sábado, 23 de março de 2019

Volta de menino com doença rara ao Brasil é adiada após infecção e família pede voo com UTI móvel

Davi Miguel viajaria nesta quinta-feira (21), mas não foi liberado por médicos em Miami, diz mãe. Há 3 anos nos EUA, criança teve retorno confirmado após ser considerado inapto para transplante.

Por Rodolfo Tiengo, G1 Ribeirão Preto e Franca

Davi Miguel voltará ao Brasil após passagem de três anos pelos EUA  — Foto: Reprodução/Facebook
Davi Miguel voltará ao Brasil após passagem de três anos pelos EUA — Foto: Reprodução/Facebook

viagem de volta ao Brasil do menino Davi Miguel Gama, de 4 anos, foi adiada depois que o menino teve uma infecção no sangue. A família pediu à Justiça Federal que, em vez de um voo comercial, o Ministério da Saúde providencie uma aeronave com Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para o retorno da criança em data ainda não definida.

"Depois dessa intercorrência com o Davi a gente vai ver se consegue levá-lo com UTI móvel. É a vida dele que está em jogo, não a vida dos médicos aqui que falam que ele pode ir de voo comercial", disse a mãe, Dinea Gama, em um vídeo transmitido pela internet na quarta-feira (20).

O juiz federal Marcelo Duarte da Silva solicitou que a União se manifeste sobre o pedido no prazo de três dias e estime o tempo necessário para providenciar o retorno por UTI móvel, caso essa modalidade seja definida.

Procurado, o Ministério da Saúde informou que ainda não foi comunicado sobre o adiamento da viagem. "Qualquer decisão sobre o caso, esta será imediatamente encaminhada à área técnica responsável para providências devidas", comunicou.

   Vìdeo mostra o menino Davi Miguel em hospital de Miami. Viagem de volta ao Brasil foi adiada por causa de infecção — Foto: Reprodução/Facebook
Vìdeo mostra o menino Davi Miguel em hospital de Miami. Viagem de volta ao Brasil foi adiada por causa de infecção — Foto: Reprodução/Facebook

Volta adiada
A criança de Franca (SP), que tem uma doença rara no intestino e há três anos vive nos EUA, passou mal no último domingo (17) e não foi liberado pelos médicos, segundo informações da família e uma advogada.

Davi e seus pais partiriam de Miami na noite de quinta-feira (21) com chegada a São Paulo na madrugada do sábado (23).

O retorno ao Brasil, onde o paciente será acompanhado pelo Hospital Municipal Infantil Menino Jesus, em São Paulo (SP), foi definido pela Justiça Federal depois que a equipe que atende o menino desde 2015 no Jackson Health Memorial apontou que ele nunca teve condições médicas de ser submetido ao procedimento.

Depois de ter dores na barriga e febre, o menino foi atendido e medicado com antibióticos, e seria liberado até esta quinta, mas não poderia embarcar na data marcada, segundo a mãe.

"Se tudo correr bem amanhã [hoje] a gente está de alta, vai pra casa, mas aí agora é esperar uma decisão para que seja marcada uma nova data para ele ir ao Brasil", disse Dinea.

Segundo a advogada, a família vai tentar a devolução do dinheiro das passagens aéreas.

O menino Davi Miguel, de Franca (SP), se mudou para os EUA para tentar transplante contra doença rara — Foto: Jesimar Gama/ Arquivo pessoal
O menino Davi Miguel, de Franca (SP), se mudou para os EUA para tentar transplante contra doença rara — Foto: Jesimar Gama/ Arquivo pessoal

Transplante

Antes da decisão que condenou a União a pagar os custos, os pais, Jesimar e Dinea Gama, mobilizaram uma campanha que arrecadou R$ 1,5 milhão e contou até mesmo com a ajuda de famosos. Parte do dinheiro foi usado nas despesas pessoais do casal e do filho, conforme determinado pela Justiça.

Em 2015, Davi Miguel foi aceito no Jackson Memorial Hospital, único centro médico no mundo habilitado para o procedimento em crianças com peso entre sete e dez quilos. Porém, consta nos autos do processo que, ao ser submetido a uma avaliação pela equipe de especialistas em Miami, verificou-se que o menino não estava apto ao transplante.

Os pais afirmam que Davi Miguel foi retirado da lista dois meses após a chegada. No entanto, em novembro de 2018, o Jackson Memorial Hospital informou ao G1 que a criança nunca integrou a lista nacional.

Bebê Davi Miguel com os pais após decisão da Justiça que exigiu custeio de cirurgia — Foto: Dinea Gama/Arquivo Pessoal
Bebê Davi Miguel com os pais após decisão da Justiça que exigiu custeio de cirurgia — Foto: Dinea Gama/Arquivo Pessoal

Acordo para retorno ao Brasil

Em fevereiro de 2018, o Ministério da Saúde encaminhou um e-mail à Justiça Federal para informar que o médico havia recomendado o retorno de Davi Miguel ao Brasil.

Diante da inviabilidade do transplante, por ora, em razão da perda dos acessos venosos e da falta de perspectiva quanto à recuperação deles, a família e a União manifestaram interesse no retorno e ao prosseguimento do tratamento no Brasil.

Em dezembro de 2018, um acordo foi firmado na Justiça Federal com os trâmites para o retorno da família. Davi Miguel deverá ser internado no Hospital Municipal Infantil Menino Jesus, administrado pelo Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Ele passará por exames e a equipe deverá fazer a compatibilização do tratamento para os protocolos nacionais, além de treinar a família para cuidar dos cateteres usados para a nutrição parenteral.

As três passagens aéreas para São Paulo, ao custo de 1,8 mil dólares, já tinham sido compradas por Jesimar, que recorreu a um empréstimo para o pagamento. Segundo o Ministério da Saúde, os valores seriam reembolsados após a apresentação dos recibos. O remanescente das despesas da família nos EUA terão que ser pagos pela União.

Após a internação, o serviço de home care será implementado em Franca (SP), onde Davi Miguel vai voltar a morar com os pais. Ele continuará a passar por consultas periódicas em São Paulo. Todos os recursos são provenientes do Sistema Único de Saúde (SUS) e o tratamento está assegurado pelo período que Davi Miguel precisar.

O acordo ainda prevê que R$ 10 mil do saldo remanescente da campanha sejam reservados para repasse aos pais durante cinco meses, tempo para readaptação. Caso seja insuficiente, a União deverá fazer a complementação.

Fonte: g1.globo.com

Cadeirante se arrasta na rua para subir em ônibus em SP: 'Humilhação' - Veja o vídeo

Denúncia foi feita pelo estudante Paulo Hilário, que enfrentou a situação após o elevador do veículo quebrar. Uma semana depois, o equipamento ainda não havia sido arrumado.

Por Isabella Lima, G1 Santos

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Cadeirante se arrasta para chegar até cadeira de rodas em ônibus de Santos, SP

O estudante de Direito Paulo Hilário dos Santos, de 56 anos, morador de Santos, no litoral de São Paulo, afirma ter passado por situações "humilhantes" nas últimas semanas ao utilizar o transporte coletivo da cidade. No último dia 14, o elevador do veículo quebrou e ele precisou se arrastar para subir no ônibus. Uma semana depois, ele foi impedido de subir no transporte, já que o dispositivo ainda não havia sido consertado.

Clique AQUI para ver o vídeo.

"Foi uma situação humilhante e discriminatória. Primeiro por eu precisar me arrastar para subir, e mesmo uma semana depois, o motorista parar e me falar 'não está funcionando, espera outro que esse aqui está quebrado'", relata.

Paulo também se queixa das consequências causadas pelo problema, como o atraso nas viagens e o constrangimento ao precisar usar o transporte público. A grande indignação do estudante é a falta de respeito sofrida pelos cadeirantes. "Muitas vezes já tive que esperar o próximo ônibus. O veículo nem poderia estar trafegando na avenida assim. Imagina quantos cadeirantes ou pessoas com deficiência ele deixou pelo caminho", coloca.

Morador do Morro da Nova Cintra, ele é diabético e devido as consequências da doença, começou a se locomover com a ajuda da cadeira de rodas. "O mesmo ônibus e o mesmo defeito rodando pela cidade mesmo após o ocorrido é muita falta de acessibilidade", diz.

O estudante relata que no dia que precisou se arrastar para subir no veículo, se sentou ao chão da calçada, perante o ônibus, e subiu se arrastando de degrau em degrau, até chegar na cadeira de rodas, com a ajuda de passageiros. De acordo com ele, o procedimento foi o mesmo na hora de descer, sem nenhuma ajuda do motorista.

"Utilizo o transporte diariamente. É revoltante. Estou nessa luta há 20 anos e isso acontece muito. Já até peguei ônibus com goteira e infiltração descendo nas minhas costas", finaliza.

                                  Paulo não pôde pegar ônibus por elevador ainda estar quebrado dias depois de se arrastar para subir em transporte em Santos, SP — Foto: Arquivo pessoal/Paulo Hilário
Paulo não pôde pegar ônibus por elevador ainda estar quebrado dias depois de se arrastar para subir em transporte em Santos, SP — Foto: Arquivo pessoal/Paulo Hilário

Piracicabana

A Viação Piracicabana, responsável pela frota de ônibus, informa que todos os veículos cumprem 100% as normas de acessibilidade da ABNT NBR 14022:2006 e passam por manutenção preventiva e corretiva periodicamente. Caso haja algum problema com o elevador no trajeto da linha, os motoristas são orientados a informar a empresa para que seja realizado o reparo necessário.

A empresa afirma que a funcionalidade do equipamento não depende somente de manutenção e conservação por parte da concessionária, pois se trata de um item elétrico passível de falhas e que sofre influências externas, como alagamentos constantes ao longo do último verão, bem como as condições viárias que acabam se degradando com a chuva.

"Pedimos aos clientes que, ao identificarem qualquer inconformidade durante a viagem, entrem em contato com a Central de Atendimento (0800 771 7778) informando a linha, horário e prefixo do ônibus, para que possamos avaliar e melhorar cada vez mais o serviço prestado", coloca.

CET

A CET-Santos, como gerenciadora do contrato do transporte coletivo na Cidade, relata que promove fiscalização diária na frota para verificar as condições mecânicas, de limpeza, funcionamento do elevador para deficientes etc. O objetivo é constatar problemas ou qualquer outra irregularidade que possa prejudicar o serviço. Quando a falha é constatada, o contrato prevê aplicação de multas e advertências. O referido veículo já foi recolhido para regularização e outro foi inserido na frota, a fim de que o serviço não seja prejudicado.

A CET também destaca que para que possa aprimorar a fiscalização, é necessária a participação da população, comunicando qualquer anormalidade no sistema de transporte. As denúncias devem ser feitas pelo telefone 0800.7719194, opção 2. É importante ter em mãos o número da linha, prefixo e horário estimado da viagem.

Fonte: g1.globo.com

Tem Diferença?! leia o artigo da especialista Lílian Kuhn sobre deficiência auditiva

Profissionais que participam da série escreveram artigos com outras informações que podem ser úteis.

Por Como Será


Fonoaudiologia, deficiência auditiva e inclusão 
Lílian Kuhn - Fonoaudióloga Especialista em Audiologia e Doutora em Linguística. Diretora do Espaço ComPasso, clínica multidisciplinar em São Paulo.

O nascimento de uma criança traz muitas expectativas sobre as habilidades que ela terá que desenvolver, inclusive quando ela começará a falar. Uma das condições necessárias para o desenvolvimento de linguagem é ter uma audição preservada. Estudos científicos mostram que, já na 12ª semana de gestação, o sistema auditivo do feto tem um funcionamento básico, que vai sendo aprimorado e possibilita o reconhecimento da voz materna, sons familiares e do organismo da mãe na 21ª semana de gravidez. Ao nascer, o recém-nascido consegue diferenciar os sons da sua língua materna dos demais idiomas. Incrível, né?

Entretanto, os dados atuais da Organização Mundial da Saúde mostram que, a cada 1 mil bebês nascidos, quatro têm deficiência auditiva. Existem alguns fatores pré-natais, perinatais ou pós-natais que podem causar deficiência auditiva (DA). E as causas mais comuns em bebês recém-nascidos são, segundo o Manual de Diretrizes de Atenção à Triagem Auditiva Neonatal (Ministério da Saúde, Setembro/2012): Hereditariedade ou antecedente familiar de surdez permanente com início desde a infância; Permanência na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por mais de cinco dias; Exposição a medicamentos (ex: antibióticos) que podem prejudicam a audição; Icterícia; Dificuldade grave de respiração ao nascer; Uso de ventilação mecânica para respiração; APGAR neonatal abaixo do esperado; peso ao nascer inferior a 1.500 gramas; Infecções bacterianas ou virais congênitas ou pós-natais (toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus, etc); Anomalias craniofaciais envolvendo orelha e osso temporal; Síndromes genéticas que usualmente expressam deficiência auditiva, tais como Down, Waadenburg e Usher.

Dependendo da época de aparecimento da perda auditiva - pré ou pós-lingual (antes ou depois do desenvolvimento da linguagem) –, das suas características (causa, tipo, grau, configuração), os impactos na vida de uma pessoa com deficiência auditiva serão maiores ou menores. Sabe-se que, como em outros casos de alteração de desenvolvimento, quanto mais cedo for realizada a intervenção, menores tendem a ser as consequências. Então, para garantir que os bebês que nascem com deficiência auditiva receberão tratamento até o 3º mês de vida, existe um procedimento que é realizado ainda na maternidade: a importante e necessária Triagem Auditiva Neonatal (TAN).

Também conhecido como “teste da orelhinha”, o exame é um procedimento indolor e rápido, realizado por médicos ou fonoaudiólogos, entre a 24ª e a 48ª hora após o nascimento. Considerada direito do recém-nascido desde agosto de 2010, de acordo com a Lei Federal no. 12.303), o teste precisa ser refeito entre 15 e 30 dias de vida caso o resultado não seja conclusivo. E caso realmente haja uma alteração, o bebê deve ser encaminhado para um Serviço de Saúde Auditiva a fim de que a deficiência auditiva seja confirmada e a intervenção iniciada. Idealmente, aos seis meses de vida a criança já deve iniciar o processo de reabilitação auditiva.

Já para os bebês que não tiveram alteração na TAN, o monitoramento das habilidades de audição, fala e linguagem deve acontecer por meio dos marcos do desenvolvimento (OMS, 2006) durante as consultas de rotina da pediatria.

Independentemente da idade da pessoa e das características da deficiência auditiva da mesma, a alteração causa um grande impacto nos aspectos de linguagem, comunicação e – eventualmente - podem refletir em barreiras para escolarização e socialização.

A Fonoaudiologia é a profissão responsável por pesquisa, prevenção, avaliação e terapia nas áreas de comunicação oral e escrita, audição, fala e voz. Desta forma, nos casos de deficiência auditiva, o fonoaudiólogo está envolvido desde a realização do diagnóstico, depois nas etapas de indicação, seleção e adaptação de aparelhos de amplificações sonoras individuais ou de dispositivos de implante coclear e, em paralelo, no processo terapêutico fonoaudiológico. Assim, após a confirmação da perda auditiva e a colocação dos aparelhos mais adequados para cada caso, inicia-se essa etapa mais longa, a terapia fonoaudiológica, a qual pode passar por fases de maior ou menor intensidade, com consultas três vezes por semana ou apenas um acompanhamento mensal.

Durante os encontros, o profissional auxilia o paciente a desenvolver gradualmente as habilidades relacionadas ao ato de ouvir, tais como detectar um som, discriminar e reconhecê-lo, alcançando as fases mais complexas, quando ele poderá ser capaz de entender a voz humana e, em muitos casos, até falar ao telefone e ouvir músicas! Em paralelo, o aprimoramento da produção de fala, uso de vocabulário adequado e estruturas frasais que permitam um bom entendimento do discurso da pessoa com deficiência auditivo também são pontos a serem desenvolvidos com a ajuda do profissional. Em casos de terapia infantil, todo o processo é feito de forma lúdica com brincadeiras e músicas infantis. Para os mais velhos, alguns exercícios formais e auxílio da tecnologia (youtube, rádio digital, aplicativos de jogos e softwares terapêuticos) funcionam muito bem – com moderação, é claro.

Alcançar um bom prognóstico para um individuo com deficiência auditiva significa estar apto a exercer todas as funções sociais - estudar, se relacionar, trabalhar - que lhe competem, apesar da limitação auditiva com a qual ele continuará convivendo. Para tanto, diversos fatores são relevantes, sendo a terapia fonoaudiológica especializada um dos pilares para a excelência desse resultado. Outro aspecto que deve ser levado em conta é a participação familiar no processo. Quanto mais os pais e cuidadores souberem como estimular as crianças, mais oportunidades cotidianas ela terá de aprender novas palavras e colocar em uso as que já foram trabalhadas nas sessões de terapia. Vale destacar também o papel fundamental das instituições de ensino e/ou empresas empregadoras, realizando adaptação dos materiais, antecipação de conteúdo pedagógico e acomodação de funções e ambientes do local.

A inclusão social das pessoas com DA é um desafio em grande parte dos casos, porque, além de todos os fatores primordiais citados para uma boa resolução, precisamos de mais recursos públicos para a população que não pode arcar com os custos dos dispositivos e das terapias, profissionais especializados para trabalhar na área e conhecimento da população para garantir que todos os bebês passarão pela TAN, a fim de agilizar a intervenção pós-diagnóstico.

Para finalizar, vale lembrar de dois princípios que permeiam a nossa área de atuação. O primeiro é que o trabalho de reabilitação fonoaudiológica não prevê a normalização ou negação da existência auditiva, mas sim o fornecimento de instrumentos e estratégias para que a pessoa com deficiência possa viver com qualidade. E, por último e tão importante quanto: independente do diagnóstico, ele nunca é uma sentença e sim uma indicação de caminho a ser trilhado.

Fonte: g1.globo.com

'Meu filho não tem o rosto que as pessoas querem ver', diz mãe de jovem negro com Down

Neste Dia Internacional da síndrome de Down, mães criticam falta de negros com a condição genética nas campanhas da data; trissomia não depende da cor de pele, mas a maioria das iniciativas de inclusão mostra só brancos

CAIO NASCIMENTO* - O ESTADO DE S.PAULO - *Estagiário sob a supervisão de Charlise Morais

 Trissomia do cromossomo 21 afeta brancos e negros da mesma forma, mas só uma em cem fotos no Google sobre o tema mostra afrodescendentes. Na imagem, Evanira conversa com seu filho, o Alexsander.
Trissomia do cromossomo 21 afeta brancos e negros da mesma forma, mas só uma em cem fotos no Google sobre o tema mostra afrodescendentes. Na imagem, Evanira conversa com seu filho, o Alexsander. Foto: Ricardo Lima / Fundação Síndrome de Down.

"Olha, mãe. Ele é parecido comigo", disse Alexsander Marcílio, de 19 anos, ao encontrar um menino negro com Síndrome de Down no YouTube. O rapaz viu poucas vezes pessoas com a sua cor de pele e condição genética nas ONGs que frequenta, o que incomoda sua mãe, Evanira Aparecida, de 58 anos. "A sociedade acha que pessoas negras com Down não existem. Isso afeta a autoestima", lamenta.

Moradora de Hortolândia, no interior de São Paulo, Evanira é dona de casa e cuida do filho ao lado de seu marido Wagner Marcilio, 61, que trabalha como pedreiro. A mulher atua na defesa dos direitos do jovem desde o nascimento dele, foi conselheira municipal de saúde de Campinas e já participou de fóruns internacionais sobre a trissomia.

Mesmo assim, nunca ganhou os holofotes das campanhas de inclusão. "Sempre me envolvi nos eventos e eu era a única mãe negra neles. Mas nunca fui chamada para nada, porque meu menino é negro. Ele não tem o rosto que as pessoas querem ver", critica.

O geneticista e pediatra Zan Mustacchi explica que o incômodo da mãe faz sentido, uma vez que a incidência de Down é a mesma em negros, brancos e qualquer outra etnia ao redor do mundo. Isso porque a síndrome se dá por uma divisão celular que resulta em um material genético extra do cromossomo 21, sem qualquer relação com a cor da pele.

'O empoderamento negro não chegou para quem tem síndrome de Down'

A reclamação de Evanira reflete a desinformação que existe na sociedade. Muitas pessoas acham que a síndrome de Down só afeta brancos, e dos 56 primeiros vídeos do YouTube sobre o tema, apenas um mostra um negro com essa característica. No Google Imagens, a proporção piora: só dois são afrodescendentes entre as 200 primeiras fotos que aparecem no site. Esses números contradizem a realidade da população brasileira, em que 54% é afrodescendente.

Fóruns da internet demonstram desconhecimento e preconceito: 'Eles não precisam ter síndrome de Down'
Fóruns da internet demonstram desconhecimento e preconceito: 'Eles não precisam ter síndrome de Down' Foto: Captura de tela do Yahoo Respostas, fóruns Cifra Club e IGN Brasil

De acordo com a presidente da Federação das Associações de Síndrome de DownLenir Santos, que atua há 33 anos na causa, parte do apagamento se deve ao perfil social dessas famílias negras afetadas, uma vez que não chegam aos centros de grande visibilidade. A maioria é pobre, não tem condições de arcar com as terapias médicas e algumas sequer sabem os cuidados especiais que se deve ter com quem tem a trissomia do cromossomo 21. "O empoderamento negro não chegou para quem tem síndrome de Down. Muitos afros estão se empoderando, encontrando lugar na sociedade, mas o com deficiência não. A imagem dele continua velada", analisa.
Alexsander, por exemplo, só participou até hoje das atividades da Fundação Síndrome de Down, em Campinas, mesmo com o ativismo de sua mãe. Por vir de família humilde, ele depende da ajuda da prefeitura de Hortolândia para receber tratamentos dentários especiais, ir ao fonoaudiólogo e fazer aulas de dança para estimular a coordenação motora. Além disso, uma psicopedagoga particular atende o rapaz de graça. "Como a gente é pobre, usamos as armas que temos", conta Evanira.

Vale ressaltar que não há dados oficiais sobre a o perfil das pessoas com a trissomia do cromossomo 21. A única informação que a comunidade médica possui é a de que nasce um a cada 750 mil com a condição genética no Brasil. Lenir Santos explica que essa escassez de informação dificulta mapear o gênero, faixa etária e etnia das pessoas mais vulneráveis, complicando a criação de políticas públicas mais específicas.

Alexsander gosta de tocar violão e dançar. Evanira e Wagner Marcílio acompanham as habilidades do jovem.
Alexsander gosta de tocar violão e dançar. Evanira e Wagner Marcílio acompanham as habilidades do jovem. Foto: Ricardo Lima / Fundação Síndrome de Down

Neste ano, a única ONG que mostrou a diversidade racial no Dia Internacional da Síndrome de Down foi o Instituto Olga Kos de Inclusão Cultural. Assista aqui.

Herança física também ajuda a invisibilizar o negro com Down

O geneticista Zan Mustacchi aponta que a pouca evidência das pessoas negras com a condição genética se deve ao fato de os traços fenotípicos dos afrodescendentes do Congo - que vieram para o Brasil na época da escravidão - serem próximos dos que as pessoas com Down têm. O nariz achatado, rosto arredondado, a fissura palpebral e a junção entre o nariz e o olho são características existentes em ambos. Assim, fica ainda mais evidente a condição genética quando um branco aparece com essas feições. "O negro com Down não é tão percebido, diferente dos que são anglo-saxões, por exemplo", analisa.
A vertente científica, no entanto, não diminui o desejo de Evanira em um dia ver seu filho aparecendo tanto quanto os brancos nas campanhas publicitárias e reportagens. Aliás, o lema do Dia Internacional da Síndrome de Down deste ano é "ninguém fica para trás", mas o coração da mãe não consegue enxergar verdade nesta frase ao sentir todos os dias a invisibilidade racial e a desigualdade social que existe no Brasil. "Nestes 19 anos lutando, meu menino não entrou em destaque nenhuma vez. Se a sociedade não levantar uma bandeira, talvez a mudança nunca aconteça."

Alexsander Marcílio pousa ao lado do pai, Wagner, enquanto andam de bicicleta. Família acredita que a representatividade das pessoas negras com Down é utópica diante do que veem nos dias de hoje.
Alexsander Marcílio pousa ao lado do pai, Wagner, enquanto andam de bicicleta. Família acredita que a representatividade das pessoas negras com Down é utópica diante do que veem nos dias de hoje. Foto: Ricardo Lima / Fundação Síndrome de Down


Gol recebe selo de “Acessibilidade Arquitetônica”

A Gol recebeu o selo de “Acessibilidade Arquitetônica” para o projeto da rampa de acesso


A Gol recebeu o selo de “Acessibilidade Arquitetônica” para o projeto da rampa de acesso. Ele permite o embarque e desembarque remoto de clientes no aeroporto de Congonhas (SP).

O certificado, aliás, é um reconhecimento às empresas que respeitam as normas de acessibilidade. E, também, é concedido pela Comissão Permanente de Acessibilidade (CPA). O órgão é vinculado à Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência (SMPED), da Prefeitura de São Paulo.

“Investimos constantemente em frentes de atendimento que proporcionam, além de uma experiência de viagem agradável, a possibilidade de promover a igualdade entre os Clientes e colaborar com o meio-ambiente. É muito gratificante para o nosso time receber este importante reconhecimento do nosso trabalho”, diz o diretor de Operações Aeroportuárias da Gol, José Luiz Belixior Jr.

Já o secretário municipal da Pessoa com Deficiência, Cid Torquato, destaca o significado dessa certificação: “Cada Selo concedido é uma conquista em termos de respeito aos direitos das pessoas com deficiência.

No caso específico, inovador, a GOL conseguiu resolver uma questão chave, o embarque de pessoas com deficiência, principalmente cadeirantes, motivo de muitos problemas e reclamações”.

Sobre a rampa de acesso

Ademais, a rampa é uma iniciativa que faz parte dos investimentos da companhia em acessibilidade e inclusão. E tem, ainda, como objetivo facilitar o acesso às aeronaves, que não possui pontes de embarque – os chamados fingers.

O sistema da rampa é manual e funciona de forma quase idêntica ao das escadas já utilizadas. Sendo, além disso, conectado à aeronave no momento do embarque e do desembarque. O equipamento possui, aliás, abastecimento solar, capaz de tornar autossuficiente a sua iluminação.

A rampa de acesso foi lançada com exclusividade em 2016 nos aeroportos de Congonhas (SP) e Santos Dumont (RJ). Hoje já está, portanto, presente também nos aeroportos de Petrolina (PE), Juazeiro do Norte (CE), Teresina (PI). Além de Rio Branco (AC) e Cruzeiro do Sul (AC), Teresina (PI) e Aracaju (SE).

Pai de 3 meninas, ele quase morreu em acidente e hoje luta por nova prótese.

                  Imagem: Arquivo Pessoal
                     Arquivo Pessoal
                  Marcelo teve a perna amputada após acidente de moto no interior de SP

Bárbara Forte Do BOL, em São Paulo

Marcelo Oliveira Lobo, de 37 anos, estava a caminho da escola das filhas, em Pinhalzinho, no interior de São Paulo, às vésperas do Dia dos Pais, quando se envolveu em um acidente. Ele trabalhava na cidade vizinha de Bragança Paulista (SP) e voltava de motocicleta quando foi atingido por outra moto que não freou na curva, pilotada por um jovem menor de idade. A partir daquele dia, Marcelo teve a vida modificada: ele esteve perto da morte e teve sua perna esquerda amputada.

Sete anos após a batida, ele ainda não recebeu do governo a prótese indicada pelos médicos, usa um modelo que ganhou da empresa onde trabalha há 17 anos e busca, agora, por meio de uma vaquinha virtual, uma nova prótese para que consiga se desenvolver e praticar esportes - uma de suas atividades preferidas antes do acidente.

No relato abaixo, Marcelo conta como, em segundos, sua vida se transformou:

"Eu sempre fui uma pessoa simples, sempre prezei pela minha família. Estou com minha esposa desde os meus 17 anos e tenho três filhas: Maria Clara, de 16 anos, Maria Luiza, de 12, e Maria Carolina, de 11 anos.

Imagem: Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal
Marcelo rodeado pelas mulheres de sua vida: a esposa e três filhas

Era véspera do Dia dos Pais, uma sexta-feira, quando eu pedi ao meu chefe para sair um pouco antes do serviço para ir à escola das meninas. Eu estava feliz da vida, pois eu estava num momento muito bom no trabalho, havia acabado de ganhar uma promoção, e também porque iria viajar com minhas filhas e esposa para Olímpia (SP) no fim de semana.

Saindo 15 minutos mais cedo, eu poderia ir com calma na estrada, sem pressa. A escola delas, em Pinhalzinho, ficava a cerca de 20 minutos da empresa onde eu trabalho, em Bragança. Eu já estava praticamente dentro da cidade quando, na última curva, antes de chegar ao município, tudo aconteceu.

Um menino de 15 anos que vinha pilotando uma moto, no sentido oposto, passou reto na curva e me atingiu. Foi muito rápido!".

Ele bateu do lado esquerdo da moto e me quebrou inteiro: a clavícula do lado esquerdo, duas costelas e meu punho quebraram, deu luxação no braço, o fêmur sofreu uma fratura exposta e, do joelho para baixo, ficou tudo estraçalhado.

A primeira grande luta - por um fio

Foi ali que teve início minha primeira grande luta para sobreviver. Eu não me lembro direito do que aconteceu, do jeito que eu caí, do jeito que eu rolei, mas dizem que eu fiquei no chão tentando tirar o capacete, tentando me mexer. Quem estava ali me socorrendo falava para eu ter calma.

Eu tenho um amigo de infância que trabalhava, na época, como técnico de raio-x. Fábio nunca aceitou pedido acompanhar os socorristas. Mas, naquele dia, ele diz que sentiu alguma coisa; o motorista da ambulância o chamou para socorrer uma vítima de acidente de moto e ele foi sem hesitar. Quando viu que se tratava de mim, ele sentiu uma responsabilidade maior ainda em preservar minha vida. Como o Fábio era da área de saúde, ele sabia da gravidade.

Imagem: Getty Images
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Amigo de infância estava em ambulância que resgatou Marcelo (foto ilustrativa)

Eles falaram que a minha perna esquerda estava dobrada, como se estivesse debaixo do meu braço. O Fábio que fez o torniquete, estancou o sangue e agilizou para ir o mais rápido para o Hospital Universitário São Francisco de Assis, em Bragança Paulista, o único que teria condições de me atender. A ambulância de Pinhalzinho, infelizmente, não era muito bem preparada, mas, até o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) chegar, talvez fosse tarde demais.

Quando eu cheguei ao hospital universitário de Bragança, o pessoal diz que eu estava em estado de choque. O médico deu uma injeção de adrenalina no coração e fez massagem cardíaca; deu mais uma injeção e fez a segunda massagem - eu não voltei. Os enfermeiros me disseram depois que, antes de tentar novamente, o doutor falou para a equipe que faria a terceira e última tentativa. 'Se ele não voltar, não tem mais o que fazer'. Ele deu a terceira injeção de adrenalina, massageou e eu voltei.

Já foi a primeira vitória, comemoração até de quem eu não conhecia".

A segunda grande luta - a primeira cirurgia

É aí que entram os ortopedistas que fizeram muita diferença na minha vida:

O doutor Daniel era pequenininho, magrinho. Eu me recordo que, logo após sair da UTI (Unidade de Terapia Intensiva), o encontrei e ele contou os detalhes da minha primeira cirurgia. Ele falou assim: 'Marcelo, você se lembra de mim?'. E eu me desculpei, pois realmente não lembrava de nada. Aí ele falou: 'Você não tem noção da responsabilidade que me deu no dia do seu acidente, quando você entrou na UTI. Você estava num estado que não tinha condição nenhuma de falar, de fazer qualquer gesto, e eu não sei de onde você tirou forças, mas você pegou no meu braço, olhou no meu olho, e falou assim:

Doutor, não me deixa morrer porque eu tenho três filhas para criar"

Aí ele completou: 'Marcelo, eu já estava motivado para fazer o meu trabalho, eu já tenho uma certa experiência, eu sou bom no que eu faço, mas a responsabilidade que você me deu, você não sabe o quanto você me motivou, o quanto você me deixou preocupado caso eu não conseguisse te ajudar a sair daquela'.

Eles fizeram a cirurgia e, ao final, após cinco horas de tentativa de reconstituir a minha perna, o médico falou para eu levantar a mão direita. Eu levantei. Aí ele falou para eu levantar a mão esquerda, e eu levantei.

Depois desse momento, ele me contou que falou para a equipe inteira: 'Galera, eu estou muito feliz com o que eu estou vendo hoje. Eu nem sei se esse rapaz vai sobreviver, pode ser que ele morra daqui umas horas, porque a gente sabe que a situação dele é muito crítica. Mas eu estou muito feliz porque, quando um paciente me responde como ele me respondeu agora, a gente sabe que, lá dentro dele, ele está lutando para se manter vivo'. Os profissionais ficaram emocionados. Muitos deles, depois, contaram-me a mesma história. Essa foi a segunda luta, para sobreviver à cirurgia. Eu já tinha perdido muito sangue, mas queria muito estar vivo.

A terceira grande luta - coma e amputação.

Imagem: Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal
Marcelo pediu a enfermeiras que dissessem o quanto ele amava a esposa (foto)

Dois dias após a cirurgia, no domingo do Dia dos Pais, eu estava muito fraco. Eles resolveram me induzir ao coma, falaram que iam me intubar, me deixar naquele estado de tranquilidade, para meu corpo se fortalecer.

Eles falaram que eu pedia muito, para todo mundo, que dissessem à minha esposa e às minhas filhas que eu as amava muito. Eles me acalmavam, diziam que eu mesmo poderia falar a elas depois que eu me recuperasse. E eu pedi a todos os enfermeiros para que, caso eu não voltasse, eles dissessem para elas o que eu sentia.

Meu maior medo era de morrer"

Foram dez dias em coma, toda a cidade entrou em campanha por doação de sangue, mais de 200 bolsas foram coletadas no banco de sangue da região.

Num dos dias eu fiquei muito mal. Eu já estava havia dois dias com o aparelho fazendo 100% da função da respiração por mim quando uma médica que me atendia falou para minha esposa que, se ela tivesse muita fé, era a hora de ela usar a fé dela, porque, se eu piorasse mais um fio de cabelo, eles não teriam mais o que fazer por mim.

Foi quando os ortopedistas - o doutor Daniel, que eu mencionei antes, e o doutor Valter, que cuida de mim até hoje - chegaram para a minha esposa e para a minha mãe e pediram autorização para amputar a minha perna. Eles alegaram que o procedimento poderia evitar que a infecção ocasionada pelas fraturas chegasse a outras áreas do corpo.

Elas não titubearam e falaram para ele que me queriam vivo, não importava como".

Dois dias depois da amputação, eu já tinha saído do coma. Foi o momento em que eu mais sofri. Quando você volta do coma, você volta muito acelerado. Acredito que os medicamentos atrapalham muito e eu vivi umas experiências muito ruins. Fisicamente e espiritualmente, pois eu tive muitas alucinações, sentia como se fosse uma guerra entre forças que queriam que eu vivesse e outras que eu partisse.

A notícia da amputação

Quando eu saí do coma, eles esperaram eu estar um pouco melhor fisicamente, mas não muito lúcido, ainda, para falar da amputação. Um grupo médico com cerca de oito pessoas se reuniu no quarto onde eu estava internado para dar a notícia.

Imagem: Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal
Marcelo ao lado de fisioterapeuta em reabilitação

'Não sei como você vai enxergar isso, mas o fato de você estar vivo, aqui, agora, conversando com a gente, foi porque, infelizmente, a gente precisou amputar a sua perna. Ou felizmente, vai depender do seu ponto de vista', disse um deles.

Na hora passava um filme na minha cabeça, de toda a minha trajetória. E eu fiquei pensando em como era minha vida antes, como seria daquele dia para frente. Realmente não é fácil receber uma notícia como aquela. Mas, acredite se quiser, eu não consegui ficar triste.

Imagem: Arquivo Pessoal
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Marcelo com a família toda reunida

A única imagem que me vinha na cabeça era eu de pé, porque eu não tinha me visto ainda sem a perna, meio que com a coluna abaixada, recebendo as minhas filhas. Elas vindo correndo me dar um abraço. Minha esposa e todos os meus amigos e familiares atrás delas.

A médica perguntou se eu estava bem, o que eu queria fazer. E eu perguntei: 'Doutora, o único jeito de eu estar aqui foi vocês terem amputado a minha perna?'. Ela disse que foi. Aí eu falei: 'Se o único jeito foi esse, eu sei que vocês fizeram o melhor. Eu estou feliz por estar vivo. Eu quero voltar para a minha família, para os meus estudos, quero voltar a trabalhar, a praticar esporte, atividade física. Eu não sei como vai ser. Mas, se é nesta condição que Deus permitiu que eu estivesse vivo hoje, é porque eu sei que eu vou conseguir superar isso.

Eu topo viver, seguir em frente. Eu não sei o quanto eu vou sofrer, mas eu topo".

O corpo médico não esperava minha reação, porém eu sabia que a luta não era só por mim, mas por todas as pessoas que estavam na torcida, que oraram. A parte psicológica não foi um problema para mim. Essa felicidade em estar vivo, o amor que eu tenho pela minha família, tudo isso foi muito maior.

A quarta grande luta - direitos negados

Claro que eu tive quedas, desânimos. Mas eu fiquei mais estressado, até hoje me atrapalha um pouco, não com a questão de ter uma deficiência física, mas com o processo para conseguir uma prótese digna para um trabalhador, um pai de família.

                    Imagem: Arquivo Pessoal
                        Arquivo Pessoal
Marcelo já participou de competições de corrida com muleta, pois não tem prótese adequada

Eu fiquei no hospital por 42 dias, contando os 14 dias dentro da UTI. Quando eu saí de lá, eu estava bem debilitado, bem magrinho, com 44 quilos. Quatro meses depois, o médico me autorizou a colocar a prótese. Foi aí que começou uma das minhas maiores lutas depois da luta pela minha vida.

Vai fazer sete anos que eu amputei. Sempre contribuí com o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) e ainda não consegui a prótese correta pelo governo. O modelo que eu tenho hoje foi a empresa que me deu. Porém a peça que eles me deram é para quem está aprendendo a andar, para quem está se reabilitando.

A minha prótese atual me limita muito, os movimentos são lentos e eu não consigo fazer muita coisa. Às vezes, chego a cair".

Foram quatro anos longe do trabalho. Durante esse período, eu voltei para a atividade na academia, fui fortalecendo aos pouquinhos, com cuidado. Depois de um tempo, Daniel Dias, aquele atleta paraolímpico, me ajudou com o espaço para treinar, fortalecer. Eu até comecei a gostar de natação, do que não gostava antes.

Em 2016, o médico do INSS me liberou para trabalhar, mesmo sem a prótese adequada (foi disponibilizado um modelo distinto do prescrito pelo médico de Marcelo), prometendo que o correto viria até o fim daquele ano. Até hoje, em 2019, não veio.

Imagem: Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal
Apesar de não ter a prótese correta, Marcelo tenta se adaptar para fazer atividades físicas

Depois que eu comecei a trabalhar, eu fiquei na natação por mais seis meses, mas não consegui manter a rotina. Eu conquistei uma bolsa para voltar a estudar - acabei de me formar em engenharia de produção - e precisei focar no trabalho e nos estudos. Meu trabalho é o mesmo de quando eu saí na época do acidente, de técnico de processos, um pouco mais administrativo do que braçal.

Para não ficar parado, eu acordo às 5h, vou à academia, faço minhas atividades físicas para ter o mínimo de condicionamento, e busco, a partir de uma vaquinha virtual, a oportunidade de não parar nunca mais e ter uma prótese que me ajude a 'voar'".

Posicionamento do INSS

Ao BOL, o INSS afirma que concedeu uma prótese a Marcelo, mas não confirma que o modelo estava errado. O órgão diz ainda que vai verificar qualquer possível falha no caso e pede que o segurado entre com outro pedido de processo de aquisição e que, assim, será avaliada a necessidade de substituição da prótese.

Vaquinha virtual

Causa: conseguir R$ 142 mil para prótese após amputação transfemural (perna esquerda).

Como contribuir? Doando qualquer valor por meio do site de financiamento coletivo. Até a publicação desta reportagem, a vaquinha havia arrecadado 2% da meta. O prazo termina em 13 de abril.

(Em Portugal) Milhões de eleitores com deficiência não poderão votar nas eleições para o Parlamento Europeu

Devido a vários entraves jurídicos e técnicos que continuam a existir em toda a UE, nenhum Estado‑Membro pode assegurar que as eleições serão acessíveis a todos, de acordo com um relatório do CESE,


Em 20 de março, o Comité Econômico e Social Europeu (CESE) publicou um relatório de informação que faz o ponto da situação sobre o exercício do direito de voto das pessoas com deficiência no contexto das eleições para o Parlamento Europeu em maio deste ano.

O relatório, intitulado ‘O direito efetivo das pessoas com deficiência a votar nas eleições para o Parlamento Europeu’, demonstra que, apesar dos diversos instrumentos jurídicos vinculativos que protegem os direitos das pessoas com deficiência na UE, milhões de pessoas não poderão votar nas eleições desta primavera ou terão dificuldades em fazê‑lo.

O relator, Krzysztof Pater, membro polaco do CESE, declarou que “o relatório expõe o lado obscuro da Europa - uma realidade muito aquém das nossas expetativas, dos instrumentos jurídicos internacionais fundamentais e das declarações políticas”.

Referindo‑se à campanha eleitoral recentemente lançada pelo Parlamento Europeu e ao seu lema ‘Desta vez eu voto!’, Krzysztof Pater afirmou que, “aparentemente, para os responsáveis políticos e os meios de comunicação social, o problema resume‑se a encontrar formas de motivar os cidadãos da UE a votar. Enquanto isso, muitos cidadãos com deficiência lamentam, uma vez mais, o facto de não poderem votar devido aos entraves técnicos que ainda enfrentam nos seus países ou de estarem privados desse direito de acordo com a legislação nacional do seu país”.

Segundo o relatório, milhões de eleitores serão demovidos por entraves técnicos nas secções de voto que não têm em conta as necessidades resultantes dos diferentes tipos de deficiência.

Além disso, estima‑se que cerca de 800 mil cidadãos da UE que sofrem de problemas de saúde mental ou de deficiências intelectuais serão privados do seu direito de voto devido às regras nacionais em vigor em 16 Estados‑Membros, o que o CESE considera particularmente preocupante.

Fontes: JM Madeira - tetraplegicos.blogspot.com

(Em Portugal) Plataforma que ajuda a escolher cursos e carreiras investe na inclusão

Agora, na lista de perfis de profissões e formação disponíveis há também sugestões para pessoas com deficiência, graças à parceria com o ICF.


Contribuir para a inclusão das pessoas com deficiência no mercado de trabalho passou a ser uma meta ativamente prosseguida pela plataforma vocacional Design the Future, graças a uma parceria firmada com o Inclusive Community Forum (ICF) anunciada esta quarta-feira, 20 de março, na sede da Nova SBE, em Carcavelos. Além disso, a plataforma tem novas funcionalidades e a partir do próximo mês de abril, vai passar a alcançar milhares de novos utilizadores, a maioria estudantes, ao tornar-se parceira da Escola Virtual. E os planos da Design the Future não ficam por aqui: Inês Menezes, fundadora e responsável da plataforma quer que esta venha a ser um farol orientador para aqueles que no futuro queiram ou se vejam obrigados a mudar de carreira.

Neste momento, são dez, mas com o passar do tempo serão muitos mais, os vídeos disponibilizados na Design the Future que mostram exemplos de pessoas com deficiência que estão integradas com êxito no mercado de trabalho. “A iniciativa é o resultado de um projeto da Nova SBE e do ICF e o desafio que lançaram à Design the Future foi o de incluirmos e darmos destaque numa nova secção – a que chamámos o Inclusive Future – casos de sucesso e de empregabilidade de pessoas com algum tipo de deficiência, seja cognitivo, seja físico”, explicou Inês Menezes, a responsável que lançou a plataforma vocacional há pouco mais de três anos.

Um dos testemunhos relatados em vídeo no Inclusive Future da plataforma é o de Rodrigo Santos, um jurista empregado na Fundação para a Ciência e Tecnologia, a quem o facto de ser cego não impediu de terminar um curso, ser integrado no mercado de trabalho e estar até a preparar a sua tese de mestrado. “O que nós estamos a fazer, de uma forma inclusiva, é darmos a conhecer as profissões destes perfis, que são específicos”, disse Inês Menezes. A responsável acrescentou que os pequenos filmes têm exatamente o mesmo tratamento das mais de 250 profissões já constantes da plataforma: mostram o que fazem os profissionais visados e acrescentam-lhe uma ficha sobre as principais funções e atividades dessa profissão, o perfil desejável do profissional e a oferta formativa indicada para lá chegar.

A secção foi lançada no dia em que o Inclusive Community Forum (ICF), criado em parceria com a Universidade Nova SBE, organizou o seu primeiro evento anual. O tema debatido foi a empregabilidade das pessoas com deficiência e durante a iniciativa foi assinado um protocolo com 24 empresas de vários ramos para que estas aumentem nos seus quadros de pessoal o número de colaboradores com deficiência. A nova secção da plataforma Design the Future – que, tal como ICF e a Nova SBE, conta com o apoio privilegiado do Santander Universidades – foi, portanto, mais uma das iniciativas levadas a cabo por esta constelação de parceiros. “O objetivo é mostrar às empresas que estas pessoas têm um grau de capacitação muitas vezes semelhante às outras e que que é possível e benéfico integrá-las no mercado de trabalho”, disse Inês Menezes.

Outras funcionalidades novas
O Inclusive Future não é a única novidade da plataforma vocacional. Agora a Design the Future tem também a funcionalidade “Planear a Carreira“, que é inovadora pelo facto de reunir num só local toda a informação relevante para os estudantes ficarem a conhecer o leque de áreas de estudo e cursos disponíveis, as respetivas escolas de formação e as saídas profissionais.

“É um guia que não encontrei em lado nenhum, sob esta forma, e que, a partir de agora está disponível aqui”, sublinha Inês Menezes. Nele, está “agregada toda a oferta formativa que há para quem está no 9º e 12º anos e vai definir o seu futuro em termos quer de áreas, quer de curso, etc.” explicou a responsável, sublinhando que, inclusive, são referidos os cursos profissionais e técnicos (além dos superiores), quais são as condições de acesso e as qualificações que conferem. “O feedback que me vai chegando é que isto facilita muito a atuação das escolas, que o que fazem é fotocopiar e distribuir aos alunos um documento arrumado para que eles possam começar a planear a sua escolha, a sua carreira, e para isso têm aqui um guia completo”, referiu a responsável. “O Planear Carreira era uma secção chamada Design Your Life e que tinha vários conteúdos sobre exploração vocacional e sobre oferta formativa.

Aquilo que fizemos foi arrumar esta secção pelo target principal, que é o 9º ano, o secundário, e os encarregados de educação, e criar conteúdos específicos”, disse, sempre com o fito de tornar a Design the Future “uma plataforma de exploração vocacional que ajude os utilizadores em momentos-chave da sua vida”. De facto, além das várias ferramentas vocacionais que oferece, a Design the Future divulga em vídeo e fichas organizadas cerca de 250 profissões. “E, nesse aspeto, pode inspirar a dar a conhecer profissões de que os utilizadores nunca ouviram falar e toda a oferta formativa correspondente”, sublinhou Inês Menezes.

Aposta na interatividade com a Escola Virtual
Ainda sem ter completado os quatro anos de vida, a Design the Future não para de crescer. A partir do dia 20 abril, e graças a uma parceria que está em preparação com a Escola Virtual – a plataforma de apoio escolar da Porto Editora -, os conteúdos da Design the Future vão ganhar maior interatividade e chegar a milhares de novos utilizadores.

“O objetivo é dar um conteúdo sobre orientação vocacional, uma ajuda para a descoberta do curso e da profissão a seguir aos utilizadores da Escola Virtual”, explicou a fundadora da Design the Future. Segundo Inês Menezes, esta parceria traz um benefício mútuo e duplo. Por um lado, a Escola Virtual ganha “um conteúdo que não tem e sobre o qual tem bastante interesse – eles trabalham exatamente com este target, a partir da 1ª classe até ao 12º ano”, disse a responsável. Por seu turno, a Design the Future sai a ganhar pela “massificação dos seus conteúdos através de um número muito grande de escolas – eu penso que eles têm um número de contactos, se não me engano, de 60 mil professores e alunos por dia”, adiantou Inês Menezes.

Mas há ainda um segundo benefício, sublinhou a responsável: “é o facto de a Escola Virtual ter uma grande experiência em tornar estes materiais atrativos para o target, seja através da construção de fichas interativas, vídeos com explicações tutoriais, etc. Portanto, eles têm a possibilidade, os meios, as ferramentas e o know-how para transformar aquilo que são os conteúdos Design the Future e que estão aqui dispostos de uma forma estática, numa versão muito mais atrativa e interativa, o que, para mim, é uma grande mais-valia”.

Com os olhos postos no futuro
Para o futuro – e muito próximo, garante Inês Menezes -, a plataforma Design the Future quer alargar o seu raio de prestação de serviços para ir além dos estudantes. Para isso, a responsável “está a desenvolver um projeto com diversas entidades que vai tornar a Design the Future uma plataforma de orientação ao longo da vida”. Isto é, vai ajudar a reorganizar carreiras.

“Com as transformações do mercado de trabalho, a globalização, todas estas alterações que estamos a sofrer fruto dos avanços tecnológicos – nomeadamente da inteligência artificial no emprego –, cada vez vai ser mais necessário apoiar as pessoas nestas transições e assegurar que sejam capazes de avaliar continuamente as suas competências do ponto de vista técnico e de carreira para poderem continuar empregáveis”, explicou Inês Menezes. “Sabemos que as profissões vão mudar, umas provavelmente vão deixar de existir, também sabemos que vamos trabalhar até mais tarde e, por isso, faz sentido que as pessoas tenham um recurso a que podem aceder de forma livre, sem pagar, para poderem ter uma primeira ajuda, em termos de recurso vocacional ao longo da vida”, concluiu a responsável. Este é o próximo desafio a que a Design the Future irá tentar dar resposta, garantiu Inês Menezes