sábado, 26 de dezembro de 2015

O Aluno Autista e o Processo de Aprendizagem

Autor: Vilmar Miguel de Brito

                                 
“É no processo de procurar uma maneira diferente de nos relacionarmos com nossas crianças, nossa família ou com pessoas com autismo que aprendemos a suportar o que existe sob a superfície e encontramos nesse diagnóstico tão difícil, mas que de fato faz parte da nossa vida, algo que nos empurra para uma nova vida”.
Deborah Barret, mãe de Anthony, 11 anos, autista.
“Todo tipo de apoio deve reconhecer que embora o autismo seja uma parte muito importante do que eu sou, não é tudo o que eu sou. Pais e profissionais deveriam reconhecer que não somente nós podemos aprender com eles, mas eles também podem aprender conosco”.
William Recai, voluntário no National Autistic Society da Escócia, diagnosticado aos 25 anos.
1. Histórico do Conceito de Autismo
Qualquer abordagem sobre o tópico autismo infantil deve referenciar os pioneiros Leo Kanner e Hans Asperger que, separadamente, publicaram os primeiros trabalhos sobre esse transtorno. Kanner, em 1943, descreveu a condição de onze crianças consideradas especiais, com características diferentes de um conceito que estava muito em voga na época, a esquizofrenia infantil. A publicação de Kanner, entitulada Autistic disturbance of affective contact, na revista “Nervous Child” e a tese de doutorado de Asperger em 1944 continham descrições detalhadas de casos de autismo, e também ofereciam os primeiros esforços para explicar teoricamente tal transtorno. Ambos acreditavam que desde o nascimento havia um transtorno básico que originava problemas altamente característicos. Parece uma coincidência notável o fato de que ambos escolheram a palavra ‘autista’ para caracterizar a natureza do transtorno em questão. Na verdade, não é uma coincidência, uma vez que esse termo já tinha sido apresentado pelo eminente psiquiatra Eugen Bleuler em 1911. Originalmente, esse termo se referia a um transtorno básico em esquizofrenia (outro termo lançado por Bleuler), mais especificamente, o estreitamento do relacionamento com as pessoas e com o mundo exterior, um estreitamento tão extremo que parecia excluir tudo, exceto a própria pessoa. Este estreitamento poderia ser descrito como um afastamento da estrutura de vida social para a individualidade. Daí as palavras ‘autista’ e ‘autismo’, originárias da palavra gregaautos, que significa ‘próprio’. Atualmente, elas são aplicadas quase que exclusivamente ao transtorno de desenvolvimento chamado de autismo. Tanto Kanner, trabalhando em Baltimore, quanto Asperger, trabalhando em Viena, notaram casos de crianças diferentes que tinham em comum algumas características fascinantes. Acima de tudo, as crianças pareciam incapazes de desenvolver um relacionamento afetivo normal com as pessoas.
Em contraste ao conceito de esquizofrenia de Bleuler, o transtorno autista parecia existir desde o começo da vida do paciente. O artigo de Kanner tornou-se o mais citado em toda a literatura sobre autismo, enquanto que o artigo de Asperger, escrito em alemão e publicado durante a Segunda Guerra Mundial, foi largamente ignorado. Surgiu uma crença de que Asperger havia descrito um tipo diferente de criança, que não devia ser confundido com o descrito por Kanner. A definição de autismo feita por Asperger, ou como ele a chamava, “psicopatologia autista”, é bem mais ampla que a de Kanner. Asperger incluía casos que mostravam um dano orgânico severo e aqueles que transitavam para a normalidade. Atualmente, o termo Síndrome de Asperger tende a ser reservado para as raras crianças autistas apenas ligeiramente afetadas (autismo de alto desempenho), que dão mostras mais claras de inteligência e altamente verbais. Já a síndrome de Kanner é freqüentemente usada para indicar a criança com uma constelação de aspectos clássicos ou ‘nucleares’, assemelhando-se, em detalhes surpreendentes, às características que Kanner identificou em sua primeira descrição inspirada.
Kanner viria a reconhecer, mais tarde, que o termo autismo não deveria se referir a um afastamento da realidade com predominância do mundo interior, como se dizia acontecer na esquizofrenia. Para Kanner – e esta pode ser considerada uma das melhores definições do conceito – não haveria no autismo um fechamento do indivíduo sobre si mesmo, mas um tipo particular e específico de contato do indivíduo com o mundo exterior.
Nos anos 1950 e 1960, o psicólogo Bruno Bettelheim afirmou que a causa do autismo seria a indiferença da mãe, que denominou de “mãe-geladeira'”. Nos anos 1970 essa teoria foi posta por terra e passou-se a pesquisar as causas do autismo. Ainda assim, autores como Rutter, afirmavam que o autista possuía uma incapacidade inata para estabelecer qualquer relação afetiva bem como para responder aos estímulos do meio.
Felizmente, essas teorias foram superadas e hoje acredita-se que o autismo esteja ligado a causas genéticas associadas a causas ambientais. Dentre as possíveis causas ambientais, a contaminação por mercúrio tem sido apontada por militantes da causa do autismo como forte candidata, assim como problemas na gestação.
2. Características
O autismo é definido como um transtorno invasivo do desenvolvimento, isto é, algo que faz parte da constituição do indivíduo e afeta sua evolução. Manifesta-se antes dos três anos de idade. O autista, em geral, apresenta comprometimentos em três importantes domínios do desenvolvimento humano: a comunicação, a sociabilização e a imaginação. A isto, denomina-se tríade.
1. Desvios qualitativos da comunicação
São assim chamados pela dificuldade em utilizar com sentido todos os aspectos da comunicação verbal e não verbal. Isto inclui gestos, expressões faciais, linguagem corporal, ritmo e modulação na linguagem verbal.
Portanto, dentro da grande variação possível na severidade do autismo, pode-se encontrar uma criança sem linguagem verbal e com dificuldades na comunicação por qualquer outra via – isto inclui ausência de uso de gestos ou um uso muito precário dos mesmos; ausência de expressão facial ou expressão facial incompreensível para os outros e assim por diante – como se pode, igualmente, encontrar crianças que apresentam linguagem verbal, porém esta é repetitiva e não comunicativa.
Muitas das crianças que apresentam linguagem verbal repetem simplesmente o que lhes foi dito. Este fenômeno é conhecido com ecolalia imediata. Outras crianças repetem frases ouvidas há horas, ou até mesmo dias antes (ecolalia tardia).
É comum que crianças com autismo e inteligência normal repitam frases ouvidas anteriormente e de forma perfeitamente adequada ao contexto, embora, geralmente nestes casos, o tom de voz soe estranho e pedante.
2. Desvios qualitativos na sociabilização
São o ponto crucial no autismo e o mais fácil de gerar falsas interpretações. Significam a dificuldade em relacionar-se com os outros, a incapacidade de compartilhar sentimentos, gostos e emoções e a dificuldade na discriminação entre diferentes pessoas.
Muitas vezes a criança que tem autismo aparenta ser muito afetiva, por aproximar-se das pessoas abraçando-as e mexendo, por exemplo, em seu cabelo ou mesmo beijando-as quando na verdade ela adota indiscriminadamente esta postura, sem diferenciar pessoas, lugares ou momentos. Segundo Mirenda, Donnellan & Yoder (1983), “os distúrbios na interação social dos autistas podem ser observados desde o início da vida. Com autistas típicos, o contato ‘olho a olho’ já se apresenta anormal antes do final do primeiro ano de vida”. Muitas crianças olham de canto de olho ou muito brevemente. Um grande número de crianças não demonstra postura antecipatória ao serem pegos pelos seus pais, podendo resistir ao toque ou ao abraço. Dificuldades em se moldar ao corpo dos pais, quando no colo, são observadas precocemente. Crianças que, posteriormente, receberam o diagnóstico de autismo, demonstravam falta de iniciativa, de curiosidade ou comportamento exploratório, quando bebês.
Freqüentemente, os pais de autistas descrevem seus bebês como “felizes quando deixados sozinhos”, “como se estivessem dentro de uma concha”, “sempre em seu próprio mundo”. Os autistas têm um estilo “instrumental” de se relacionar, utilizando-se dos pais para conseguirem o que desejam. Um exemplo de modo instrumental de relacionamento ocorre quando a criança autista pega a mão da mãe e a utiliza para abrir uma porta em vez de abri-la com sua própria mão.
3. Desvios qualitativos na imaginação
Caracterizam-se por rigidez e inflexibilidade e se estendem às várias áreas do pensamento, linguagem e comportamento da pessoa. Podem ser exemplificadas por comportamentos obsessivos e ritualísticos, compreensões literais da linguagem, falta de aceitação das mudanças e dificuldades em processos criativos.
Esta dificuldade pode ser percebida por uma forma de brincar desprovida de criatividade e pela exploração peculiar de objetos e brinquedos. Usualmente, crianças autistas demonstram sérios problemas na compreensão e utilização da mímica, gestualidade e fala. Desde o início, os jogos de “faz-de-conta” e imitação social, amplamente observados nas crianças com desenvolvimento normal, são falhos ou inexistentes. Uma criança que tem autismo pode passar horas a fio explorando a textura de um brinquedo, e costumam ser fascinadas por objetos ou elementos inusitados para uma criança, como zíperes ou cabelos. Em crianças que têm autismo e têm inteligência preservada, pode-se perceber a fixação em determinados assuntos, na maioria dos casos incomuns em crianças da mesma idade, como calendários ou animais pré-históricos, o que é confundido às vezes com nível de inteligência superior.
As mudanças de rotina, como de casa, dos móveis, ou até mesmo de percurso, costumam perturbar bastante algumas dessas crianças. Apesar dessa resistência, os autistas
mantêm rotinas e rituais próprios. É comum insistirem em determinados movimentos, como abanar as mãos e rodopiar (movimentos estereotipados). Algumas preferem brincadeiras de ordenamento, alinhando objetos, por exemplo. Podem apresentar preocupação exagerada com temas restritos, como horários fixos de determinadas atividades ou compromissos, sendo que se cogita que os movimentos estereotipados estejam muito ligados a esta última característica, pois costumam ocorrer em horários fixos do dia.
3. Espectro do Autismo
O autismo não é visto como um continuum que vai do grau leve ao severo. Existe uma grande associação entre autismo e retardo mental, desde o leve até o severo, sendo que se considera que a gravidade do retardo mental não está necessariamente associada à gravidade do autismo.
Segundo Goodman & Scott (1997), um terço dos autistas com retardo mental sofrem crises convulsivas, que começam a se manifestar dos 11 aos 14 anos. A hiperatividade é freqüente, mas pode desaparecer na adolescência e ser substituída pela inércia. A irritabilidade também é comum e costuma ser desencadeada pela dificuldade de expressão ou pela interferência nos rituais e rotinas próprias do indivíduo. O autista também pode desenvolver medos intensos que desencadeiem fobias.
Cerca de 10% dos autistas perdem habilidades de linguagem e intelectuais na adolescência. O declínio não é progressivo, mas a capacidade intelectual perdida geralmente não é recuperada. Na vida adulta, quase 10% dos autistas trabalham e são capazes de ter uma vida independente.
A palavra autismo atualmente pode ser associada a diversas síndromes. Os sintomas variam amplamente, o que explica por que atualmente refere-se ao autismo como um espectro de transtornos. Dentro deste espectro encontramos sempre a tríade de comprometimentos que confere uma característica comum a todos eles. Alguns são diagnosticados simplesmente como autismo, traços autísticos, etc, ou Síndrome de Asperger (considerado por muitos como o autismo de alto desempenho). Além destes, existem diversas síndromes identificáveis geneticamente ou que apresentam quadros diagnósticos característicos, que também estão englobadas no Espectro do Autismo.
4. Síndrome de Asperger
Apesar de ter sido descrita por Hans Asperger em 1944, apenas em 1994 a Síndrome de Asperger foi incluída no DSM-IV com critérios para diagnóstico.
Algumas das características peculiares mais frequentemente apresentadas pelos portadores da Síndrome de Asperger são:
– Atraso na fala, mas com desenvolvimento fluente da linguagem verbal antes do cinco anos e geralmente com:
  • Dificuldades na linguagem,
  • Linguagem pedante e rebuscada,
  • Ecolalia ou repetição de palavras ou frases ouvidas de outros,
  • Voz pouco emotiva e sem entonação.
– Interesses restritos: escolhem um assunto de interesse, que pode ser seu único interesse por muito tempo. Costumam apegar-se a mais às questões factuais do que ao significado. Casos comuns são interesse exacerbado por coleções (dinossauros, carros, etc.) e cálculos. A atenção ao assunto escolhido existe em detrimento a assuntos sociais ou cotidianos;
– Presença de habilidades incomuns como cálculos de calendário, memorização de grandes seqüências como mapas de cidades, cálculos matemáticos complexos, ouvido musical absoluto etc;
– Interpretação literal, incapacidade para interpretar mentiras, metáforas, ironias, frases com duplo sentido, etc;
– Dificuldades no uso do olhar, expressões faciais, gestos e movimentos corporais como comunicação não verbal;
– Pensamento concreto;
– Dificuldade para entender e expressar emoções;
– Falta de autocensura: costumam falar tudo o que pensam;
– Apego a rotinas e rituais, dificuldade de adaptação a mudanças e fixação em assuntos específicos;
– Atraso no desenvolvimento motor e freqüentes dificuldades na coordenação motora tanto grossa como fina, inclusive na escrita;
– Hipersensibilidade sensorial: sensibilidade exacerbada a determinados ruídos, fascinação por objetos luminosos e com música, atração por determinadas texturas etc;
– Comportamentos estranhos de auto-estimulação;
– Dificuldades em generalizar o aprendizado;
– Dificuldades na organização e planejamento da execução de tarefas.
Na Sídrome de Asperger, algumas coisas são aprendidas na idade “própria”, outras cedo demais, enquanto outras somente serão entendidas muito mais tarde ou somente quando ensinadas.
Alguns pesquisadores acreditam que Síndrome de Asperger seja a mesma coisa que autismo de alto funcionamento, isto é, com inteligência preservada. Outros acreditam que no autismo de alto funcionamento há atraso na aquisição da fala, e na Síndrome de Asperger, não.
Muitas pessoas acreditam que a importância da diferenciação entre Síndrome de Asperger e Autismo de Alto Funcionamento seja mais de cunho jurídico do que propriamente para escolhas relacionadas ao tratamento.
Por um lado, parece menos grave dizer que alguém é portador de Síndrome de Asperger parece do que ser portador de autismo, mesmo que de alto funcionamento – embora isto seja provavelmente uma ilusão. Por outro lado, associações de autismo em todo o mundo alegam que esta divisão em duas patologias diferentes enfraquece um movimento que necessita de tanto apoio como o dos que trabalham pelo autismo.

5.Diagnóstico
Os pais e cuidadores são os primeiros a notar algo diferente nas crianças com autismo. O bebê desde o nascimento pode mostrar-se indiferente à estimulação por pessoas ou brinquedos, focando sua atenção prolongadamente por determinados itens. Por outro lado certas crianças apresentam um desenvolvimento normal nos primeiros meses para repentinamente transformar o comportamento em isolado. Contudo, podem-se passar anos antes que a família perceba que há algo errado. Nessas ocasiões os parentes e amigos muitas vezes reforçam a idéia de que não há nada errado, dizendo que cada criança tem seu próprio jeito. Infelizmente isso atrasa o início de uma educação especial, pois quanto antes se inicia o tratamento, melhor é o resultado.
Não há testes laboratoriais ou de imagem que, sozinhos, possam diagnosticar o autismo. Assim o diagnóstico deve feito clinicamente, pela entrevista e histórico do paciente, sempre sendo diferenciado de surdez, problemas neurológicos e retardo mental. Uma vez feito o diagnóstico acriança deve ser encaminhada para um profissional especializado em autismo, que se encarregará de confirmar ou negar o diagnóstico. Apesar do diagnóstico do autismo não poder ser confirmado por exames as doenças que se assemelham ao autismo podem. Assim vários testes e exames podem ser realizados com a finalidade de descartar os outros diagnósticos.
Dentre vários critérios de diagnóstico, três não podem faltar: poucas ou limitadas manifestações sociais, habilidades de comunicação não desenvolvidas, comportamentos, interesses e atividades repetitivos. Esses sintomas devem aparecer antes dos três anos de idade.
Não se conseguiu provar qualquer causa psicológica na etiologia do autismo. O que não significa que o meio seja ambiente inócuo. O prognóstico e o desenvolvimento da capacidade plena dessas crianças são influenciados pela forma como vivem (os cuidados que recebem e a estrutura da rede de apoio). A causa principal pode estar relacionada a alterações biológicas, sejam hereditárias, ocorridas na gestação e/ou parto. Possivelmente, dessas alterações decorrem os erros no funcionamento cerebral. Entretanto, uma definição exata ainda não é possível.
Podem apresentar, ainda, comportamento estranho e retraído; uma maneira inadequada de brincar; com ausência da reação de surpresa; interesses específicos com persistência em girar objetos e habilidades especiais (hiperlexia ou ouvido absoluto, por exemplo); fascinação por água; crises de choro e angústia sem razões explicáveis; risos e gargalhadas fora do contexto e um retardo no desenvolvimento das habilidades motoras.
Essas ocorrências servem como advertência para a necessidade de uma visão diferenciada pelos pais, educadores e médicos.
Visando a uniformização do diagnóstico foram criadas diferentes escalas, além das definições mundialmente seguidas contidas na Classificação Internacional das Doenças. 10ª. Edição (CID 10) e no Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais. 4ª. Edição. (DSM-IV).
As investigações laboratoriais que devem ser realizadas visando o diagnóstico diferencial e o diagnóstico de possíveis comorbidades associadas inclui os seguintes exames:
  • Sorologias
  • ECG
  • Avaliação oftalmológica
  • Neuropsicológico
  • Pesquisa do X frágil/ Cariótipo
  • RNM
  • EEG
  • Erros inatos do metabolismo /teste do pezinho
  • Avaliação audiológica.
6. Causas
A medicina aponta como causas do autismo um conjunto razoavelmente bem demarcado de possibilidades. São elas:
– Fenilcetonúria não tratada;
– Viroses durante a gestação, principalmente durante os três primeiros meses;
– Toxoplasmose;
– Rubéola;
– Anoxia e traumatismos no parto;
– Patrimônio genético.
Certamente, para a maioria das crianças autistas sem uma disfunção correlata, as causas ligadas a fatores genéticos são as mais prováveis. Estudos com gêmeos sugerem que a hereditariedade está intimamente ligada ao transtorno e que a origem esteja em uma combinação de genes, e não em um único gene isolado.
Nos casos de autismo associado a retardo mental profundo e severo, as causas podem estar mais ligadas a danos cerebrais do que a fatores genéticos.
Não há evidências de que problemas psicossociais ou eventos traumáticos na infância influenciem o surgimento do transtorno. Há duas teorias psicológicas acerca do surgimento. A primeira sugere que o problema original está na incapacidade do autista perceber que há diferenças entre seu estado mental e o dos outros. A outra hipótese diz respeito à função executiva do indivíduo, que geraria dificuldades de planejamento e organização.
7. Incidência
Incidência do autismo varia de acordo com o critério utilizado por cada autor. Bryson e Col., em seu estudo conduzido no Canadá em 1988, chegaram a uma estimativa de 1:1000, isto é, em cada mil crianças nascidas uma teria autismo. Segundo a mesma fonte, o autismo seria duas vezes e meia mais freqüente em pessoas do sexo masculino do que em pessoas do sexo feminino.
Segundo informações da ASA – Autism Society of América, a incidência seria de 1:500, ou 2 casos a cada 1000 nascimentos. De acordo com o órgão norte-americano Center of Disease Control and Prevention (CDC), o autismo afetaria de 2 até 6 pessoas em cada 1000, isto é, poderia afetar até 1 pessoa em cada 166. O autismo seria quatro vezes mais freqüente em pessoas do sexo masculino.
O autismo incide igualmente em famílias de diferentes raças, credos ou classes sociais.
8. Tratamento
O tratamento mais adequado para crianças autistas inclui escolas especializadas e apoio dos pais. Elas geralmente se desenvolvem melhor em instituições educacionais bem estruturadas, em que professores têm experiência com autismo. Programas comportamentais podem reduzir a irritabilidade, os acessos de agressividade, os medos e os rituais, assim como promover um desenvolvimento mais apropriado.
Medicamentos que agem sobre o psiquismo não controlam os principais sintomas do autismo, mas podem atenuar os sintomas associados. Estimulantes são capazes de reduzir a hiperatividade, mas geralmente aumentam de forma intolerável os atos repetitivos. Doses baixas de neurolépticos costumam reduzir a agitação e as repetições e em dosagens mais altas podem reduzir a hiperatividade, a retração e a instabilidade emocional. No entanto, é preciso verificar se o benefício é superior aos problemas causados pelos efeitos colaterais dessas drogas.
9. Educação especial para o autista:
A educação do autista é dificultada pela dificuldade de sociabilização, que faz com que o autista tenha uma consciência pobre da outra pessoa e é responsável, em muitos casos, pela falta ou diminuição da capacidade de imitar, que uns dos pré-requisitos cruciais para o aprendizado, e também pela dificuldade de se colocar no lugar de outro e de compreender os fatos a partir da perspectiva do outro.
Pesquisas mostraram que mesmo nos primeiros dias de vida um bebê típico prefere olhar para rostos do que para objetos. Através das informações obtidas pela observação do rosto dos pais, o bebê aprende e encontra motivação para aprender. Já o bebê com autismo dirige sua atenção indistintamente para pessoas e para objetos, e sua falha em perceber pessoas faz com que perca oportunidades de aprendizado, refletindo em um atraso do desenvolvimento.
Os pais e os profissionais estão bem cientes das dificuldades que as crianças com autismo têm em muitos ambientes educacionais. Em resposta têm desenvolvido programas alternativos e estratégias de intervenção. Embora alguns destes sejam úteis, a maioria enfatiza a correção das dificuldades comportamentais para melhorar o rendimento educacional. Entretanto, um outro aspecto do problema tem recebido menos atenção: as necessidades específicas de aprendizagem desta população especial. As necessidades envolvidas incluem dificuldades organizacionais, distração, problemas em seqüenciar, falta de habilidade em generalizar, e padrões irregulares de pontos fortes e pontos fracos. Embora nenhum destes se aplique à população inteira dos alunos com autismo, estes problemas de aprendizagem são vistos em um grau significativo em uma porcentagem grande destes alunos.
A organização é difícil para alunos com autismo. Requer uma compreensão do se quer fazer e um plano para a execução. Estas exigências são suficientemente complexas, inter-relacionadas e abstratas para apresentar obstáculos incríveis para alunos com autismo. Quando fica cara a cara com demandas organizacionais complexas, eles ficam freqüentemente imobilizados e muitas vezes nunca não são capazes de executar as tarefas pedidas.
O desenvolvimento de hábitos sistemáticos e rotinas de trabalho tem sido uma estratégia eficaz para minimizar estas dificuldades organizacionais. Os alunos com rotinas de trabalho estabelecidas da esquerda para a direita, de cima para baixo, não param de trabalhar para planejar onde começar e como prosseguir. As dificuldades organizacionais são minimizadas também com as listas de verificação, programações e instruções visuais mostrando concretamente aos alunos autistas o que foi completado, o que precisa ser terminado e como prosseguir.
A distração é outro problema comum dos alunos com autismo. Ela toma diversas formas na sala de aula: reagindo aos ruídos externos de carro, acompanhando visualmente os movimentos na sala de aula, ou “estudando” o lápis do professor na mesa ao invés de terminar o trabalho pedido. Embora a maioria de alunos autistas seja distraída por alguma coisa específica, as distrações divergem consideravelmente de uma criança para outra.
A identificação do que distrai cada aluno é o primeiro passo para ajudá-los. Para alguns podem ser estímulos visuais, enquanto para outros podem ser auditivos. As distrações podem estar respondendo a ruídos externos ou a movimentos visuais como também podem não se concentrar em aspectos centrais de tarefas pedidas. As avaliações cuidadosas das distrações individuais são cruciais. Depois destas avaliações as modificações ambientais podem ser feitas: podem envolver a disposição física da área de trabalho do aluno, a apresentação de tarefas relacionadas ao trabalho, ou muitas outras possibilidades.
A seqüenciação é outra área de dificuldade. Estes alunos freqüentemente não podem se lembram da ordem precisa das tarefas, porque se atém de forma concreta a detalhes específicos e nem sempre vêem relação entre elas. Porque as seqüências implicam nestas relações, são freqüentemente desconsideradas.
As rotinas consistentes de trabalho e as instruções visuais compensam essas dificuldades. As instruções visuais podem destacar seqüências de eventos e fazer com que os alunos autistas se lembrem da ordem adequada a seguir. A figura visual permanece atual e concreta, ajudando o aluno seguir a seqüência desejada. O estabelecimento de hábitos sistemáticos de trabalho é também útil; um aluno que trabalhe sempre da esquerda para a direita pode ter o trabalho apresentado na seqüência correta.
As dificuldades com generalização são bem conhecidas no autismo e têm implicações importantes para práticas educacionais. Os alunos com autismo freqüentemente não podem aplicar o que aprenderam em uma situação específica a ambientes/contextos semelhantes. A generalização adequada requer uma compreensão dos princípios fundamentais nas seqüências aprendidas e nas maneiras sutis pelas quais elas são aplicáveis a outras situações. Atendo-se a detalhes específicos, os alunos com autismo freqüentemente perdem esses princípios centrais e suas aplicações.
A colaboração entre os pais e profissionais e a instrução de base comunitária são maneiras importantes para melhorar a generalização nos alunos com autismo. Quanto maior for o empenho pela coordenação entre a casa e a escola, maior a probabilidade dos alunos aplicarem o que aprenderam a situações/contextos/ambientes diferentes. O uso de abordagens semelhantes e a ênfase em habilidades semelhantes são as maneiras pelas quais os pais e os profissionais podem colaborar para melhorar as habilidades da generalização das habilidades de seus alunos.
Um ensino de base comunitária é também importante para melhorar as habilidades de generalização. Porque o objetivo final é um treinamento bem sucedido de base comunitária, as atividades devem estar disponíveis em todos os programas educacionais. Isto deveria incluir passeios regulares ao campo real de atuação com uma freqüência crescente à medida que os alunos ficam mais velhos, oferecer oportunidades de trabalhos na comunidade em contextos “reais”, e atividades de lazer na comunidade.
Dentre os modelos educacionais para o autista, um dos mais importantes é o método TEACCH (Treatment and Education of Autistic and Communication Handicapped Children, em português, Tratamento e Educação de Crianças Autistas e com Desvantagens na Comunicação), desenvolvido pela Universidade da Carolina do Norte e que tem como postulados básicos de sua filosofia:
  • propiciar o desenvolvimento adequado e compatível com as potencialidades e a faixa etária do paciente;
  • funcionalidade (aquisição de habilidades que tenham função prática);
  • independência (desenvolvimento de capacidades que permitam maior autonomia possível);
  • integração de prioridades entre família e programa, ou seja, objetivos a serem alcançados devem ser únicos e a estratégias adotadas devem ser uniformes.
Dentro desse modelo, é estabelecido um plano terapêutico individual, onde é definida uma programação diária para a criança autista. O aprendizado parte de objetos concretos e passa gradativamente para modelos representacionais e simbólicos, de acordo com as possibilidades do paciente.
10. O papel do professor
A escola oferece um ambiente propício para a avaliação emocional das crianças e adolescentes por ser um espaço social relativamente fechado, intermediário entre a família e a sociedade. É na escola onde a performance dos alunos pode ser avaliada e onde eles podem ser comparados estatisticamente com seus pares, com seu grupo etário e social.
Dentro da sala de aula há situações psíquicas significativas, nas quais os professores podem atuar tanto beneficamente quanto, consciente ou inconscientemente, agravando condições emocionais problemáticas dos alunos. Por exemplo, as crianças autistas não compreendem como se estabelecem as relações de amizade. Algumas não têm amigos, enquanto outras pensam que todos em sua sala de aula são seus amigos. Os alunos podem trazer consigo um conjunto de situações emocionais intrínsecas ou extrínsecas, ou seja, podem trazer para escola alguns problemas de sua própria constituição emocional (ou personalidade) e, extrinsecamente, podem apresentar as conseqüências emocionais de suas vivências sociais e familiares.
Os perfis irregulares das habilidades e dos déficits são características bem documentadas nos alunos com autismo. Também estão entre os mais difíceis para se desenvolver programas específicos. Um aluno autista pode ter a habilidade extraordinária de estabelecer relações espaciais ou de entender conceitos numéricos, mas ser incapaz de usar estes pontos fortes por causa das limitações organizacionais e de comunicação. São necessários professores com habilidade e com experiência, em ensinar na presença destes pontos fortes e fracos tão singulares.
Ensinar alunos com esta ampla gama de habilidades requer avaliações completas de todos os aspectos de seu funcionamento. Isto não pode se restringir às habilidades acadêmicas, mas deve também incluir os estilos de aprendizagem, distratibilidade, funcionamento em situações de grupo, em habilidades independentes, e em tudo mais que possa ter impacto sobre a situação de aprendizagem. Os estilos de aprendizagem são especialmente importantes para o processo da avaliação porque são essenciais para liberar o potencial de aprendizagem.
Como cada criança com autismo processa a informação e quais são as melhores estratégias de ensino devido à singularidade de seus pontos fortes, interesses e habilidades em potencial? Um professor hábil pode abrir a porta para várias oportunidades. Os adultos com o autismo que trabalham em bibliotecas, com computadores, em restaurantes, e muitos outros ambientes; são evidências de que, se tiverem instrução adequada, podem se tornar adultos produtivos. Porém, um número excessivo de programas de educação não reconhece os pontos fortes e déficits singulares deste grupo enigmático de aprendizes.
A principal possibilidade para uma melhoria constante é uma maior consideração das suas singularidades e mais treinamento para profissionais para ajudá-los a entender seus estilos de aprendizagem.
11. Conclusão
Este transtorno é, por excelência, a enfermidade do contato e da comunicação. Portanto, para ajudar pessoas com autismo a funcionar mais adaptativamente em nossa cultura, é necessário conceber programas tendo como base os pontos fortes e déficits fundamentais do autismo que afetam o aprendizado e as interações no dia a dia.
Esta abordagem do autismo é relativa a, mas diferente de identificar déficits com objetivos diagnósticos. As características diagnósticas do autismo, tais como déficits na área social e problemas de comunicação, são úteis para distinguir o autismo de outras deficiências, mas são relativamente imprecisos para a conceituação de como um indivíduo com autismo entende o mundo, age com base nesta compreensão, e aprende.
O trabalho como educador e de pessoas com autismo é fundamentalmente o de ver o mundo através de seus olhos, e usar esta perspectiva para ensiná-los a funcionar inseridos em nossa cultura de forma o mais independente possível. Enquanto não se puderem curar os déficits cognitivos subjacentes ao autismo, é pelo seu entendimento que é possível planejar programas educacionais efetivos na função de vencer o desafio deste transtorno do desenvolvimento tão singular que é o autismo.
12. Referências
AMA, Associação de Amigos do Autista, Internet
Ballone, G. J. Autismo Infantil, in. PsiqWeb
Goodman, R., Scott, S. Child Psychiatry. Blacwell Science, 1997
Henriques, S. Autismo, in Neurociências.Home,
Lebovici, S., Kestemberg, E. A Evolução da Psicose Infantil. Porto Alegre. Artes Médicas, 1995.
Mirenda, P., Donnellan, A. M., Yoder, D. E. (1983) Gaze behavior: A new look at an old problem. Journal of Autism and Developmental Disorders, 13, 297-309.
Mazet, P., Lebovici, S.. Autismo e psicoses da criança. Porto Alegre: Artes Médicas. 1991.

O Natal do bebê que nasceu sem parte do cérebro

Caso raro, bebê que nasceu sem parte do cérebro comemora a vida neste Natal

Da Associated Press

  
Brandon Buell segura seu filho Jaxon, que nasceu com uma condição rara que fez com que seu cérebro não se desenvolvesse e que seu crânio ficasse com uma forma achatada Tom Benitez/Orlando Sentinel via AP 




Jaxon Buell nasceu em 27 de agosto de 2014 com uma condição rara que fez com que seu cérebro não se desenvolvesse e que seu crânio ficasse com uma forma achatada. Na época, ele recebeu algumas poucas mensagens de parentes. A criança passou a ser tratada em um hospital de Boston, nos EUA, e ganhou visibilidade após aparecer na imprensa norte-americana. Neste Natal, o bebê recebeu pilhas de presentes e milhares de mensagens no seu perfil no Facebook.

"Agora se ficamos dois dias sem postar alguma mensagem, recebemos cobranças como "onde está meu anjo de olho azul" ou "ele está bem?", diz a mãe, Brittany Buell. "É incrível e surreal a relação das pessoas com Jaxon. Ele tem seguidores em vários continentes, inclusive na Antártida".

Um cartão de Natal virtual mostrando Jaxon recebendo um beijo do Papai Noel ajudou a família a arrecadar mais doações e presentes para o bebê. Seis ou sete presentes chegam diariamente à casa da família, em Tavares, Flórida.

"Nós nos sentimos tão gratos com o apoio e o amor dedicado a Jaxon, mas mais gratificante é saber que a história dele poderá ajudar outros em situação semelhante", diz Brandon Buell, pai de Jaxon.

A criança nasceu com microhidranencefalia e os médicos, inicialmente, disseram que ele não poderia desenvolver habilidades motoras, como sorrir, falar ou brincar. Após um ano, Jason, que os americanos apelidaram de "bebê milagre", pode sorrir, falar "mama" e "papa" e tenta engatinhar. No entanto, ele recebe alimentação por tubo e toma remédios quatro vezes por dia.

Mais de US$ 162 mil (cerca de R$ 640 mil) foram doados para a família. Os Buells dizem que vão doar o dinheiro para pesquisas médicas que estudam condições similares e para produção de equipamentos que ajudem pessoas como Jaxon.

"A grande maioria das crianças que foram diagnosticadas com microhidranencefalia morreram logo após o nascimento ou nem nasceram porque foram abortadas", diz Carl Barr, um dos médicos que tratam Jaxon.

  


Refugiada síria que atravessou Europa em cadeira de rodas passa 1º Natal na Alemanha

Noujain Mustaffa, de 16 anos, fugiu da guerra em seu país; três meses depois, vive em Colônia com a irmã e deseja que toda a família volte a estar reunida.

BBC

Noujain Mustaffa em Colônia, na Alemanha (Foto: Reprodução/BBC)
Noujain Mustaffa em Colônia, na Alemanha (Foto: Reprodução/BBC)

Noujain Mustaffa deixou seu país, a Síria, fugindo da guerra.
Em meio a tantas histórias de refugiados, a sua chamou atenção pelo fato da jovem de 16 anos, que tem paralisia cerebral, ter feito a jornada rumo à Europa na cadeira de rodas que usa desde pequena.
Click AQUI para ver o vídeo:
Agora, ela vive em Colônia, na Alemanha, com seus irmãos e passa o primeiro Natal em sua nova casa.
E deseja que, em breve, seus pais, hoje vivendo como refugiados na Turquia, possam estar de novo junto à família.
Fonte: g1.globo.com

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Empresa insere autistas com habilidades fora do comum no mercado

A cidade é a primeira da América Latina a ganhar uma filial da instituição sem fins lucrativos

Por: Alessandra Freitas

                                              autistas
      Victória: montagem de um robô em vinte minutos (Foto: Rogerio Albuquerque)

Apesar dos trejeitos tímidos e gestos contidos, a estudante Victória Gimenez, de 20 anos, mal disfarça a empolgação ao segurar um robô feito de pecinhas de Lego utilizado em aulas de computação. Ela é um dos destaques do programa de treinamento da Specialisterne, companhia dinamarquesa focada em tecnologia da informação recém-estabelecida em São Paulo. A cidade é a primeira da América Latina a ganhar uma filial da instituição, que conquistou território em quinze países desde 2010. Apesar de ainda discreta, a chegada em novembro da multinacional sem fins lucrativos (atual mente em busca de patrocinadores) representa a realização de um sonho para a garota. 



Mesmo com conhecimento brilhante em ciências, Victória não consegue encontrar emprego. O motivo: assim como os oito colegas selecionados para participar do programa, ela foi diagnosticada com autismo. O grupo escandinavo vem ao Brasil com a promessa de inserir profissionais com essa condição no mercado de trabalho. Em março, deve abrir inscrições para uma nova turma. “Pessoas como eles perdem as vagas porque não possuem boa comunicação e têm dificuldade de interagir socialmente”, afirma Pablo Mas, diretor de operações da Specialisterne.


                                        autistas
                Fernanda: paixão por desenhos e aviões (Foto: Rogerio Albuquerque)


Para inverter esse quadro, é oferecido um treinamento de cinco meses para capacitar os autistas a trabalhar como técnicos de software. Ao final, buscam-se parcerias com firmas interessadas em incluí-los no banco de funcionários. Entretanto, ainda é preciso preencher alguns requisitos para participar do projeto. O grau da síndrome deve se enquadrar ao que antes era chamado de síndrome de Asperger, um quadro mais leve de autismo.
Hoje, essa condição é classificada como autismo de alto funcionamento. “Entre suas principais características, o portador dessa síndrome apresenta habilidades muito desenvolvidas em assuntos específicos e tem o foco além do comum nessas áreas”, explica o neurologista José Salomão Schwartzman, da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Por isso, muitas vezes são tidos como gênios ou superdotados. No caso de Victória, a aptidão excepcional apareceu logo cedo. “Comecei a aprender código Morse e a lidar com eletrônica básica com 3 anos de idade”, conta. Seu passatempo preferido era montar e desmontar objetos eletrônicos, como televisão, videogame e secador de cabelo. Aos 17 anos, foi aprovada no curso de física na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Entre a turma da Specialisterne, ela desenvolve as tarefas mais rapidamente. Leva vinte minutos, cerca de um terço do tempo dos demais, para montar o robô de Lego. Apesar de não haver uma pesquisa brasileira que mapeie o número de autistas no país, especialistas no assunto estimam a existência de aproximadamente 244 000 pessoas diagnosticadas com a síndrome na capital. “Desse total, cerca de 10% exibem habilidades fora do comum”, calcula Joana Portolese, neuropsicóloga do Hospital das Clínicas.
autistas  Brito: ouvido capaz de reconhecer as notas musicais até de um alarme de carro (Foto: Rogerio Albuquerque)

É o caso de Nicolas Brito, 16, que possui ouvido absoluto, o nome que se dá à capacidade de percepção musical acima do normal. Ele sempre teve aptidão para instrumentos. Quando criança, não conseguia falar, mas aprendeu sozinho todas as notas musicais. Começou a fazer aulas de piano aos 9 anos. Pouco tempo depois, tocava inteira a música One, do Metallica, com duração de mais de sete minutos. “Consigo distinguir os tons de um alarme de carro ou de uma batida na parede”, afirma. Só aos 12 anos passou a conversar normalmente. Hoje, viaja ministrando palestras sobre o assunto com a mãe, Anita. O dom de Fernanda Nascimento também veio cedo. Aos 3 anos já demonstrava destreza em desenhos. “Ela só foi se comunicar propriamente com 11 anos; por isso interagíamos com a ajuda de imagens”, lembra a mãe, Regiane.

A menina, que tem hoje 22 anos, conseguiu recentemente trabalhar como freelancer de ilustração em pequenas publicações. Entretanto, ainda enfrenta preconceito na hora de arranjar um emprego fixo. “Adoraria trabalhar com desenho animado”, sonha. Além disso, exibe outra capacidade peculiar. Apaixonada por aviões, é capaz de reconhecer o modelo da aeronave apenas pela luz emitida no céu ou pelo barulho da turbina. Sabe de cor todas as rotas internacionais de voos que passam pelo Brasil. “Costumo ir até Guarulhos nos fins de semana para fotografar os jatos”, diz.
Outro que demonstra ter memória acima do normal é o estudante Thiago Kauan, de 18 anos. O jovem domina o “calendário permanente”. Basta fornecer uma data completa para ele ditar, confiante, qual foi o dia da semana correspondente. “Meu filho sabe exatamente o que fez em 12 de abril do ano passado, por exemplo”, admira-se Bia França. Segundo Pablo Mas, da Specialisterne, essas competências são ainda subutilizadas no mercado. “Em geral, indivíduos assim trabalham com muita constância, contam com excelente memória e uma capacidade visual extraordinária. Além disso, são honestos, gostam de fazer tarefas repetitivas e se mostram perfeccionistas”, afirma. 
Por dentro do mundo deles
As características dos autistas de alto funcionamento
› Têm grande dificuldade de interagir com outras pessoas e realizar atos simples, como olhar nos olhos de alguém
› Exibem reações incontroláveis, desde estalar os dedos obsessivamente até gritar sem motivo e bater em si mesmos
› Costumam mostrar habilidades profundas e inexplicáveis em áreas específicas do conhecimento
› Aprendem tardiamente ações comuns na infância, como falar, andar, ler e escrever
› Specialisterne. Avenida Angélica, 2447 (conjunto 25), Consolação, tel. 3053-0471. Inscrições para a próxima turma, em março, pelo e-mail fernanda.lima@specialisterne.com





Austríacos desenvolvem tablet voltado para deficientes visuais

Usando tecnologia de “líquido inteligente” para converter texto em braille em seu display, BLITAB promete ser de grande utilidade

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   O BLITAB é semelhante a um leitor de e-book. (Foto: BLITAB / Divulgação)

Existe atualmente uma vasta quantidade de informação disponível ao nosso alcance, mas uma tela de toque padrão não tem muita utilidade para os deficientes visuais. A austríaca BLITAB quer mudar isso, pretendendo lançar um tablet que propõe um método de conversão de texto em braille na tela.

“BLITAB é o primeiro tablet tátil do mundo para deficientes visuais,” afirma a empresa. “Nosso tablet é um dispositivo de última geração para leitura e escrita que exibe uma página inteira de texto em braille, sem quaisquer elementos mecânicos.”
Como a empresa explica ainda, o BLITAB é semelhante a um leitor de e-book, mas tem uma exposição líquida inteligente que cria “pequenas bolhas físicas” em sua superfície, ao invés de utilizar recursos visuais em uma tela de LCD tradicional. Graças à tecnologia Liquid Smart, essas bolhas se transformam em texto e uma página inteira pode ser lida e escrita em braille através do Teclado Perkins. O software do aparelho também pode reconhecer o texto a partir de um drive USB ou uma página web e imediatamente converte as letras na tela.
Vários produtos até agora têm tentado fornecer uma interface em braille, mas até agora esses dispositivos não foram acessíveis e portáteis o suficiente. Nos existentes, a conversão em braille vem de forma desajeitada, e os add-ons que se integram a um dispositivo móvel ou um a desktop exibem apenas alguns caracteres de cada vez, não documentos inteiros. Por outro lado, o BLITAB pode entregar 13 a 15 linhas por vez, sem qualquer add-on.
A empresa possui atualmente um protótipo funcional do tablet BLITAB para deficientes, mas ainda precisa trazer um produto final para o mercado. É possível que a BLITAB lance o tablet em algum momento de 2016, mas os austríacos ainda estão tentando angariar fundos para isso se tornar realidade. Enquanto isso, confira o vídeo abaixo para ter uma idéia melhor do conceito.
Fontes: Diário de Pernambuco - pessoascomdeficiencia.com.br