sexta-feira, 29 de junho de 2012

Deficiência e trabalho em casa

por Jairo Marques


O bom de ser contemplado com meus “cinco ou seis” leitores é que sempre tenho novidades de gente que abre caminhos de inclusão, de cidadania e de levar a vida com dignidade em minha caixa postal! 

E hoje para mim é motivo de muita felicidade essa proza porque é de um leitor que me acompanha há muuuuuitos anos, meio quietinho, mas sempre participativo, sempre apoiador, sempre à disposição para se juntar na construção de um mundo melhor.

O Carlão Araújo tá sempre nos encontros do blog. Leva toda a “famiagem”, mas fica meio quietinho numa mesa mandando ver na ‘manguaça’! 


Ele vai explicar um bocadinho “proceis” tudo como é trabalhar em casa!!!!! Pô, isso é uma solução “maraviwonderful” para muita gente com mobilidade reduzida. Bem organizado, o trabalho de um funcionário direto de sua residência é vantajoso tanto para a empresa (que tem menos custos) como para o empregado (isso ele explica direitinho no texto).

Essa modalidade de trabalho ainda é pouquíssimo explorada no Brasil. O texto do Carlão mostra que é uma iniciativa séria, válida e útil. Aí eu pergunto, nem assim, será que o empresariado consegue cumprir a Lei de Cota? #Ficaadica
O Jairão me deu a oportunidade de compartilhar com vocês uma experiência muito legal que aconteceu dentro da empresa que trabalho.

Antes, preciso conto um pouco de como ingressei para a “Matrix”. No diagnóstico médico consta que tive uma encefalite viral, mas, comparando com pessoas com as mesmas características minhas, vejo que posso ter tido um AVC (Acidente Vascular Cerebral).

Nasci e cresci em São Paulo e em fevereiro de 1971 fui para Campina Grande (PB). Uma nova oportunidade de emprego de meu pai. Em 19 de Junho daquele ano, eu com 16 anos, acordei com uma dor violentíssima na cabeça, entrei no banheiro e tranquei a porta.

É a última coisa de que me lembro. Depois me contaram que estive em coma por mais de 30 dias e quando acordei, meio despirocado da cachola, estava de volta à São Paulo, deitado em uma cama de hospital sem poder me mexer ou falar.

Antes de tudo isso acontecer, praticava ginástica olímpica e demais atividades esportivas do colégio. E, naquele momento, tive que me contentar com os monótonos exercícios de fisioterapia, no dia 14 de Outubro daquele mesmo ano já ensaiava novamente a dar os primeiros passos.


As sequelas deste trem todo culminaram em uma hemiparesia dos membros superior e inferior esquerdo. Meio relutante, mas bravamente estimulado por minha mãe e antigos professores, voltei para terminar o antigo colegial e, depois, me formar em Matemática na FMU.

Nesse meio tempo, para aliviar uma “deprê” que batia , pegava minha “Caloi Dez” e ia muito cedo dar umas voltas pela USP. Muita água rolou por baixo da ponte e até um mochilão pras Europa encarei e, em 19 de julho de 1989, comecei a namorar a Rosely, com quem sou casado até hoje, e temos a nossa filha de 16 anos, Carol, que por sinal, em 19 de junho de 2012, publicou um post no Facebook sobre o quão importante sou para sua vida e que me deixou comovidíssimo.

Agora… “senta que lá vem história”!
Sou funcionário da HP e presto serviço para a Unilever, no bairro de Santo Amaro (18 quilômetrosum ponto a outro). Para me locomover utilizava ônibus fretado que pegava próximo de casa.


Uma mudança, já anunciada, fez com que todos que lá trabalhavam fossem deslocados para um de seus sites, localizado em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Estava entre a cruz e a caldeirinha, se fosse trabalhar de carro teria um gasto substancial em meu orçamento e se fosse de transporte público, uma verdadeira maratona olímpica: metrô na linha Verde, baldeação para a linha Azul seguindo até a estação Jabaquara e depois uma caminhada de mais de800 metrospara aguardar o circular da HP.

Estando no novo site, enviei um e-mail para meu gestor explicando a dificuldade encontrada para chegar até lá e, para minha surpresa, após dois dias eles me deram uma opção de poder trabalhar remotamente, em casa. Os mesmos Direitos, Deveres e Benefícios dos funcionários que lá trabalham foram mantidos e, também, disponibilizado um notebook que me permite realizar as mesmas tarefas que fazia anteriormente.

Essa prática já vem sendo adotada por muitas empresas e, se pessoas com limitações físicas na locomoção pudessem acessá-la, teríamos um ganho considerável na qualidade de vida. A empresa, por sua vez, teria um diferencial significativo no processo de inclusão e diversidade.
Em um primeiro momento, trabalhar remotamente nos induz a pensar em algo ruim para o crescimento profissional, uma vez que deixa de existir a convivência corporativa, mas a tecnologia cada vez mais nos fornece ferramentas para que esta interação aconteça.


Como tenho que cumprir o mesmo horário da equipe e para não deixar que a preguiça tome conta, mantive a mesma rotina que fazia para ir de casa ao trabalho, com exceção de um vestuário mais social.

Quanta chuva ou frio já passei esperando por uma condução, quantas vezes cheguei atrasado por causa do trânsito, quantas vezes já me desequilibrei e cai, quantas vezes fui trabalhar indisposto.

Sei que estas desventuras não são somente minhas, mas quem pertence à “Matrix” sabe muito bem que estes pequenos detalhes tornam-se enormes para nós.

Enquanto todas estas adversidades já fazem parte do passado, é importante destacar a necessidade de se ter um ambiente de trabalho adequado e em fazer algum tipo de atividade física, pois trabalhar remotamente também significa não mais se locomover até o trabalho e, para a minha carcaça avariada, é um fator muito importante, e para minimizar esse desgaste, dou belas pedaladas em bicicleta ergométrica aqui de meu condomínio.

Em tempo, quando contei sobre essa possibilidade para minha mãe, ela me pediu o nome do meu gestor para incluí-lo em suas orações diárias.

Fonte:http://assimcomovoce.blogfolha.uol.com.br/2012/06/25/deficiencia-e-trabalho-em-casa/

Construtoras ignoram medidas para acesso de pessoas com deficiência

No Brasil, quase 5,5 milhões de pessoas têm alguma deficiência de locomoção. E, pra elas, encontrar um imóvel pode ser um desafio enorme.

O aposentado José Machado Filho tenta se movimentar no apartamento novo. “Na suíte, não para entrar, não. Nem fazendo várias manobras, não tem como”, destaca.

O imóvel não foi projetado para pessoas com deficiência. “Na varanda, para ir, dá. Na volta é que é complicado porque tem degrau”, conta.
A ideia da família era dar mais conforto para o aposentado. Mas, com tantos obstáculos, já está decidido: eles vão trocar de imóvel.

“A gente não tem como alargar esse espaço para que a cadeira possa passar pra dentro do box para que ele possa tomar banho. É uma coluna de estrutura do prédio, então, não tem como mexer nessa coluna”, afirma Flávia Machado, funcionaria publica.

O grande problema é que a entrada de alguns cômodos é pequena. Até uma pessoa que não usa cadeira de rodas pode ter dificuldade em passar.

Fita métrica na mão, todo dia, a corretora Janeth de Souza sai à procura de imóveis com portas mais largas, uma raridade no mercado.

“Os imóveis novos visam a parte maior, área de lazer ou então a área do terraço, focando dentro do imóvel. Já a parte intima dos apartamentos, eles estão sendo sempre reduzidos”, explica Janeth Maria de Souza, corretora de imóveis.

Depois de morar em muitos endereços, a agente escolar Vera Lúcia Fabrício Silva encontrou em um imóvel o que tanto procurava.

“O espaço que tenho aqui é tudo o que eu precisava”, disse Vera.

Construído pela companhia de habitação de São Paulo, o apartamento tem o tamanho adequado para atender pessoas com deficiência, um direito garantido por leis do estado e do município.

O mercado imobiliário não tem essa obrigação legal. Mesmo assim, o sindicato da habitação quer convencer as construtoras a fazer pelo menos uma parte dos imóveis com medidas maiores.

“Vamos tentar fazer uma conscientização das empresas justamente pela necessidade de que seja atendida essa parcela da população”, ressaltou Cláudio Bernardes, presidente do Sindicato da Habitação.

Surdo e sem identidade, homem busca parentes por meio de rede social no interior de São Paulo

Fabiana Marchezi Do UOL, em Campinas (SP)

Cartaz divulga perfil de surdo sem identidade encontrado há dois anos em Itapetininga (SP)


Um perfil no Facebook e um apelido. Isso é tudo o que possui um homem surdo e sem identidade encontrado às margens da rodovia Raposo Tavares, em Alambari (160 km de São Paulo), há cerca de dois anos. Com o intuito de encontrar a família de “Joca”, apelido do homem, o perfil “Surdo Longe de Casa” foi criado há 50 dias pelo professor de língua brasileira de sinais (Libras) Alexandre Elias dos Santos, de 37 anos. 
Em apenas 17 dias, o perfil atingiu sua marca máxima, 5.000 amigos. “O número atingiu o limite do site”, disse Santos. "Agora, criamos uma fan page (página para que fãs acompanhem o perfil na rede social) com capacidade maior de seguidores", informou.
Santos ensina Libras na Integra, uma instituição filantrópica em Sorocaba (107 km de São Paulo) que oferece o curso gratuitamente para surdos. Ele está engajado em encontrar a família Joca desde quando ele foi encontrado e levado para um abrigo em Itapetininga (177 km de São paulo), onde vive até hoje.
"Quando ele foi encontrado, o pessoal do Serviços de Obras Sociais (S.O.S.) de Itapetininga, para onde foi levado, me ligou para que eu tentasse contato com ele. Logo percebi que o homem não falava, por causa da surdez, e também não dominava a Libras".

ONDE FICA ITAPETININGA

  • Arte UOL
       Itapetininga está a 177 km de São Paulo
A busca por sua família ficou difícil. Sem documentos e sem saber se comunicar, Joca enfrenta dificuldades em todas as áreas da vida. Não consegue trabalho porque não tem registro. Até para conseguir consulta médica enfrenta dificuldades.
O professor conta que toda essa mobilização pela internet já rendeu alguns representantes da causa em pelos menos oito Estados do país. Ele conta que sempre que alguém de outro Estado fica sabendo do caso e procura por ele, logo o professor pede para que a pessoa se torne um representante e abrace a causa.
"Além de São Paulo, tem pessoas divulgando o caso dele no Rio Grande do Norte, Piauí, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Goiás, Bahia e Maranhão. Essas pessoas conheceram a história dele pelo Facebook e estão ajudando a divulgar."
Santos mostra que os colaboradores estão realmente comprometidos com a causa. "Eles não ficam apenas compartilhando no próprio Facebook, também atuam fora da internet, divulgando nas suas cidades, comentando na comunidade e na imprensa local."

"Voz da esperança"

Segundo o professor, a campanha já rendeu dois contatos, apesar de frustrados. O primeiro partiu de uma família de Limeira (150 km de São Paulo), que foi pessoalmente à instituição onde o homem vive e outra de Goianésia (173 km de Goiânia). 
"Os dois casos foram frustrantes. Mas o de Goianésia foi pior. Parece que uma amiga viu no Facebook e avisou a família. Como eles são pessoas mais humildes, da zona rural, a mãe que procura pelo filho surdo foi até um mercadinho no centro da cidade para usar a internet. Foi a primeira vez que ouvi a voz da esperança, mas ainda não foi dessa vez. Foi muito triste."
Apesar das decepções, Santos está confiante na campanha. Ele disse ter duas novas ações em andamento. Uma é colocar cartazes com a foto de Joca em empresas de ônibus. "Queremos fazer cartazes sobre o homem surdo e divulgar nas empresas de transporte. Se a empresa tiver 200 ônibus de turismo, serão 200 cartazes. Assim a história do homem vai estar viajando pelo país."
A segunda ação é uma campanha de arrecadação para o abastecimento dos carros dos voluntários que transportam Joca entre Itapetininga, onde está morando, e Sorocaba, onde ele estuda Libras duas vezes por semana.

Israelenses criam novas linhagens de células-tronco para doenças degenerativas

Jornal do Brasil
                                                         Imagem Internet

Depois de 12 anos de trabalho, especialistas da Hadassah University Medical Center, de Israel, desenvolveram três novas linhagens de células estaminais embrionárias humanas (hESCs), as primeiras no mundo a serem produzidas sem contaminação de qualquer animal - camundongos ou gado - dentro das normas GMP (Good Manufacturing Practices).
De acordo com o professor Bejamin Reubioff, essas novas linhagens permitirão o desenvolvimento de um número infinito de tecidos humanos, capazes de tratar uma ampla gama de doenças degenerativas.
"Ninguém mais conseguiu realizar o que fizemos, porque é muito difícil trazer o know how do laboratório de pesquisa para as condições concretas de implantação no corpo das pessoas", diz Reubioff.
As células-tronco embrionárias podem se diferenciar e amadurecer em qualquer tipo de corpo humano, o que lhes dá o potencial para servir como uma fonte infinita de produção de células regenerativas para transplante em casos de doenças graves e degenerativas, como AMD, diabetes tipo 1, insuficiência cardíaca e mal de Parkinson.    -  Imagem Internet

4º Encontro Internacional de Tecnologia e Inovação para Pessoas com Deficiência

Deficiência & Desenvolvimento Sustentável

Prof.Dra. Linamara Rizzo Battistella


A marca do Encontro Internacional de Tecnologia e Inovação para Pessoas com Deficiência, que este ano chega à sua quarta edição, é a organização, coordenação e realização de atividades voltadas à difusão de Tecnologia Assistiva para a melhoria da qualidade de vida de toda a população.
Composto por Exposição de Inovação em Tecnologias Assistivas e Seminário Internacional de Tecnologia e Inovação para Pessoas com Deficiência, a iniciativa visa influenciar os processos de inovação tecnológica para o fomento da pesquisa, desenvolvimento industrial, fabricação, disponibilização e comercialização de produtos e serviços, contemplando, além das pessoas com deficiência, as necessidades de outros segmentos da sociedade, como o idoso, o obeso e a criança, entre outros.
A Exposição de Inovação tem apoio institucional do FORTEC – Fórum Nacional de Gestores de Inovação e Transferência de Tecnologia, que seleciona e apresenta os melhores projetos de Tecnologia Assistiva desenvolvidos pelas principais universidades e centros de pesquisa do país.
Já, o Seminário Internacional tem, este ano, o objetivo de discutir Deficiência & Desenvolvimento Sustentável, buscando quantificar esse universo, conhecer seus custos, seu papel e seu valor no contexto socioeconômico. Deficiência e envelhecimento; prevenção e reabilitação; mercado de trabalho e poder aquisitivo; Tecnologia Assistiva e inclusão são alguns dos importantes temas a serem abordados.
De acordo com os últimos dados oficiais, aproximadamente um bilhão de pessoas, ou 15% da população mundial, vivem com alguma forma de deficiência. Desse total, estima-se que 80% vivam em países em desenvolvimento.
Portanto, para se pensar em sustentabilidade, em um panorama global, é necessário levar em consideração essa grande parcela da população e as respectivas ações para incluí-las cada vez mais ao processo produtivo, por meio de políticas, ações e programas efetivos que visem dar a ela condições de explorar ao máximo suas potencialidades.
A disseminação dos recursos de Tecnologia Assistiva, assim como ambientes fisicamente acessíveis, atitudes inclusivas e uma legislação apropriada, têm papel fundamental na inclusão da pessoa com deficiência e na construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e sustentável.

                      Secretária de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiênica

Divagando sobre a pólio

Artigo: Adriana Lage comenta sobre a poliomielite, vacinas e tentativas de cura.
por Adriana Lage
                                                                                Imagem Internet
Coincidentemente, estou lendo um livro sobre uma mulher tetraplégica, que teve poliomielite aos oito meses de idade, e pinta telas belíssimas com a boca. Já passei da metade do livro, mas acabo lendo pouco por vez já que as lágrimas são inevitáveis. Nossas histórias possuem vários pontos em comum. Sei lá... Acho que estou vivendo um período estressante. Ando chorona... Ainda pretendo tentar um contato com a Daniela Caburro.


O livro Menina de Arte, escrito por Hebe Rios do Carmo, conta a história de Daniela de uma forma bacana com uma leitura gostosa de ser feita. Assim que tiver exorcizado todos os meus fantasmas, pretendo ler o livro de outra mulher fantástica – a Eliana Zagui. Ela também teve poliomielite e mora, desde que tinha um ano e nove meses, em um hospital em São Paulo. Já li alguns fragmentos do livro e, para variar, me deu vontade de chorar. Trombei, por acaso, com a Eliana na Reatech desse ano. Não sabia que era ela. Só fui saber quando voltei para casa e li a respeito no facebook de uma amiga de Floripa. São duas mulheres admiráveis! Para piorar os fatos, minha psicóloga me deu um “para casa” no qual devo selecionar dez fotos que foram marcantes para mim. Se tem uma coisa que adoro nessa vida, é tirar fotos! O duro é escolhê-las depois. Juntando todos os fatores, ficou impossível não abrir minha caixinha de memórias e me lembrar da doença.


No ano passado, escrevi um texto sobre pólio pós vacinal. Concordo que ele ficou meio indigesto. Denso. Recebi várias críticas, sobretudo de pais. Mas acho complicado baterem no peito e proclamarem aos quatro cantos que a poliomielite foi erradicada do Brasil se, vez ou outra, surgem casos de pólio pós vacinal. A pólio pós vacinal ocorre quando a criança recebe uma das doses da vacina Sabin, sobretudo as primeiras e, ao invés de se proteger da doença, desenvolve uma mutação dela. Eu, a Daniela e outros brasileiros levaremos conosco a dúvida cruel se tivemos ou não uma mutação da doença. Hoje em dia, o diagnóstico é rápido. Por exemplo, no ano passado, um menininho do interior de Minas Gerais contraiu a pólio pós vacinal. Já encontrei casos na internet onde o ‘doente’ ganhou na justiça uma indenização por ter tido a doença.


Na minha época, quando tive a fraqueza muscular, da noite para o dia, sem ter tido febre ou qualquer outro sintoma, os médicos não conseguiram me dar um diagnóstico. Até hoje não tenho um diagnóstico preciso. Mas, como me disse um neurologista, a essa altura da vida, não será uma nomenclatura que mudará minha situação. Se a vacina fosse tão segura assim, a troco de quê, o Ministério da Saúde está substituindo, gradativamente, a Sabin pela Salk? Na Salk, não existe nenhuma possibilidade da criança ser infectada através da vacina, já que são utilizados vírus mortos. Na Sabin, a famosa vacina do Zé Gotinha, mesmo sendo bem pequena a probabilidade, é possível uma infecção. Países desenvolvidos, como Estados Unidos e da Europa, utilizam a Salk há anos. Mas, antes tarde do que nunca!


Uma das coisas mais comuns quando se perde os movimentos de uma hora para outra, é tentar todas as alternativas possíveis para recuperar sua situação anterior. Um dia desses, fiz uma entrevista com um tetraplégico e perguntei a ele se existiam vantagens em ser cadeirante. Ele me disse que ser cadeirante é horrível e que não existe nada de bom nisso. Não sou tão radical quanto ele, mas concordo que poucas seriam as pessoas que optariam por serem cadeirantes.


É engraçado como as pessoas se mobilizam para ajudar a família de quem parou de andar e sempre indicam receitas e tratamentos. Alguns bem exóticos. No livro da Daniela, recomendaram a ela um tratamento onde era preciso matar um boi, arrancar seu estômago e colocar a criança paralisada em seu lugar. Após meia hora, a criança era retirada, enrolada em um plástico e ficava três dias desse jeito. A família da menina repetiu esse tratamento, que era feito num matadouro próximo à São Carlos/SP, por várias vezes, até se convencerem de que ele não trazia benefícios à criança. Eu fiquei me imaginando no lugar dela. Que horror! Sem falar na meleca e no cheiro que deviam ser horrorosos. Achei mórbido e exótico demais isso.


Quando parei de andar, meus pais recorreram à medicina tradicional. Passamos mais de um ano correndo de médico em médico, com direito a consulta com especialista em doenças raras em Sampa (meu pai juntou todas as suas economias para irmos até SP), e sem nenhum diagnóstico preciso. No final da saga, os médicos me disseram que minha lesão medular era irreversível, de causa desconhecida, e que a única solução seria fazer fisioterapia pelo resto da vida de forma a evitar mais atrofias. Minha mãe não se convenceu disso. Sempre que surgia uma possibilidade de cura ou melhora, mesmo que contrariasse toda a lógica e racionalidade vigente, ela corria atrás. Em alguns casos, fez o tratamento para se livrar da insistência de quem havia descoberto a prometida cura. Vamos às tentativas:


Sebo de carneiro
Comecei passando sebo de carneiro nas pernas. Pelo menos, não fiquei dentro de um boi! Passava esse sebo nas pernas, e ficava longe da friagem por três dias. Nada de melhorar. Quando viu que não surtia efeito algum, minha mãe parou com o tratamento.


Óleo de cobra
Tempos depois, arrumaram um óleo de cobra para tentar recuperar o movimento das minhas pernas. Lá se foi minha mãe lambuzar minhas pernas com o tal óleo. Ela guarda de lembrança, até hoje, um cadinho dele na geladeira. Também não resolveu. Na época, eu não tinha a menor idéia do que estava acontecendo...


Benzedeiras
Em Minas, ainda hoje, temos o costume das benzedeiras. Minha mãe conta que me levou em algumas. Minha avó materna mesmo faz isso. Quando me sinto carregada, cansada ou com olho gordo, sempre recorro a ela. Ela me mata do coração quando me diz, por exemplo, que durante a reza, descobriu que a causa vem do meu ambiente de trabalho e me descreve a pessoa com riqueza de detalhes sem nunca tê-la visto em fotos ou pessoalmente.


Visita à União Espírita
Minha madrinha, que se diz católica, mas também mistura espiritismo e candomblé, me levou à União Espírita. Fomos eu, ela e minha irmã mais velha que, na época, devia ter uns cinco anos de idade. Eu não me lembro disso, mas minha madrinha conta que, do nada, uma mulher chegou do meu lado, olhou para mim e caiu desmaiada no chão. Um dos sapatos dela voou no colo da minha irmã que irmã nunca se esqueceu dessa cena. Falou que, logo que vi a mulher, comecei a rezar “Pai Nosso que estais no céu...”.


Ida à Igreja Evangélica
A faxineira do prédio onde morávamos era evangélica e cismou que minha mãe deveria me levar até o pastor. De tanta insistência, minha mãe acabou cedendo e me levando escondida do meu pai. Ela não gostou da experiência e fomos embora.


Anos mais tarde, uma colega de sala da minha irmã caçula a convidou para me levar a outra igreja evangélica. Um pastor carioca, famoso por fazer cadeirante andar, viria do Rio especialmente para atender aos mineiros. Acho que cada um tem sua crença, respeito todas, mas também tenho o direito de escolher a minha. Agradeci pelo convite, mas não fui. A menina ficou revoltada e nunca mais conversou com minha irmã.


Operação Espiritual
Uma tia avó tinha levado um sobrinho até um médium muito famoso, em Abadiânia/GO, na década de 90. Quando levou meu parente para fazer a cirurgia espiritual, retornou levando várias fotos minhas que o médium tinha solicitado. Segundo ela, o médium analisou minhas fotos e disse que eu deveria fazer uma cirurgia espiritual à distância. Minha tia avó marcou a cirurgia e trouxe uma garrafada de raízes para que eu tomasse até o dia da cirurgia. O gosto era horrível. Era um líquido marrom, cheio de pedacinhos de mato e pequenos gravetos.


Fiz essa dieta por um bom tempo. Durante o período da garrafada, eu me lembro que não podia, por exemplo, tomar refrigerantes, comer chocolate, doces, sorvete, ovo frito e outras frituras. Só sei que era um palito de gente e acabei engordando com isso. No dia da operação, eu me preparei conforme as orientações. Eram 20 horas e eu morrendo de medo! Coloquei uma camisola branca, roupa de cama branca, rezei o que pediram, deixei a garrafa com água ao lado da cama... Eu não sabia quem estava com mais medo – eu ou minha mãe?! Acabamos desistindo da cirurgia. Minha mãe desfez tudo, voltou a colorir o quarto... Mas não consegui dormir. Morri de medo a noite toda. Não tinha a menor idéia de como funcionava uma operação espiritual à distância. Já tinha visto na televisão e morria de medo de um médium que sempre aparecia incorporando Dr. Fritz.


Quase cai dura quando o vi retirando um tumor na cabeça. Sempre tive medo dessas coisas sobrenaturais... Acredito em milagres, no poder dessas cirurgias, mas, fui frouxa e não encarei essa oportunidade. Nessa época, ainda não era cadeirante. Tinha menos de 12 anos.


Praia da Areia Preta
Sempre passávamos as férias de dezembro em Guarapari/ES. Lá, existe uma praia, que na minha infância, era famosa por suas areias pretas. Segundo diziam, elas curavam doenças. Pelo sim, pelo não, minha avó materna tratou logo de me enterrar por lá.


Consulta com Pai de Santo
Após a tentativa frustrada da operação espiritual e antes de fazer a cirurgia na coluna que me deixou cadeirante, fui a um pai de santo. Ele era carioca e estava de passagem por Belo Horizonte. Conheceu, por acaso (será acaso mesmo?), meu vizinho na pizzaria em que ele trabalhava. Conversa vai, conversa vem, meu vizinho falou sobre mim. O pai de santo, que tinha outra profissão durante o dia, queria me conhecer.


Na noite seguinte, fui ao apartamento do vizinho. O homem já tinha incorporado o espírito e estava em transe. Eu me lembro que achei aquilo tudo muito estranho. Era um mix de medo com vontade de rir. Ficamos no quarto eu, minha mãe e o pai de santo. No chão, havia uma cesta com búzios, muitos pés de moleque e garrafas de vinho. Ele me pediu para deitar na cama. Não encostou em mim hora nenhuma. Mas não me esqueci da hora em que ele passou um copo de água, que estava sobre a palma de sua mão, pelo meu corpo. Enquanto fazia isso e outras coisas, ele fumava um charuto e ia dizendo coisas. Uma das coisas que nunca me esqueci foi que o homem de branco (médico) faria uma operação na minha coluna que transformaria minha vida. Depois disso, mais interferências ruins do homem de branco no meu caminho. Sai de lá achando tudo tão esquisito.


Acabei me esquecendo disso. Na época, ninguém sabia que teria problema na coluna; muito menos que faria duas cirurgias. Pensei: como ele poderia saber meu futuro dessa forma? Não é que, no ano seguinte, quebrei meu joelho direito. Isso me fez desenvolver uma escoliose que culminou na cirurgia da coluna. Essa por sua vez fez com que eu me tornasse cadeirante após um erro médico. No ano seguinte, fiz uma cirurgia para tentar reparar o erro sem sucesso. Depois que isso tudo aconteceu, eu e minha mãe nos lembramos do pai de santo.


Não quero, de forma alguma, enaltecer ou criticar determinada forma de crença. Acho que cada um tem direito a escolher e seguir sua crença. Felizmente, vivemos em um país onde temos liberdade de escolha. Há espaço para todas as religiões. Nenhuma delas é melhor ou mais verdadeira do que a outra. Se cada um respeitar o espaço do outro, não teremos problemas. Citei essa série de experiências para mostrar que, quando desejamos algo, do fundo do coração, devemos correr atrás de todas as possibilidades. Daniela Caburro tem uma frase que sintetiza bem isso: “Sou uma sonhadora incorrigível; a doença não paralisou meus sonhos”.


Mesmo que as chances de sucesso sejam pequenas, vale a pena a tentativa. O importante é crer e correr atrás daquilo em que acreditamos. Nunca podemos nos esquecer que a principal causa do preconceito é a falta de conhecimento. O saber não ocupa espaço. Portanto, nada me impede de ser devota de Santa Rita de Cássia, consultar o tarô de vez em quando, ouvir algum louvor, me interessar pelo espiritismo... Afinal de contas, uma das características marcantes do nosso país é esse sincretismo religioso.


Fonte:http://saci.org.br/index.php?modulo=akemi&parametro=34717  - Imagem Internet

3º Fórum Internacional Síndrome de Down

O 3º Fórum Internacional Síndrome de Down será realizado pela Fundação Síndrome de Down com o apoio do Ministério da Saúde.


O evento contará com a presença de especialistas nacionais e internacionais, vindos de países como Espanha, Itália e Argentina, para debater diversos temas ligados à pessoa com deficiência, em especial a Síndrome de Down, como o papel da família, educação inclusiva, saúde mental e envelhecimento, além de questões ligadas a acessibilidade, políticas públicas e legislação, incluindo debates sobre a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito das Pessoas com Deficiência.


Este encontro também terá a presença de pessoas com Síndrome de Down relatando suas experiências e desafios, além de pais que falarão de suas vivências e papel fundamental na vida de seus filhos.
Objetivo
Trocar experiências e refletir a respeito do novo paradigma social da pessoa com deficiência intelectual. Distanciar-se da visão médica e aproximar-se do indivíduo que é além da deficiência.
Data
01 a 04 de Agosto de 2012
Local
Auditório do Centro de Convenções da Unicamp Av. Érico Veríssimo, s/n — Unicamp — Barão Geraldo


Clique aqui para abrir o mapa; http://www.fsdown.org.br/forum/mapa.htm


Público alvo
Psicólogos, médicos, educadores, pedagogos, terapeutas, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, pais e familiares de pessoas com deficiência, estudantes e pessoas interessadas no assunto.
Evento acessível
Serão disponibilizados recursos de acessibilidade para pessoas com deficiência visual (audiodescrição), auditiva (LIBRAS) e física.


Saiba mais;  http://www.fsdown.org.br/forum/


Fonte:http://www.inclusive.org.br

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Encontrando palavras para falar sobre deficiência com crianças

William chegou em casa da escola algumas semanas atrás e disse “Mãe”. Ele falou do jeito que ele fala quando tem algo importante para me dizer. E disse de novo: “Mãe. Minha amiga Ashley não ouve bem. E ela grita”.
Por Amy Julia Becker, autora de A Good and Perfect Gift: Faith, Expectations and a Little Girl Named Penny
Tradução Felicia Jennings-Winterle

William tem 3 anos. Ele vai à uma pré-escola pública, e está em uma classe integrada, o que quer dizer, uma turma onde crianças típicas aprendem e brincam com crianças que tem alguma deficiência. Há três anos, a irmã mais velha de William, Penny, estava na mesma classe, mas ela entrou com um programa educacional individualizado (“I.E.P.,” Individualized Education Plan). Penny tem Trisomia 21, também conhecida como síndrome de Down, e este terceiro cromossomo tem influencia quase todos os aspectos do desenvolvimento dela.


Ela usa aparelho ortopédico para dar apoio à seus pés chatos e tornozelos fracos. Quando ela estava na pré-escola, usava a língua de sinais, além da fala para se comunicar. Ela fazia terapia ocupacional, fono e fisioterapia como parte de sua experiência em sala de aula. Mas o fato de eu ter uma filha com deficiência, não quer dizer que eu saiba como falar sobre deficiência com meus filhos.


Quando a Penny nasceu, eu me deparei com um labirinto de palavras que nunca tinham tido importância para mim – anormalidade, deficiência, gravidez de alto risco, aconselhamento genético, necessidades especiais. Isso se tornou mais fácil com o tempo. Eu comecei a usar a linguagem da “pessoa primeiro”, me referindo a minha bebê como, “bebê com síndrome de Down”, ao invés de “bebê Down”. Eu substitui “normal” por “típico ou sem deficiência” quando precisava compará-la a outras crianças. Em minhas gestações seguintes, eu falava sobre a “probabilidade” de ter outra criança com síndrome de Down, ao invés do “risco”.


E com o tempo, as palavras se tornaram mais do que tentativas politicamente corretas para apoiar minha nova identidade de mãe de uma criança com deficiência. Com o tempo, as palavras se tornaram realidade. Eu realmente vi Penny como primeiro uma criança, e a síndrome de Down apenas como parte de sua descrição, um característica secundária. Eu realmente comecei a acreditar que indivíduos com deficiência não são pessoas que merecem pena, ou pessoas que precisam de ajuda, mas pelo contrário, que são seres humanos exatamente como eu. Nossas particularidades são diferentes, mas eu comecei a entender que todos nós temos limitações e pontos vulnerávies que precisam de ajuda, e que todos temos possibilidades para alegrias, relacionamentos e doação.


Fiquei super feliz quando William foi aceito através de sorteio em uma pré-escola integrada. Mas fiquei pensando se eu conseguiria colocar palavras em sua experiência. Pensei se eu seria capaz de ajudá-lo a ver Ashley (e Carlos, e Megan e Landon) como seus coleguinhas. Fiquei pensando se eu seria capaz de falar sobre deficiência de uma forma que fosse honesta e positiva, de uma forma que construísse pontes, ao invés de criar categorias e julgamentos. Então quando William me contou que Ashley não escutava bem e gritava, eu respirei fundo.


Eu disse, “talvez ela ainda não tenha aprendido como ouvir”.
Ele abanou a cabeça.
E daí perguntei, “No que Ashley é boa?”
Ele abaixou a cabeça. “Ela é boa de jogar jogos e de correr”.
“No que você é bom?”
“Ouvir”
“ O que é difícil para você?”
“Colorir”


Foi o fim da conversa. William tem falado sobre a Ashley desde então, mas somente porque ele me conta coisas sobre sua amiga – que eles pegam o ônibus juntos, fazem de conta que cozinham juntos, que ele gostaria de ter um quadro cheio de adesivos como o dela. Até onde William pode entender, Ashley é somente outra menina em sua classe. Algumas coisas são difíceis para ela. Algumas coisas ela faz muito bem, assim como ele.


Um dia, William vai se dar conta de que muitos aspectos de nossa cultura – da linguagem à legislação – erguem muros entre crianças como ele e crianças como Ashley. Mas eu espero que crescendo com uma irmã que tem síndrome de Down e indo à escola com meninos e meninas que enfrentam desafios diferentes dos dele, possa abrir seus olhos, e seu coração, para entender que todos têm em comum serem humanos. Eu espero que ele cresça com a habilidade de ver além dos rótulos, de acreditar que ele tem algo a oferecer a todos que ele encontrar, e que ele também tem a receber destas pessoas. Eu espero, pelo bem das duas crianças, que ele e Ashley continuem amigos.


Fonte:http://diferenteeficientedeficiente.blogspot.com.br

Claudia Grabois: Uma reflexão reafirmando que preceitos constitucionais não devem ser rasgados ou negociados

Advogada fala a partir da aprovação da meta 4, de Angelo Vanhoni, na câmara dos deputados

Claudia Grabois

E a meta 4 da APAE do Angelo Vanhoni - a meta do retrocesso - foi aprovada. Sim, a carta da entidade internacional ajudou, o movimento surdo também, mas foram apenas uns empurrões. Da minha parte, acredito que deputados federais tem a obrigação de zelar pela Constituição Federal, mas parece que é considerado natural não conhecer devidamente a legislação e rasgar a CF e a Convenção(CDPD), sempre que conveniente.

Estou satisfeita por ter tentado - de acordo com as minhas possibilidades - e felizmente não estou do lado dos que venceram, isso seria terrível. Aprendi cedo que direitos humanos não podem ser negociados e também aprendi que esse tipo de acordo tem cheiro de sangue e morte.

E para quem acha que essa pauta não é fundamental, no Brasil a maioria das pessoas com deficiência é muito pobre e essa também é uma questão de classe, e não é por acaso que as articulações que colaboraram direta ou indiretamente com a "tentativa de retrocesso" têm "características" semelhantes. Estou indignada com tantas omissões, mas é problema meu.

Logo voltarão a falar em inclusão social, capacidade legal, saúde, trabalho, etc, como se pudessem ser dissociados da educação, e como se não tivessem relação com a miséria e a opressão. Seria cômico se não fosse trágico. Mas não estamos derrotados - isso nunca - ainda temos o Senado e a Presidenta.

Temos principalmente a nossa força de mobilização e vale lembrar novamente que a meta saiu da CONAE 2010, realizada com dinheiro público e que mobilizou mais de 400.000 pessoas em todo Brasil, ou seja, não foram pessoas que somente assinaram um manifesto, foram pessoas que saíram de suas casas para participar ativamente da construção de uma proposta democrática, legítima e legal.

Quem sabe "o povo" desperta ou "abre mão" e "percebe" e/ou "interrompe o jogo", que a miséria, a opressão e a discriminação estão completamente relacionadas com a meta 4 do PNE, aprovada ontem na Camara Federal. Quem sabe um dia.

E que a hierarquia legal seja respeitada, e que a legitimidade das inúmeras entidades que participaram da CONAE e assinaram manifestos pela universalização do acesso e permanência na educação não seja atropelada por interesses de ano eleitoral e interesses pessoais e mesquinhos.

Para mais informações, leia a matéria: 

Fonte:Rede Saci

O DIREITO DE IR E VIR DOS DEFICIENTES FÍSICOS

Por Naliny Arantes 

"Precisam ser criados meios para que o deficiente possa se locomover", diz Naliny Arantes (Foto: Arison Jardim/Secom)

Há muitas pessoas em busca de inclusão na sociedade: negros, homossexuais, pessoas de baixa renda e, principalmente, deficientes físicos. O preconceito na sociedade ainda existe. Por isso, é importante bater sempre na tecla da inclusão social.
É um termo amplo, utilizado em contextos diferentes, em referência a questões sociais variadas. De modo geral, usado para fazer referência à inserção de pessoas com algum tipo de deficiência nas escolas de ensino regular ou no mercado de trabalho, ou, ainda, a pessoas consideradas excluídas, que não têm equiparação social.
Já existem leis que asseguram alguns direitos, como vagas exclusivas em estacionamentos, cotas em concursos públicos, lugares com projeto arquitetônico especial, com rampas e elevadores adaptados. Cabe ao deficiente físico se informar e cobrar o cumprimento do que determina a legislação. Não adianta ficar reclamando sem argumentos válidos.
Também é necessário aprender a usar os termos mais adequados e corretos. "Você não é portador de deficiência, pois ela não é uma doença, você não tem uma necessidade especial. Tem necessidade igual a todo mundo: a de respirar, a de comer’’, diz o promotor especializado em defesa da cidadania, Rogério Voltolini Muñoz, do Ministério Público do Estado do Acre (MPE/AC).
Além disso, todas as pessoas, com ou sem deficiência, têm o direito de ir e vir. Mas uma vez que uma pessoa em condições normais pode andar e o cadeirante não, precisam ser criados meios para propiciar sua locomoção, como calçadas regulares e adaptadas, locais com rampas e prédios com elevadores acessíveis.
Logo, a questão realmente relevante para o deficiente é que lhe sejam propiciados meios de convivência com a sua dificuldade. Assim, superam-se barreiras. ‘’O principal direito no que diz respeito ao deficiente é o de ser tratado com igualdade. A gente nunca pode pensar em direito como privilégio. Isso é errado’’, afirma o promotor.

Calçamento das vias normalmente não prevê acesso do deficiente físico (Foto: Naliny Arantes)
Nesse aspecto, é necessária a conscientização da população para não discriminar. A sociedade é muito preconceituosa. A maioria ainda acredita na incapacidade de o deficiente realizar tarefas iguais às pessoas sem deficiência. E ainda há a questão do constrangimento, como as ofensas e termos pejorativos.
Segundo o promotor Muñoz, em casos de discriminação verbal de qualquer pessoa contra o deficiente, este deve procurar uma delegacia de polícia e fazer queixa. O ato configura crime, previsto na lei 7.853/89, artigo 140, parágrafo 3º do Código Penal. Trata-se de “injúria qualificada”, que consiste na referência depreciativa a elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência.
Naliny Arantes é deficiente física e trabalha na TV Aldeia
Fonte: Agencia.AC - http://www.newsrondonia.com.br

Governo quer ampliar o uso de recursos de Acessibilidade na TV brasileira

O Ministério das Comunicações estuda ampliar o uso do recurso da legenda oculta nos programas da TV brasileira. Este foi o tema de uma reunião entre a ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR), com uma delegação do Ministério das Comunicações na tarde desta terça-feira (26), na sede da SDH em Brasília.
Durante o encontro, o Secretário-Executivo das Comunicações, Cezar Alvarez, apresentou a minuta da portaria que deverá ser editada pela pasta com as novas regras. Atualmente, todas as emissoras de TV do país são obrigadas a disponibilizar no mínimo oito horas diárias de programação com o recurso da legenda oculta. As regras em vigor já previam uma expansão dessa obrigatoriedade para 12 horas diárias (84 horas semanais), nos períodos da manhã e da noite, a partir do fim do mês de junho.
A ideia do governo é ampliar ainda mais essa oferta com a alternativa de veiculação de 112 horas semanais (média de 16 horas por dia), incluindo o período da tarde, com no máximo 2 horas diárias no período da madrugada. Segundo Alvarez, a medida favorece a legendagem de programas de grande audiência que estavam prejudicados pelo rigor de horários das regras atuais. A opção deve facilitar, ainda, algumas medidas voluntárias de antecipação de metas – relacionadas também à audiodescrição – que vêm sendo advogadas por aquele Ministério junto às emissoras, com boa aceitação.
A medida, na avaliação da ministra Maria do Rosário é muito positiva, pois as novas regras de expansão do tempo de legendas ocultas na TV são fundamentais para a inclusão de milhares de brasileiros com deficiência auditiva. “Toda a sociedade fica mais forte com seu direito garantido como cidadão. Nenhuma pessoa fica prejudicada pela existência da legenda oculta, mas 10 milhões de brasileiros são muito prejudicados com a sua não existência”, destacou Rosário, que cobrou também estudos para a promoção da audiodescrição e das janelas de Libras.
Ao término do encontro, que contou ainda com a participação da Secretária Executiva da SDH/PR, Patrícia Barcelos, e do Secretário Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Antonio José Ferreira, ficou acordado que a SDH e Ministério das Comunicações continuarão as discussões técnicas para a expansão das medidas de acessibilidade na TV, buscando cada vez mais a cooperação das emissoras. Também estiveram presentes na reunião o secretário de Serviços de Comunicação Eletrônica, Genildo Lins, e o Diretor do Departamento de Acompanhamento e Avaliação, Octávio Pieranti, ambos do Ministério das Comunicações.
Legenda Oculta - Transcrição, em língua portuguesa, dos diálogos, efeitos sonoros, sons do ambiente e demais informações para que sejam compreendidos por pessoas com deficiência auditiva.
Audiodescrição - Narração, em língua portuguesa, integrada ao som original da obra audiovisual, contendo descrições de sons e elementos visuais e quaisquer informações adicionais que sejam relevantes para possibilitar sua melhor compreensão. Essa iniciativa essencial às pessoas com deficiência visual é a primeira do gênero na América Latina e só foi possível a partir da edição da Portaria MC n. 188/2010, do Governo Federal, que dispõe sobre o tema.

Assessoria de Comunicação Social

Inclusão profissional: como decifrar esta linguagem

Para profissionais da área de RH, o mercado não avalia o potencial do candidato, mas primeiro a deficiência. Empregadores deveriam experimentar mais.



Não faltam vagas de emprego e nem candidatos com algum tipo de deficiência física ou intelectual para ocupá-las. Como explicar, então, que milhares de ofertas são desperdiçadas todos os dias no Estado e em todo o País? Após uma década de intensificação das políticas afirmativas, órgãos de fiscalização, empresas e trabalhadores tentam transpor barreiras para a inclusão.                        Os números chocam: 4.145 ofertas de trabalho para pessoas com deficiência cadastradas pelo sistema público de intermediação no Rio Grande do SulSite externo., entre janeiro e começo de junho deste ano, simplesmente não foram preenchidas. Não por falta de candidatos ou potenciais interessados. Varia entre 1,3% e 3,3% a fatia da população que apresenta algum tipo de limitação, segundo o Censo de 2010. Dos 267 inscritos às vagas, apenas 79 foram contratados. Em 2011, o retrato é mais dramático, pois o saldo foi de apenas 98 colocados para 16,7 mil empregos cadastrados. No Brasil, o sistema Mais Emprego recebeu 196,3 mil vagas, e 7,7 mil pessoas com deficiência foram empregadas.                                                                                                                                                  Para a fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE)Site externo., a dificuldade é prova de que sobra preconceito. Para o setor patronal, a razão do baixo aproveitamento é a falta de qualificação de quem se habilita aos postos. O resultado é o fosso que distancia o segmento das cotas mínimas previstas em lei, entre 2% e 5% das vagas existentes em empresas acima de cem funcionários. “O mercado não avalia o potencial do candidato, mas primeiro a deficiência. Nem experimentam antes”, critica a auditora da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE) e responsável por ações para alterar este quadro, Ana Costa.               A auditora aciona outro argumento em prol das contratações. “Conviver com pessoas nestas condições muda a mentalidade”, assegura Ana. A fiscalização do SRTE, que convoca empregadores para definir metas e prazos de adequação, aplica multas em último caso. A autuação varia de R$ 1.617,12 a R$ 2.425,68, com teto de R$ 161,7 mil. O valor é calculado de acordo com o número de vagas a ser preenchido. Um dos procuradores do Ministério Público do Trabalho (MPT)Site externo., que coordena ações no Estado contra discriminação, Bernardo Matte Schuch, reforça que é preciso convencer os donos das empresas. Schuch admite que há um número reduzido de candidatos qualificados, mas ressalva que a barreira pode ser transposta, mesmo que sob a pressão de órgãos como o MPT. “Senão usarão sempre esta desculpa.” No Estado, foram abertos mais de 200 expedientes de descumprimento de cotas.   Na britânica GKN, que fabrica componentes automotivos em unidades em Porto Alegre e Charqueadas, as ações para os mais de 80 trabalhadores com alguma deficiência, no quadro de 1,6 mil funcionários, renderam o prêmio mundial do grupo Corações de Ouro à subsidiária brasileira. O montador de kits, João Pinto Tonial, com menos de 10% da capacidade visual, representou os colegas na entrega em Londres.                                                                                         Na capital inglesa, o presidente local, Jader Hilzendeger, contou que o montador levou integrantes da cúpula da GKN às lágrimas com a resposta sobre a importância de atuar na empresa. “Foi quando ele disse que aprendia todos os dias com quem tinha mais dificuldades que ele”, recorda Hilzendeger, sem esconder a emoção um ano depois. Não é à toa que o nome do programa de inclusão da indústria é Superação.                                                                         Na corporação, a rede de preparação e apoio a trabalhadores como Tonial busca equiparar potenciais e criar oportunidades que não são pautadas pela deficiência. “Apostamos na mudança pelas pessoas e não através de robôs”, define o presidente no Brasil. O coordenador do Conselho de Relações do Trabalho e Previdência Social da Federação das Indústrias do Estado (Fiergs)Site externo., César Codorniz, sabe que há grupos como a GKN que efetivam as cotas e vão além, mas eles são exceção. O dirigente da Fiergs afirmou que a baixa qualificação é o maior empecilho para abrir mais vagas e absorver a mão de obra. “Para que as pessoas sejam mais produtivas, é necessário qualificá-las”, aponta Codorniz, citando que o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai)Site externo. formou entre 2001 e 2011 quase 5 mil trabalhadores com alguma deficiência. Na área de jovem aprendiz, também com número abaixo das cotas legais nas empresas, o coordenador da Fiergs defendeu revisão de parâmetros do quadro de pessoal que deve servir para cálculo dos postos.                                          Na relação com os ofertantes de vagas, a coordenadora de Relações com o Mercado de Trabalho da FGTAS, Ana Rosa Fischer, diz que a ação é de convencimento e descarta que capacitação deficiente seja o principal obstáculo. “Não é só contratar, tem de promover a inclusão. Muitas empresas querem o funcionário pronto”, exemplifica Ana Rosa. No Estado, as medidas do governo para elevar a empregabilidade envolvem abrir cursos voltados ao segmento. Em 2011, um módulo na RMPA ofertou 200 vagas e menos de 70 terminaram a formação.                                                                                                                                              
Companhias igualam regras de avanço interno                                                                                  
A expansão do emprego com carteira na primeira década dos anos 2000 aumentou a pressão por mais vagas para deficientes. No ramo industrial, companhias como a fabricante de motores MWMSite externo., com planta em Canoas, precisam se apressar para cumprir a nova cota. Com a ampliação de 400 contratados, a empresa passou a 4 mil funcionários e elevou de 153 para quase 200 a fatia de cotas para pessoas com deficiência. O gerente de programas sociais e motivacionais da Navistar South American, que controla a MWM, Pedro Funki, virou craque na tarefa. Aciona uma rede de parceiros, entre instituições que atuam com o segmento, Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e até familiares dos empregados. Este último grupo tem suprido 70% da demanda.                                                                                                “O erro do mercado é achar uma função e querer cumprir a cota. Buscamos o trabalhador, identificamos sua capacidade e o preparamos”, acrescenta o gerente. O programa de Inclusão Navistar, como é conhecido, também envolve preparo do gestor direto e da equipe que irá atuar com o cotista. O contratado pode começar em funções mais simples e escalar a carreira interna, casos de Adroaldo Spies, com uma deficiência física, e Estér Moura, com déficit intelectual. Os dois ingressaram como embaladores de peças e já ocupam postos mais complexos. Aos 48 anos, Spies voltou a estudar e agora atua em segurança do trabalho. “Sou diferente e não deficiente”, avisa. Estér admite que teve dificuldades no começo, mas agora estuda para passar de auxiliar à analista administrativa. “Não esperava muito de mim mesma. Agora aprendo algo novo a cada dia”, orgulha-se a jovem, com 23 anos.                                           O desafio de Funki passa a ser outro, ante o desempenho dos contratados: como segurar a mão de obra cotista. A carência de candidatos gerou a disputa pelos candidatos entre as empresas. Mesmo assim, a MWM consegue manter uma rotatividade baixa, de 0,5% neste nicho, e a retenção inclui recompensa por atingimento de metas, mesma política dos demais trabalhadores. “O foco não é mais cumprir a lei”, diferencia o gerente de programas. Na AGCO, do ramo de máquinas agrícolas, a supervisora de Recursos Humanos (RH) da empresa para a América do Sul, Andréa Zanirati, admite dificuldades para preencher postos, principalmente fora dos grandes centros. Duas plantas – a de Ibirubá (Rio Grande do Sul) e outra em São Paulo - estão abaixo da cota de 5%, já que o grupo soma quase 4 mil funcionários.                                                                                                                                         “Profissional com deficiência nas capitais busca se qualificar, mas no Interior há maior dependência a benefícios sociais pagos pelo setor público”, cita Andréa. Com o programa Isca – Inclusão Social e Capacitação e Acessibilidade, em vigor desde 2003, a empresa procura valorizar o desempenho e menos o quesito cota. Cada cotista tem um padrinho interno, que o acompanha. “Pessoas com deficiência trazem uma visão diferente ao ambiente. Muitos ajudam a melhorar o jeito dos colegas”, comenta Deise Chamorro, consultora de projetos especiais da AGCO. A disputa de mão de obra é atestada, mas recebe uma linha dura na indústria de máquinas. “Alguns candidatos barganham com a deficiência. Mas o que conta é comprometimento”, previne Andréa.                                                                                    Mutirão ajuda a suprir demandas                                                                                                              A falta de mão de obra gera alternativas que unem famílias, escolas, empresas e organizações voltadas à qualificação. Um exemplo é a primeira turma de higienização hospitalar do Senac Comunidade, na Capital gaúcha, voltado a candidatos com deficiência intelectual. A iniciativa retrata o roteiro que auditores e instituições de formação passaram a adotar. Termos de compromisso são firmados com as empresas, que passam a demandar a formação e receber os cotistas. Tiago Ervino Pinheiro Junior e Leandro Horn Cene concluíram o treinamento e estão ansiosos para trabalhar. “Nem eu acreditava que conseguiria”, confessa Junior. Cene não vê a hora de assumir sua vaga. “Agradeço a Deus e à minha professora”, diz o jovem, com simplicidade. Os depoimentos emocionados contagiam gestores como Katia da Silveira, coordenadora pedagógica do Senac Comunidade. O programa acaba de ganhar um prêmio nacional. “Empresas reclamam que não tem profissional. Nós temos”, avisa Katia. O problema agora é dar conta dos pedidos. A lista de espera já projeta turmas para 2014.                                     Até quem não precisa cumprir cotas por não ter o mínimo de cem funcionários exigidos por lei se soma ao mutirão para vencer a carência da mão de obra. Em 2003, a GS1 Brasil - Associação Brasileira de AutomaçãoSite externo. se uniu à ONG paulista Associação Novo Projeto para formar trabalhadores. Dos qualificados, apenas dois ficavam na GS1 Brasil, na cota de jovem aprendiz. O restante era absorvido pelo mercado. A parceria deu tão certo que foi ampliada para outras entidades, como Associação Brasileira de Supermercados (Abras)Site externo.. “Em 2003, implorávamos para conseguir vagas. Hoje mal termina um curso e quase todos estão colocados”, contrasta a diretora técnica da ONG, Raphaela Viggiani Coutinho. Só não é empregado quem não tem condições ou acaba temendo perder o benefício pago pelo governo federal, dentro da política de proteção social. Mas uma lei de 2011, do deputado federal e ex-jogador Romário, pai de uma menina com síndrome de down, prevê que a contratação com carteira apenas suspende temporariamente o auxílio. Raphaela alerta para a necessidade de maior apoio a organismos como a Novo Projeto, como remuneração de quem acompanha o cotista. “É o emprego apoiado. Esta tarefa é essencial para dar suporte ao contratado.”   Preenchimento de cotas de jovem aprendiz vira desafio                                                                  A estimativa da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE) é de que deveriam estar atuando 112 mil jovens aprendizes nas empresas gaúchas. O número não chega a 20 mil, segundo dados do começo deste ano. Somente no comércio e serviços, ramo que mais emprega, o número é de menos de dez mil, ante uma cota projetada de quase 70 mil contratados. Em 2010, a Relação Anual de Informações Sociais (Rais) apontava que o segmento entre 14 e 24 anos representava 0,6% dos empregos formais no Estado, e de 0,4% do volume nacional. Fiscalização implacável e abertura de cursos envolvendo as empresas que descumprem as cotas tentam diminuir a distância entre a lei e a contratação.                                Mudanças desde 2009 na aplicação da lei tentam comprometer mais as empresas na absorção dos escassos candidatos que fazem a formação em cursos no sistema S (Senar, Senai, Senac e Senat). Uma delas é a instrução normativa que obriga que cada jovem em formação esteja ligado a um estabelecimento. “Empresas querem que a gente resolva tudo. Agora se exige que ela receba o jovem”, diz Nara Santos dos Anjos, coordenadora do Núcleo de Ensino Profissional (NEP-Senac). Nara garante que a exigência elevou a eficiência, mas a distância em relação à cota é enorme ainda. A coordenadora estadual de Aprendizagem da SRTE, Denise Brambilla González, intensificou nos últimos dois anos as notificações das empresas, que chegam a 300 ao mês.                                                                                        “Toda empresa recolhe 1% sobre a folha para formação profissional. Quem descumpre deve cobrar dos órgãos que ofereçam vaga. Não posso isentar da multa quem não busca os cursos”, previne a coordenadora. A força-tarefa para ampliar a inserção de jovens aprendizes, que mobiliza Denise e seus colegas Marinês Menti Moura, Victoria Ribeiro e João Luiz Nunes Leiria, em um grupo de quase 30 fiscais, é considerado modelo no País.                                                     “Das empresas notificadas, 95% cumprem os acordos, mas os 5% que não seguem me matam do coração”, desabafa Denise, que tem buscado conectar setores públicos de assistência a jovens (como a Fase, de menores infratores) e a rede de cursos profissionalizantes do governo federal. “Empresário que investe melhora a mão de obra do futuro”, valoriza a coordenadora de Aprendizagem. A receita vira antídoto contra outra chaga do mercado de trabalho brasileiro, as altas taxas de desemprego entre jovens até 24 anos, sempre as mais elevadas.                                                                                                                               Mas toda a mobilização de auditores, empresas e sistema de aprendizagem pode não conseguir derrubar um paradigma. O preenchimento de vagas nos setores de vigilância e segurança virou tabu. As restrições à idade (só podem atuar jovens a partir de 21 anos) e o tipo de trabalho parecem intransponíveis. Diante da constatação, SRTE, Senac, Ministério Público do Trabalho (MPT) e empresas formataram um curso e passaram a buscar interessados. “Listei cem nomes e apenas um apareceu”, descreve o diretor da Epavi, uma das maiores operadoras do Estado, com 2,5 mil vigilantes, Gerson Lanziotti. A Empresa Porto-alegrense de Vigilância deveria ter 125 aprendizes, mas não tem nenhum. “A lei exige 400 horas de formação. Qual é o atrativo se o jovem pode pagar um curso e se formar em 15 dias?”, contrapõe Lanziotti.                                                                                                                    Pessoas com deficiência mudam cultura corporativa.                                                               Mais que cumprir a lei, empresas estão agregando novas capacidades aos funcionários sem as limitações. Na Unimed de Porto AlegreSite externo., com 1,2 mil empregados na Capital e Região Metropolitana, Samir Jabar Paha, da área de auditoria, frequentou curso de libras para melhorar a interação com os nove colegas com deficiência auditiva do setor. A formação foi pedida pela equipe, e os surdos Lucas Pereira e Liliana dos Santos Ferreira aprovaram. “A gente ficava com receio de que eles não iriam entender as orientações. A linguagem de libras ajuda muito na inclusão”, atesta Paha.                                                                                              Lucas e Liliana admitem que a nova aptidão é uma virtude, que reduz eventuais ruídos na comunicação e mostra respeito. “Também foi a primeira vez que uma empresa onde trabalho comemorou o Dia do Surdo, em 26 de dezembro”, contou a jovem, que aos 23 anos já está no terceiro emprego. Na relação diária, os demais funcionários descrevem que a eventual restrição de um sentido aguça outros. “Eles são muito sensíveis. A convivência se humaniza”, diz Paha. A gerente de Recursos Humanos da cooperativa, Gabriela Pezzi, explica que a iniciativa faz parte da estratégia do programa Somar, voltado ao atendimento das pessoas com deficiência e à integração. “O erro é querer cumprir cotas sem trabalhar a cultura”, traduz a profissional.                                                                                                                                          Ante a dificuldade de preencher as 60 vagas obrigatórias, alcançadas em 2011, a organização passou a aproveitar todas as chances para gerar banco de candidatos. O desenvolvimento de expertise para contratar foi inevitável. “Há carência de empresas especializadas”, cita a gerente. Para motivar quem entra, a área de RH incorporou regras de avanço na carreira e de acesso a oportunidades internas. ”Incluímos a competência e não a deficiência”, demarca Gabriela. “Não quero ser tratada como alguém diferente”, avisa Liliana. Mas uma barreira que ainda não foi transposta é a que está fora dos ambientes de trabalho. A adaptação do meio urbano às pessoas com deficiência é um problema. A equipe de RH da UnimedPoa solicitou à prefeitura da Capital melhor acessibilidade aos ônibus em frente a um dos postos de atendimento, mas não houve solução ainda. “Não adianta só mudarmos o ambiente interno. Se não tiver transporte adequado, como a pessoa chegará ao trabalho?”, adverte Gabriela.                Na sede da StihlSite externo., fabricante de ferramentas, em São Leopoldo, cadeirante precisa pegar táxi para ir de casa ao trabalho e depois fazer o caminho de volta por falta de ônibus adaptado. “Gastamos três vezes mais do que se fosse com vale-transporte. Isso atrapalha para ampliar a inserção”, desabafa Karing Leitzke, diretora de RH da companhia. A diretora cobra que o setor público faça a sua parte na inclusão, que abrange ainda a qualificação e a formação escolar dos candidatos.                                                                                                                                               A Stihl tem 2 mil empregados e contratou 95 pessoas pelas cotas, uma acima da exigência. Nos últimos três anos, foram investidos R$ 500 mil em ações para a área. A companhia chegou a ser multada em mais de R$ 500 mil por descumprir a lei, mas fez acordo com a área de fiscalização do Ministério do Trabalho para se adequar. “Levou tempo, mas conseguimos este ano. Foi uma superação. Fazemos a nossa parte”, dimensiona Karing. A diretora reforça que os deficientes viraram exemplo. Outra rotina é abrir a empresa para a visita de familiares dos cotistas. “Tivemos pais que não acreditavam que o filho conseguiria. Hoje ele é a principal fonte de renda da casa”, exemplifica a executiva.
Fonte: http://jcrs.uol.com.brSite externo. (Patrícia Comunello)