para receber novas injeções.

O jovem capixaba Felipe Ramos, vítima de um acidente de carro que o deixou paraplégico em 2007, foi para lá em agosto do ano passado. Pagou US$ 20 mil, mais as passagens, para passar 29 dias em um hospital e receber três aplicações de células-tronco na espinha. "Não me prometeram nada", diz. "Eles deixam muito claro que o tratamento pode dar resultado ou não. Até fazem você assinar um papel sobre isso."

Os médicos chineses disseram que ele sentiria resultados no prazo de três a quatro meses. Passado esse tempo, Ramos não sabe se mudou alguma coisa. Diz que voltou a transpirar na cabeça e nos pés e sente que seu equilíbrio melhorou um pouco. "Fico meio duvidoso de falar que recuperei algo que não teria recuperado do mesmo jeito, só com a fisioterapia", afirma. "Se não tiver resultado em um ano, disseram para eu voltar lá para uma nova aplicação, por um preço menor."

Ainda assim, Ramos acha que o esforço valeu a pena. "Se não tivesse ido eu nunca saberia", diz. "Se tivesse que voltar hoje, eu voltaria."

A engenheira Sandra Suely Corrêa também pretende levar o filho Joaquim, de 2 anos, de volta para a China. A primeira viagem foi em outubro e custou R$ 60 mil. Vítima de paralisia cerebral, causada por uma asfixia durante o parto, Joaquim recebeu aplicações de células-tronco na veia e na medula espinhal - seis injeções ao todo.

Sandra diz que o equilíbrio do filho melhorou um pouco, mas que ele ainda não tem controle de cabeça nem de tronco. A parte cognitiva parece ter melhorado um pouco também. "Antes você falava com ele e ele não olhava. Agora olha." Amigos e vizinhos do prédio onde moram, no Rio, comentam que Joaquim parece melhor, mais feliz e menos irritado.

"Acredito que é um efeito do tratamento", diz Sandra. Tanto que ela quer voltar à China já em maio. "Não quero esperar dez anos para que a terapia seja validada pela medicina. Quero que o Joaquim fique bom agora. Quero que ele brinque hoje, que vá para a escola hoje."


Dúvidas e críticas

"Essas pessoas estão sendo 100% enganadas", diz o médico e secretário de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde, Reinaldo Guimarães. Segundo ele, essas terapias não podem ser oferecidas no Brasil porque não há provas de que sejam eficientes ou seguras. Para isso, diz, ainda é preciso fazer muitos experimentos controlados em animais e seres humanos. "Não há dúvida de que as células-tronco têm grande potencial, mas o caminho para uma terapia é longo."

O médico Júlio Voltarelli, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, que pesquisa o potencial terapêutico das células-tronco, também condena as práticas chinesas. "Acredito, sim, que doenças como a esclerose lateral amiotrófica poderão um dia ser curadas com células-tronco, mas é algo que precisa ser testado", diz. "Não se pode vender isso como uma técnica comprovada."

"Nós temos todas essas células aqui. Se achássemos que elas pudessem ajudar, seríamos os primeiros a oferecer o tratamento", afirma Mayana Zatz, do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP.

Até associações de pacientes duvidam dos resultados. Naelson Ferreira, presidente do Centro de Referência em Distúrbios do Movimento, organização que presta assistência a mais de 700 famílias com doenças degenerativas em Campo Grande (MS), acha que os efeitos relatados por pacientes na China não têm nada a ver com células-tronco. "Nós chegamos aos mesmos resultados só com terapia convencional", diz. "Acho que tem um efeito psicológico muito forte nisso. Já vi pessoas pobres no centro que voltaram a andar sem tomar nada, só por sentir que finalmente iriam receber um tratamento de verdade."

Herton Escobar
O Estado de São Paulo
04/02/2010

Matéria postada no blog da APNEN 05/02/2010

Novas cédulas do Real começam a circular até junho

Desde seu lançamento, em julho de 1994, a moeda Real permaneceu praticamente inalterada por 15 anos. Porém, para atender a uma demanda dos deficientes visuais e garantir a segurança do dinheiro nacional, o Banco Central lançou nesta quarta-feira (3) a Segunda Família de Cédulas do Real. Com marcas táteis em relevo e tamanhos diferenciados, as notas irão ajudar as pessoas que enfrentam dificuldade em utilizar a moeda nacional. E devido à popularidade de tecnologias digitais de impressão a modificação também irá colaborar com a segurança contra falsificações. Isso acontecerá devido aos recursos gráficos mais sofisticados que foram utilizados no projeto.

As primeiras novas cédulas – R$ 100 e R$ 50 – entram em circulação ainda no primeiro semestre de 2010 para substituir as notas atuais desgastadas naturalmente. No primeiro semestre de 2011, serão lançadas mais duas denominações – R$ 20 e R$ 10 –, e o restante da nova família deve circular até 2012.

A Segunda Família vem sendo desenvolvida, pelo Banco Central em conjunto com a responsável pela produção do dinheiro - Casa da Moeda do Brasil (CMB), desde 2003. Para produzir as novas cédulas a empresa adquiriu equipamentos de última geração na área de impressão de segurança. As novas máquinas estão em processo de instalação e testes, devendo estar prontas para a produção ainda durante o primeiro semestre de 2010. Com as aquisições, a CMB se iguala às empresas mais modernas do mundo no ramo da impressão de segurança. E, como já ocorreu no passado, se torna apta a oferecer seus serviços a outros países.

A temática da atual cédula – efígie da República de um lado e animais da fauna brasileira no outro – será mantida, porém os elementos gráficos foram redesenhados, agregando segurança e colaborando na verificação da autenticidade pela população. A nova família vai manter a diferenciação por cores predominantes, aspecto que facilita a rápida identificação dos valores nas transações cotidianas, inclusive por pessoas com problemas de visão.


http://www.brasil.gov.br/noticias/em_questao/.questao/EQ978a
04/02/2010
Matéria postada no blog da APNEN 05/02/2010

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Um mundo inacessível

Artigo de Adriano Garcia sobre os problemas de acessibilidade do Brasil.

O tema Acessibilidade tem sido a tônica do momento. Por muitos e muitos anos a Pessoa com Deficiência esteve à margem da sociedade, seja pelo preconceito ou por uma simples e ignorante falta de conhecimento do assunto. A Constituição através de leis extremamente pertinentes e de sensibilidade única, tenta, porém, sem muito efeito, incluir a Pessoa com Deficiência no seio da sociedade tida como “normal”, mas, leis escritas em papel sem alguém ou alguns que as façam serem cumpridas, acabam se tornando obsoletas, esquecidas, desrespeitadas, enfim, sem valor algum.

Mas as leis não passam de uma imposição, eu diria até, de uma simplória forma dos legisladores se sentirem politicamente corretos e, até mesmo, de se sentirem menos culpados pela desigualdade criada ao longo da existência da humanidade.

É fato que, qualquer pessoa que se apresenta com alguma deficiência ou deformidade anatômica, seja ela, adquirida ou congênita, é o suficiente para que seja submetida aos olhares e pré-julgamentos preconceituosos de um outro ser humano que se acha “normal”. Infelizmente, a vida nos proporciona situações inusitadas e imprevisíveis, de maneiras totalmente adversas ao conceito de normalidade.

Esse “vazio” cultural, impregnado na história da humanidade, não será mudado através de imposições escritas (leis) ou até mesmo, sob forças impostas pela compaixão para com as “diferenças”. É certo que, temos que lutar sempre pela igualdade de condições, pelo respeito como cidadão, por oportunidades de trabalho, enfim, pela tão sonhada e quase utópica Acessibilidade.

Como é cultural essa polêmica, a Acessibilidade e a Inclusão Social, também terão seu tempo para se readaptarem e, não será na pura imposição do politicamente correto. Nossa luta terá que ser baseada única e exclusivamente na conscientização do ser humano, em especial, da própria Pessoa com Deficiência.

Não basta exigirmos os “nossos direitos”, temos que mostrar e provar à sociedade que nós temos e somos capazes de tudo, a superação plena é a melhor forma de provarmos esta tese. Para tanto, precisamos quebrar o preconceito da própria Pessoa com Deficiência e de seus familiares, pois, o preconceito inconsciente e despercebido se inicia dentro de casa.

A cultura aqui citada, o preconceito, a ignorância, a hipocrisia e a demagogia da sociedade em sua grande parte não me surpreende, mas, o que me deixa mais indignado, é a falta de respeito. Esta é a palavra chave para nós Pessoas com Deficiência, RESPEITO.

O Poder Público nos desrespeita com o descaso, com a ineficiência nos atendimentos nos Postos de Saúde, com o desrespeito do direito de ir e vir, com a falta de planejamento de políticas públicas na melhoria à acessibilidade, inclusão social e profissional.

Mas a falta de respeito que mais incomoda, é a praticada covardemente contra as Pessoas com Deficiência, que é a política da necessidade, tão sórdidamente usada pelo comércio. Pois, ser deficiente ou ter alguma deficiência é sinônimo de necessidade de diversos itens essenciais à nossa sobrevivência, e, que são oferecidos e explorados pelo mercado, este que ao meu ver, é desleal, desrespeitoso e covardemente abusivo.

Exemplos: Vejam só, uma bicicleta moderna, com quadro de alumínio, 10 marchas, e, outros detalhes mais, tem o preço no mercado em torno de R$ 600,00 a R$ 2.000,00, pois bem, uma cadeira de rodas, com quadro de alumínio, duas rodas com pneus semelhantes ao das bicicletas, duas rodinhas rígidas, um assento de lonita ou outro tecido qualquer, chegam a custar ao cliente o equivalente a R$ 2.500,00.

Um determinado automóvel que na concessionária custa ao cliente “normal” R$ 60.000,00. Ao “deficiente” que necessita de determinada adaptação, chega a custar até R$ 84.000,00.

Ah, mas o governo concede isenção de IPI, ICMS, etc., bom, vamos esclarecer tais concessões esdrúxulas: IPI é o único concedido à qualquer Pessoa com Deficiência, dependendo do valor e das cilindradas do veículo, isso por si só já caracteriza uma forma de preconceito. ICMS só é concedido às Pessoas com Deficiência que dirijam, ou seja, o Deficiente Visual, o Tetraplégico sem condições de dirigir, ou até mesmo ao que opta por não voltar a dirigir, não tem direito à isenção do ICMS, ou seja, a nossa legislação, também é preconceituosa!

Então nossas leis já não são mais tão pertinentes e sensíveis, como dito anteriormente. Complicado esse negócio de preconceito, não acham?

Para quem tem um automóvel e precisa de uma rampa manual, acreditem, chega a custar R$ 13.000,00. Se optar por uma rampa hidráulica e elétrica, pasmem, custa em torno de R$ 22.000,00.

Eu encontrei um mecânico disposto e de boa capacidade inventiva que concordou em fazer uma rampa em meu carro, igual e com os mesmos materiais da rampa manual anteriormente citada, com material e mão-de-obra, custou R$ 1.700,00. Isso não é incrível?

Aqui em Campo Grande – MS, duas lojas de referência em consertos e vendas cadeiras de rodas, não tem acessibilidade, isso mesmo, existem degraus na entrada das lojas, que nome se dá a isto? Desrespeito!

Exceções á parte, não temos calçadas acessíveis, não temos locais apropriados nos cinemas, teatros, locais públicos, etc. Nos restaurantes, bares e demais, às vezes, tem uma rampa, mas, as mesas não tem altura e largura para receber um cadeirante, e, nossas leis são claras nestes casos, mas, onde está o Poder Público? Onde estamos nós? Cobramos?

Portanto, cabe a nós, Pessoas com Deficiência, nos dar ao respeito, para então, cobrarmos com veemência, com propriedade, com dignidade, e, exigir das autoridades para que façam sua parte, devemos mostrar à sociedade com atitudes, exemplos e superação que merecemos o respeito e a conscientização de todos.

Para isso, precisamos nos conscientizar e aprender a nos respeitar, para então, conquistar o respeito da sociedade esclarecida.

A falta de respeito é o que nos leva à um mundo inacessível.


Adriano Garcia
Fátima News
03/02/2010

Matéria postada no blog da APNEN 04/02/2010

MPF cobra facilidade para inscrição de pessoas com deficiência em concursos

MPF diz que não há razão para a Esaf exigir que os documentos que comprovam a deficiência do candidato sejam enviados por Sedex.

O MPF-DF (Ministério Público Federal no Distrito Federal) enviou recomendação à Esaf (Escola de Administração Fazendária) cobrando a simplificação do procedimento exigido pela banca para envio de documentos que comprovam a deficiência de candidatos inscritos em seleções públicas.

O entendimento é o de que a participação de pessoas com deficiência em concursos públicos deve ser viabilizada e é obrigação de todos, inclusive das bancas examinadoras responsáveis pelas seleções.

De acordo com a recomendação, assinada pela procuradora regional dos Direitos do Cidadão no DF, Luciana Loureiro, não há razão para a Esaf exigir que os documentos sejam enviados por Sedex, como verificado em editais recentes. Segundo o MPF, a banca deve permitir que laudos, exames ou atestados destinados a comprovar a deficiência de candidatos sejam enviados pelo formulário de AR (Aviso de Recebimento), serviço mais barato e considerado tão seguro quanto o Sedex.

A procuradora argumenta que os candidatos com deficiência não podem ser penalizados com exigências desnecessárias e desproporcionais. Ao contrário, "deveriam ter facilitadas as condições de participação no certame". A Esaf tem prazo de dez dias para informar ao Ministério Público se tomará as providências indicadas.

Segundo explica a Procuradoria, a recomendação é um instrumento de atuação extrajudicial do Ministério Público, utilizado para alertar órgãos e entidades acerca de eventuais irregularidades cometidas, dando-lhes oportunidade para rever, por conta própria, as ilegalidades apontadas. Caso as medidas sugeridas não sejam acatadas, o MPF avaliará as medidas judiciais cabíveis.


Última Instância
Distrito Federal, 03/02/2010

Matéria postada no blog da APNEN 04/02/2010

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Pessoas com Deficiência: Uma Área Carente de Pesquisa de Campo

Artigo de autoria de Emílio Figueira critica a falta de pesquisas de campo com essa temática.

Se eu quisesse escrever algo como "O que são pessoas com deficiência?", certamente isso daria vários artigos descrevendo cada tipo, suas causas, incidências, graus, enfim. Hoje no Brasil, graças a Deus, temos centenas de livros e outras publicações que falam sobre isto. Todavia, traçando um rápido perfil de quem são as consideradas pessoas com deficiência, essas descrições são regulamentadas pelo Decreto 5296 de 2 de dezembro de 2004 que regulamenta as Leis n° 10.048, de 8 de novembro de 2000, que dá prioridade de atendimento às pessoas que especifica, e nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade. No Capítulo II - Do Atendimento Prioritário - Art. 5º, § 1o, considera-se, para os efeitos desse Decreto, pessoa portadora de deficiência, a que possui limitação ou incapacidade para o desempenho de atividade e se enquadra nas seguintes categorias:

- Deficiência física: Alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano, acarretando o comprometimento da função física, apresentando-se sob a forma de paraplegia, paraparesia, monoplegia, monoparesia, tetraplegia, tetraparesia, triplegia, triparesia, hemiplegia, hemiparesia, ostomia, amputação ou ausência de membro, paralisia cerebral, nanismo, membros com deformidade congênita ou adquirida, exceto as deformidades estéticas e as que não produzam dificuldades para o desempenho de funções.

- Deficiência auditiva: Perda bilateral, parcial ou total, de quarenta e um decibéis (dB) ou mais, aferida por audiograma nas frequências de 500HZ, 1.000HZ, 2.000HZ e 3.000HZ.

- Deficiência visual: Cegueira, na qual a acuidade visual é igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; a baixa visão, que significa acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; os casos nos quais a somatória da medida do campo visual em ambos os olhos for igual ou menor que 60o; ou a ocorrência simultânea de quaisquer das condições anteriores.

- Deficiência mental: Funcionamento intelectual significativamente inferior à média, com manifestação antes dos dezoito anos e limitações associadas a duas ou mais áreas de habilidades adaptativas, tais como: comunicação, cuidado pessoal, habilidades sociais, utilização dos recursos da comunidade, saúde e segurança, habilidades acadêmicas, lazer e trabalho.

- Deficiência múltipla - Associação de duas ou mais deficiências.

- Pessoa com mobilidade reduzida, aquela que, não se enquadrando no conceito de pessoa portadora de deficiência, tenha, por qualquer motivo, dificuldade de movimentar-se, permanente ou temporariamente, gerando redução efetiva da mobilidade, flexibilidade, coordenação motora e percepção.

Mas uma coisa sempre me preocupa. Sempre que alguém é solicitado a fazer pesquisa nesta área, sua primeira iniciativa é consultar os sites de publicações científicas, principalmente o Scielo, por ser mais confiável. Ao digitar o tema relacionado com seu projeto, pessoas com deficiência, realmente surgirão inúmeros títulos. Porém, uma decepção: não há quase nenhum relato de pesquisa de campo com essa temática.

Parto daqui para minha reflexão. Já há vários anos tenho lido livros e artigos nessa área. É interessante notar que os conteúdos, conceitos são quase os mesmos. Estou seguro em afirmar que esses textos em português são, geralmente, a cópia da cópia da cópia. E, até os mesmos exemplos, são reproduzidos livremente. Para quem tem certa familiaridade com essas produções, ao ler alguns já se sabe de onde o autor tirou - para não dizer colou - tais informações.

O que isto nos denuncia? Que a literatura científica brasileira referente às questões das pessoas com deficiência sempre foi constituída de artigos de revisão. Ou pelo menos, que quem esteja produzindo pesquisas não está publicando ou colocando novos conhecimentos disponíveis à comunidade científica. Ainda mais em uma área que carente de definições, novos planejamentos e diretrizes.

Talvez esse fato comece a mudar com a Iniciação Científica, estimulando pesquisas de campo, dando origem a monografias, artigos e comunicações científicas, novos e aprofundados estudos e inéditos conceitos alcançados. Que alunos sejam estimulados não apenas na esfera teórica de descobertas lógicas ou de simples experimentação laboratorial. Que o ato de estar desenvolvendo uma pesquisa não vise mudar toda uma realidade, mas, sim, melhores condições de vida daqueles que estejam ao seu alcance. Seja essa pesquisa em nível particular, tecnológica ou universitária.

No Programa de Ação Mundial para as Pessoas com Deficiências (ONU, 1992), o seu parágrafo 184 me diz: "visto que pouco se sabe a respeito do lugar que cabe às pessoas portadoras de deficiência nas diferentes culturas, fato esse que, por sua vez, determina certas atitudes e normas de conduta, é necessário iniciar estudos sobre os aspectos socioculturais vinculadas às deficiências. Isso permitirá compreender melhor as relações entre as pessoas portadoras de deficiência e as não portadoras, nas diversas culturas (...)".

Destaca-se outro parágrafo do mesmo documento: "187 - É necessário também estimular a pesquisa com vistas ao desenvolvimento de melhores equipamentos para as pessoas portadoras de deficiência. Devem-se dedicar esforços especiais para encontrar soluções que sejam apropriadas às condições tecnológicas e ciência, do que mediante um censo geral da população".

Tornando a realização dessas pesquisas propostas pelo Documento, certamente surgirão conhecimentos muito interessantes e inéditos e, finalmente, novas pesquisas de campo, como a de avaliar melhor a política de Inclusão que se está praticando no Brasil. Estaremos produzindo algo novo, derrubando velhos e explorados conceitos e, sobretudo, buscando uma melhor qualidade de vida para as pessoas, ampliando a produção e democratizando a discussão de tantos outros escritos científicos.

Assim, quem sabe, num futuro próximo, quando formos ao Scielo procurar um trabalho com relato de pesquisa realizada sobre temáticas relacionadas às pessoas com deficiência, poderemos ficar em dúvida qual escolher!


Emílio Figueira*

Planeta Educação
02/02/2010


*Emilio Figueira é jornalista, psicólogo, pós-graduado em Educação Inclusiva e doutorado em Psicanálise. Autor de mais de quarenta artigos científicos nesta área e de vinte livros, dentre os quais destaca-se "Caminhando em Silêncio - Uma introdução à trajetória da pessoa com deficiência na história do Brasil".

Matéria postada no blog da APNEN 03/02/2010

Senhores radiodifusores, senhor Ministro das Comunicações: e no Brasil, também vai ser assim?

ACAPO presente em mais uma reunião de acompanhamento do Plano Plurianual que visa tornar mais acessíveis as emissões televisivas.

No passado dia 14 de Janeiro, a ACAPO (Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal) esteve presente na segunda reunião do grupo de acompanhamento do Plano Plurianual que fixa obrigações em matéria de acessibilidade às emissões televisivas por parte dos cidadãos com necessidades especiais, reunião esta que teve lugar na Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC).

Os operadores televisivos privados SIC e TVI interpuseram uma providência cautelar para dar sem efeito o Plano Plurianual por entenderem que o mesmo "foi longe demais", sendo que, pelo menos até 8 de Fevereiro e a título provisório, lograram alcançar o seu intento. Nesse contexto, o representante da TVI presente (a SIC não compareceu, mas alegadamente fez-se representar pelo elemento designado pela TVI) informou que estava ali presente na posição que designou de observador, recusando-se a abordar aspectos concretos do Plano Plurianual.

Estes canais têm vindo a demonstrar total desinteresse, muito concretamente, pelas obrigações de locução em língua portuguesa dos discursos em idioma estrangeiro e de audiodescrição, de fulcral importância para o acompanhamento das emissões televisivas por parte das pessoas cegas ou com baixa visão. Por outro lado, Verificando a ACAPO que não se está a controlar o cumprimento da obrigação relativa à locução em língua portuguesa dos excertos em língua estrangeira nos serviços noticiosos, ao contrário do que se está a fazer com obrigações relativas à audiodescrição, legendagem e interpretação gestual para pessoas surdas, solicitou à ERC que fosse igualmente controlado e monitorizado o cumprimento daquela obrigação quando esta for exigível, já que esta, aliás como acontece com a obrigação relativa à audiodescrição, não se encontra a ser cumprida pelos canais televisivos.

Na próxima reunião, já agendada para o próximo dia 4 de Março, serão abordados aspectos mais técnicos ligados às obrigações de acessibilidade em causa, procurando-se também fazer perceber os diferentes interlocutores dos operadores televisivos no que consiste, por exemplo, a audiodescrição.


Blog da Audiodescrição
02/02/2010

Matéria postada no Blog da APNEN 03/02/2010

MPF/SP pede à Justiça que Denatran cumpra ordem judicial e edite norma sobre deficientes

Órgão responsável por editar norma para que pessoas com deficiência possam dirigir profissionalmente não cumpriu decisão liminar de 2007 até hoje.

O Ministério Público Federal em São Paulo, em petição remetida ao juiz federal da 10º Vara Federal de SP, pede que a liminar que foi concedida em 4 de dezembro de 2007, que ordenava ao Conselho Nacional de Trânsito (Contran) a edição de uma norma para regulamentar as adaptações necessárias em veículos de categorias profissionais para que pessoas com deficiência pudessem dirigir profissionalmente, intime pessoalmente diretores e servidores responsáveis pela edição da norma para que cumpram, em 15 dias, o ordenado na liminar.

Em 4 de dezembro de 2007, o juiz da 10ª Vara Federal Cível de São Paulo, Rogério Volpatti Polezze, ordenou liminarmente que o Conselho Nacional de Trânsito (Contran), em 30 dias, publicasse uma nova resolução para regulamentar as adaptações a serem feitas em veículos de categorias profissionais (categorias "C", "D" e "E", da Carteira Nacional de Habilitação), para possibilitar o efetivo exercício da profissão de motorista por pessoas com deficiência que necessitassem de veículos adaptados, mediante análise concreta de suas limitações. À época a União foi intimada pessoalmente da decisão.

Assim, no pedido enviado à Justiça Federal, o MPF requereu a intimação pessoal dos dirigentes do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), dentre eles o seu Diretor que também é Presidente do Contran, Alfredo Peres da Silva, para que cumpram imediatamente o decidido na liminar de 2007, no prazo de 15 dias, sob pena de multa diária de 1/30 do salário de cada um deles, em caso de descumprimento, a não ser que, em caso de absoluta impossibilidade de cumprimento, fundamentem os motivos também em 15 dias.

O MPF tomou conhecimento do atraso quando a Advocacia Geral da União, se manifestou na ação e anexou documento do Departamento Nacional de Trânsito, Nota Técnica nº 51/2009/CGIT/DENATRAN, de 9 de dezembro de 2009, que informava que iria iniciar o processo para alteração da norma CONTRAN nº 319, para adaptá-la à ordem judicial.

No caso de eventual insistência no descumprimento da ordem judicial ou omissão no seu cumprimento, o MPF avaliará inclusive a possibilidade de responsabilização criminal dos agentes públicos com atribuição para implementar a decisão da Justiça Federal.

Leia

A decisão liminar da ACP 2007.61.00.031449-0

A nota técnica do Denatran

O requerimento do MPF



Procuradoria Geral da República
02/02/2010

Matéria postada no Blog da APNEN 03/02/2010

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Brasileiros vão à China buscar terapia polêmica

Não há prova científica de que injeção de célula-tronco funcione, mas paciente relata melhora do quadro clínico.

"Você não tem nenhuma pessoa com deficiência na família, tem?" Essa é a primeira pergunta que o recifense Carlos Edmar Pereira faz à reportagem do Estado antes de concordar em dar entrevista. Ele não quer mais ser criticado pela decisão que tomou cerca de um ano atrás, de levar sua filha numa viagem de 27 horas de avião para receber injeções de células-tronco na China.

A pequena Clara, de 2 anos, é portadora de paralisia cerebral. Até antes da viagem, ela não tinha força muscular, não conseguia engolir comidas sólidas e tinha dificuldade até para beber água. Agora, após o tratamento, fica sentada sozinha, mantém a cabeça em pé e come tudo que colocarem no prato.

Pereira atribui a melhora ao efeito terapêutico das células-tronco. Mas os cientistas duvidam. Trata-se de um caso emblemático. Contrariando todas as recomendações de médicos e pesquisadores acadêmicos, cada vez mais pacientes brasileiros viajam para a China e outros países distantes em busca de tratamentos para doenças terminais e debilitantes que a medicina "ocidental" ainda não é capaz de curar.

Pagam milhares de dólares para receber injeções de células-tronco na veia, na medula espinhal ou até no cérebro, apesar de não haver nenhuma prova científica de que isso possa ter efeito clínico verdadeiro.

O país tradicionalmente conhecido por suas ervas medicinais e acupuntura virou uma Meca extraoficial da biotecnologia e da terapia celular. O prontuário de doenças e condições tratadas é surpreendentemente extenso: paralisia cerebral, esclerose múltipla, esclerose lateral amiotrófica, Parkinson, Alzheimer, isquemias, distrofias musculares, lesões medulares (paraplegia e tetraplegia), acidente vascular cerebral, hipoplasia do nervo ótico, diabete, pé diabético, epilepsia e até autismo. Motivo de esperança para os pacientes e de ceticismo para os cientistas.

Os sites das clínicas e hospitais que oferecem as células - são mais de 200 na China, segundo um levantamento recente feito por uma equipe canadense - são enfeitados com dezenas de relatos de pacientes que se dizem satisfeitos com a terapia. Muitos relatam melhoras sutis: um pouco mais de percepção nas pernas, um pouco mais de movimento nos dedos, um pouco mais de força no pescoço ou uma simples sensação de bem-estar. Mas há casos aparentemente espetaculares, como o de Clara, que deixam os cientistas ao mesmo tempo curiosos e desconfiados.

Pereira conta que sua filha melhorou do dia para a noite. "Depois da segunda injeção de células-tronco, tentamos dar um pouco de arroz e ela comeu. Foi uma surpresa. Aí demos um franguinho desfiado e ela também comeu. Agora já come de tudo: arroz, feijão, cuscuz, carne, macarrão." O tratamento foi em abril de 2009. Antes disso, a comida precisava ser toda triturada num liquidificador, porque Clara não tinha força nem coordenação necessária para mastigar, engolir e respirar ao mesmo tempo.

Na avaliação de pesquisadores consultados pelo Estado, esse tipo de efeito imediato não tem base científica. "É impossível", resume a geneticista Mayana Zatz, da Universidade de São Paulo (USP). "Nenhum tratamento desse tipo surte efeito no dia seguinte. Isso não existe". Segundo ela, seriam necessárias várias semanas ou até meses para que as células pudessem chegar aos tecidos danificados, fixar-se no organismo e - quem sabe - começar a surtir algum efeito.

O material distribuído pelas clínicas chinesas diz que não há garantia de resultados clínicos e que os efeitos terapêuticos das células levam cerca de seis meses para aparecer. Quase todos os relatos na internet, porém, são de pacientes que estão internados ou acabaram de concluir o tratamento. "Posso dizer com certeza que os efeitos levariam meses para aparecer; não dias ou horas", confirma a especialista Joanne Kurtzberg, do Programa de Células-Tronco e Medicina Regenerativa da Universidade Duke, nos Estados Unidos. "Qualquer melhoria imediata que o paciente relate definitivamente não é resultado das células-tronco".

Joanne coordena dois estudos clínicos pediátricos com células-tronco - um deles específico para casos de paralisia cerebral. "Há sinais positivos de que a terapia pode ser benéfica, mas é prematuro dizer que ela funciona", avalia. A pediatra prefere não dar detalhes sobre o procedimento, mas diz que é diferente do que é feito na China. "Usamos somente células autólogas, do sangue de cordão dos próprios pacientes", diz.

Como são poucas as pessoas que têm esse sangue congelado ao nascer, as clínicas chinesas utilizam células de doadores, obtidas de bancos públicos de cordão. Sem um tratamento prévio de imunossupressão (feito com quimioterapia), porém, essas células de doador são destruídas pelo sistema imunológico rapidamente, diz Joanne. "As células morrem em questão de horas. Estão pagando por um tratamento que não trará efeito nenhum."

Os pesquisadores não acusam os pacientes de inventar histórias nem condenam a opção de buscar uma terapia controversa, mas acreditam que a maior parte das melhorias relatadas não seja resultado clínico verdadeiro. Poderia ser efeito placebo passageiro ou de outras terapias oferecidas com as injeções (como fisioterapia), de medicamentos injetados com as células ou reflexo de uma progressão natural do paciente.

Como as clínicas não seguem os protocolos básicos de pesquisa clínica nem publicam seus resultados em revistas científicas reconhecidas, simplesmente não há como saber. As clínicas não têm como provar que seus resultados são verdadeiros, e os críticos não têm como provar que eles são falsos. Fica tudo na boca dos pacientes - cujas experiências estão sujeitas a muitas subjetividades.

"Os relatos dos pacientes têm o seu valor, mas não servem como evidência científica", diz o pesquisador Júlio Voltarelli, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. "Eles não mostram os relatos dos que não tiveram benefício nenhum, que certamente são a maioria. Acho que é picaretagem."

O tratamento de Clara foi feito pela empresa Beike Biotech. Desde que iniciou a campanha para arrecadar doações para a filha, em 2008, Pereira foi procurado por tantas famílias e fez tantos contatos que, ao voltar, foi nomeado "representante de pacientes da Beike para o Brasil e Portugal". Ele diz que é pago para traduzir materiais da empresa do inglês para português, mas não para se relacionar com pacientes. "É um trabalho que faço por prazer, porque já passei por isso e sei o quanto é difícil", diz. "É uma forma de agradecer aos que ajudaram minha filha, ajudando outras famílias a ter o mesmo tratamento."



Estadão
01/02/2010

Matéria Postada no Blog da APNEN 02/02/2010

Os problemas da "cota de deficientes"

Artigo revela as dificuldades de plena execução da lei.

Sem mais pormenores, a Lei 8.213/91, acerca da obrigatoriedade de as empresas contratarem pessoas portadoras de deficiência, da seguinte maneira assevera:

Art. 93. A empresa com 100 (cem) ou mais empregados está obrigada a preencher de 2% (dois por cento) a 5% (cinco por cento) dos seus cargos com beneficiários reabilitados ou pessoas portadoras de deficiência, habilitadas, na seguinte proporção:

I - até 200 empregados.................2%;

II - de 201 a 500.........................3%;

III - de 501 a 1.000......................4%;

IV - de 1.001 em diante.................5%.

§1º. A dispensa de trabalhador reabilitado ou de deficiente habilitado ao final de contrato por prazo determinado de mais de 90 (noventa) dias, e a imotivada, no contrato por prazo indeterminado, só poderá ocorrer após a contratação de substituto de condição semelhante.

§2º. O Ministério do Trabalho e da Previdência Social deverá gerar estatísticas sobre o total de empregados e as vagas preenchidas por reabilitados e deficientes habilitados, fornecendo-as, quando solicitadas, aos sindicatos ou entidades representativas dos empregados.

A lei é clara e taxativa, sendo o critério de inclusão exclusivamente numérico. Se a empresa tem mais de cem empregados, deve ela contratar pessoas portadoras de deficiência na proporção supra mencionada. Contudo, a par do "nobre" intuito legal, a realidade laboral pátria impõe uma série de questionamentos a respeito da referida lei.

O primeiro é o seguinte: por que, mesmo depois de quase vinte anos, muitas pessoas desconhecem tal obrigação? Verdade que apenas "grandes" empresas (já que há necessidade de se ter mais de 100 empregados) possuem a obrigação legal em tê-la. Porém, não se pode negar que a sociedade, via de regra, desconhece-a.

Em segundo lugar, é patente o intuito do Estado de eximir-se de solucionar a problemática da inclusão das pessoas portadoras de deficiência no mercado de trabalho, transferindo esse ônus para a iniciativa privada.

Pauta-se na função social da atividade empresarial. Ou seja, a empresa, que teria a obrigatória participação na construção de uma sociedade (capitalista) mais justa, tem de ajudar pessoas integrantes de minorias socialmente excluídas, como os portadores de deficiência, oferecendo-lhes oportunidade de emprego.

Isso, importa não negar, sempre existiu, já que o Estado, costumeiramente se vendo incapaz de solucionar os problemas sociais, repassa suas obrigações à sociedade.

Ocorre que a questão não é tão simples, mormente quando se fala no assunto em apreço. Em verdade, parece que se olvida que a oferta de vagas, por si só, não soluciona o problema. Há necessidade de se oferecer também efetiva qualificação profissional, para que a inclusão social pretendida seja eficaz.

Muitas empresas hoje, a propósito, encontram grande dificuldade para preencherem as vagas que são por lei obrigadas a oferecer. Normalmente, não há deficientes com qualificação, ainda que em grandes centros, como as principais regiões metropolitanas do país.

***Aliás, muitos deficientes sequer procuram melhor formação para o trabalho.

Assim, ainda que as empresas tenham responsabilidade na solução do problema em tela, esta não lhes cabe de forma exclusiva. Se o Estado e o restante da sociedade não somarem esforços, de nada adiantará a imposição da lei.

Volvendo-se à redação legal, mister apontar mais um questionamento: a injustiça gerada pelo estabelecimento de simples critério numérico para a contração de deficientes.

É que não se levou em conta a atividade econômica desenvolvida pela empresa, circunstância esta de fundamental importância eficácia da medida aqui abordada.

Explica-se: dependendo da atividade desenvolvida pela empresa, a contratação de portadores de deficiência pode restar prejudicada ou mesmo inviabilizada, pois há casos em que as empresas podem não conseguir contratar pessoas portadoras de deficiência.

Veja-se, de forma exemplificativa, o caso das empresas que precisam contratar profissionais extremamente qualificados, como as de vigilância e daquelas que contam com grande número de motoristas para transporte de cargas pesadas, inflamáveis ou perigosas.

Tais funções requerem específica formação para seu exercício, como cursos de formação, habilitação específica, etc.

O aresto abaixo transcrito que, apreciando a peculiaridade do caso das empresas de vigilância na observância da cota em tela, decidiu que os empregados contratados como requisitos para cumprimento de determinada obrigação não devem ser considerados na base de cálculo do referido artigo. Veja-se:

AÇÃO ANULATÓRIA - AUTO DE INFRAÇÃO - INVALIDADE - Considerando as peculiaridades da profissão de vigilante, disciplinada na Lei nº 7.102/83, a qual prevê, entre outros requisitos a aprovação em curso de formação de vigilante e em exame de saúde física, mental e psicotécnico, o cálculo do percentual previsto no art. 93, da Lei nº 8.213/91 para as empresas privadas que exploram serviços de vigilância não deve incluir os empregos para os quais se exija o curso de formação de vigilantes (TRT-RO- RO-437- 2007-018-10-00-1- DJ 17.10.2008). Nessa esteira, afigura-se irregular o auto de infração da fiscalização do trabalho que considerou o percentual legal incidente sobre os 1103 empregados registrados da empresa, e não apenas sobre o efetivo, apartados os cargos de vigilantes. (TRT 10ª R. - RO 00724-2008-001-10-00-0 - 1ª T. - Relª Juíza Maria Regina Machado Guimarães - J. 18.02.2009)

Por derradeiro, tem-se a atuação do Ministério Público do Trabalho, mormente através das Delegacias Regionais do Trabalho que, olvidando-se de todas as questões supra mencionadas, simplesmente impõem às empresas a necessidade de contratação, sob pena de aplicação de exorbitantes multas administrativas.

Como dito anteriormente, a não contratação de pessoas portadoras de deficiência não decorre apenas da vontade empresarial. Em muitas vezes, não há profissionais qualificados; em outras, a atividade da empresa não comporta a contratação.

Destarte, não se pode, tão-somente, exigir o respeito ao artigo 93 da Lei 8.213991, sobretudo quando este se pauta em critério meramente objetivo, numérico. Em verdade, deve a lei, ser interpretada com a consideração das peculiaridades materiais de cada caso concreto, pois, caso contrário, far-se-á injustiça com o intuito de se fazer justiça (contratar pessoas portadoras de deficiência e gerar problemas ao empresariado).


Última Instância
01/02/2010

Matéria postada no Blog da APNEN 02/02/2010

Comentário APNEN: Na colocação onde diz; (Aliás, muitos deficientes sequer procuram melhor formação para o trabalho)....Na nossa opinião, esta falta de ir a procura de uma melhor formação, é devido a falta de uma politica pública, de incentivo as pessoas com deficência, no cumprimento de Leis,(Nosso Brasil, e o País que mais leis tem na defesa das pessoas com deficiência, mais quantas são respeitadas), falta transporte público adaptado, faltam vagas de estacionamento, faltam escolas adaptadas, e principalmente acessibilidade urbana...Não e a pessoa com deficiência que deve se adaptar ao sistema, o sistema é que deve se adaptar as Pessoas com Deficiência.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Foliões apaixonados

Ao contrário do que diz a marchinha, este ano vai ser rigorosamente igual aquele que passou, e a muitos dos que vieram antes. Pelo menos para Ivete e Roberto, seu companheiro, ambos cegos, dos olhos e de amor. Eu os conheci no carnaval de 2007, no Sambódromo, e fui cativado pela beleza e animação do casal que, mesmo em meio a tanta festa e fantasia, se destacava e chamava atenção sem usar nenhum paetê. Seus sorrisos bastavam.

No entanto, meus amigos são triplamente excluídos. Pobres, negros e com deficiência, eles teriam muito do que se queixar não fosse a grande alegria por estarem juntos, e que manifestam a todo instante. Especialmente Ivete, que transborda sua felicidade em tudo o que faz ou diz. Isso não quer dizer, de modo algum, que o jeito Cartola de ser de Roberto, que vai além da semelhança física e chega à própria alma de sambista, abrigue um coração amargurado ou triste.

Aos nove anos, Ivete perdeu a visão de um olho e, aos 37, do outro. Com 63 anos, ela trabalhou como técnica de câmara escura (Raios X) no Hospital Cardoso Fontes e, como professora, se especializou para ensinar pessoas com deficiência visual no Instituto de Educação do Estado do Rio de Janeiro. Não foi aceita em nenhuma escola e, por isso, se dedica a ensinar crianças cegas em sua própria casa.

Cinco anos mais jovem que sua companheira e também técnico de câmara escura, Roberto perdeu a visão num acidente, aos 39 anos, e está casado com Ivete desde 1991. Moradores de Guadalupe, eles vão a todos os dias de desfile, todos os anos, e ficam até o final, invariavelmente acompanhados por Esther, afilhada de Ivete, que não tem o mesmo entusiasmo e sempre dorme fazendo as bolsas de travesseiros, mas sem reclamar – faz questão de deixar claro.

Estes dois foliões apaixonados realmente nos fazem pensar! Pode até ser que a paixão de um pelo outro seja a origem de todo o resto do muito amor pela vida, pelo carnaval, pelo samba, mas isso não diminui o significado da celebração da existência que representam. Ao se colocarem no mundo com seus sorrisos e com sua altivez, diante de preconceitos e discriminação em três realidades simultâneas – pobreza, negritude e deficiência –, Ivete e Roberto nos ensinam a viver, e a vencer.

Toda a riqueza e todas as respostas estão contidas nestas duas pessoas e na generosidade delas. Quem os vê não consegue identificar neles nenhuma marca da maldade ou inconsciência humanas, e esta é sua maior vitória contra o preconceito e a discriminação. Três vezes.

Três vezes precisamos aprender a colocar a inconsciência e a incivilidade nos seus devidos lugares e ignorá-las ou anulá-las com nossa capacidade de amar, principalmente a nós mesmos. Se afirmarmos nosso amor em todas as suas formas, pela nossa companheira ou companheiro, pelo nosso estudo ou trabalho, em nossa sexualidade ou em nossa arte, superaremos a maior de todas as barreiras, a que está em cada um de nós.

É claro que isto se aplica a todas as pessoas e preconceito e discriminação não são padecimentos exclusivos de determinados segmentos. Como cada ser humano é de um jeito, a rigor todos estão incluídos nesta sina, só que uns precisam se afirmar mais do que outros, por serem mais “diferentes”, como é o nosso caso, de foliões apaixonados com deficiência.

ANDREI BASTOS
31/01/2010



Matéria postada no blog da APNEN 01/02/2010